Gil do Vigor emociona com relato de fome na infância: "Não tinha como pagar"
Economista relaciona pobreza a problemas de saúde mental e expõe dificuldade de acesso a tratamento
Publicado em 22/09/2026 às 23:50
Gil do Vigor relembrou momentos de dificuldade financeira vividos durante a infância e contou que chegou a presenciar a mãe deixar de comer para conseguir colocar comida para os filhos. Em um trecho do programa Papo de Segunda, o economista também relacionou a pobreza à instabilidade emocional e defendeu que o acesso ao atendimento psicológico seja ampliado para pessoas que não têm condições de arcar com os custos de uma terapia.
Sentado em uma das poltronas do estúdio, Gil do Vigor apareceu usando um casaco cinza-claro sobre uma camisa em tom marrom-terracota. Durante o relato, falou de maneira expressiva e gesticulou enquanto explicava como as dificuldades financeiras podem afetar a saúde mental.
Ele começou contando uma lembrança envolvendo a mãe, que enfrentou um período de desemprego e passou por dificuldades para sustentar os filhos.
“Eu lembro que minha mãe sempre foi um exemplo de mulher muito forte, só que minha mãe, uma época, ela ficou um tempo sem ter emprego, e eu via que minha mãe ficava desesperada porque ela deixava de comer pra colocar comida para a gente”, contou.
Segundo o economista, a situação chegou ao ponto de a família correr o risco de ficar sem moradia. O proprietário da casa onde viviam cobrava o imóvel, enquanto a mãe de Gil enfrentava noites de choro diante da falta de alternativas.
“Teve um dia que minha mãe chorava, sem parar, noite após noite. O dono da casa tava pedindo a casa, expulsando a gente de casa, nós, literalmente, iríamos morar na rua”, relatou.
Foi nesse contexto que Gil recordou uma madrugada que ficou marcada em sua memória. De acordo com ele, a mãe chamou os filhos para rezar porque precisava de um milagre.“Eu lembro que, durante a madrugada, minha mãe, desesperada, chorando, chamou eu e minhas irmãs e falou assim: ‘A gente precisa orar porque eu preciso de um milagre!’”, afirmou.
A lembrança foi usada por Gil para explicar como a falta de dinheiro pode gerar uma sensação permanente de insegurança. Ele citou preocupações como aluguel, dívidas e alimentação como fatores que impedem uma pessoa de ter tranquilidade.
“A própria OMS, ela fala que a pobreza é um dos fatores que aumenta a probabilidade de você ter problemas de saúde mental. Porque, basicamente, você não tem estabilidade, você não tem segurança, você não tem casa própria, você precisa pensar já no aluguel, nas dívidas… ‘Como é que eu vou colocar comida dentro de casa amanhã? Como é que eu vou pagar o aluguel? Como é que eu vou custear alguma coisa?’”, disse.
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Na avaliação apresentada durante o programa, essa instabilidade financeira faz com que a pessoa permaneça constantemente em busca de segurança. Gil também mencionou jornadas de trabalho extensas como outro elemento que pode dificultar o acesso a cuidados psicológicos.
A partir daí, ele questionou uma solução frequentemente apresentada para quem enfrenta problemas de saúde mental: a terapia. Segundo Gil, embora o acompanhamento profissional seja apontado como uma forma de buscar ajuda, o custo pode se tornar uma barreira para parte da população. “E aí a gente fala assim: ‘Qual é a solução? Vamos fazer terapia? Vamos buscar ajuda!’ Só que essa ajuda é cara, minha gente!”, afirmou.
Ele apresentou uma conta com base em uma estimativa de R$ 350 por sessão semanal e argumentou que o valor pode representar uma parcela significativa da renda de uma pessoa que recebe salário mínimo.
“Em média, o custo de uma terapia semanal que você faz é R$ 350,00. Aí, se você fizer isso 4 vezes na semana, durante um mês, lá vai 80% de um salário mínimo. Sendo que 70% da nossa população ganha menos de 2 salários. Como é que essas pessoas vão pagar, minha gente? Não consegue!”, declarou.
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Gil do Vigor também falou sobre a própria experiência profissional para mostrar outra dificuldade: mesmo quando existem serviços gratuitos, o horário pode impedir que trabalhadores tenham acesso ao atendimento.
“Até quando você consegue ter esses lugares que dão gratuitamente (terapia), mas eu falava: ‘Olha, eu trabalhava de segunda a sábado, por exemplo, e eu saía de casa de 8 da manhã, voltava 9 da noite, 10, 11 horas. Em que momento eu vou conseguir encaixar isso?’”, questionou.
Gil do Vigor falou sobre saúde mental
Para o economista, discutir saúde mental também exige considerar as condições materiais de vida de quem precisa de atendimento. Ele defendeu que o debate seja ampliado para que o acesso ao suporte psicológico não fique restrito a quem consegue pagar ou tem disponibilidade de horário.
“Então, como é que uma pessoa numa situação dessa consegue ter essa estabilidade? Então, eu acho que sim, a gente tem que falar muito sobre saúde mental, mas também trazer pra realidade do brasileiro e conversarmos que a gente precisa de algum tipo de sistema que gere esse apoio pras pessoas que precisam e que muitas vezes não têm como pagar”, afirmou.
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Ao concluir o relato, Gil reforçou que considera necessário tratar o acesso à saúde mental como uma questão social e ampliar as possibilidades de atendimento para diferentes parcelas da população.
“Então, são fatores que a gente precisa realmente conseguir conversar, debater como sociedade, pra que a gente consiga levar pra mais pessoas, pra que a gente entenda que já é um assunto sério, é um fator extremamente importante, mas que a gente tem que acessibilizar pra muita gente”, concluiu.