Premiação
Entrevista exclusiva

Livro revela absurdos da ditadura e bastidores da censura a Roque Santeiro

Chame o Ladrão, de Miguel De Almeida, narra como artistas resistiram à repressão do regime militar


Lima Duarte e Regina Duarte em Roque Santeiro
Com Lima Duarte e Regina Duarte, a novela Roque Santeiro foi ao ar em 1985 após ter versão censurada 10 anos antes - Foto: Divulgação/Globo

O livro Chame o Ladrão, de Miguel De Almeida, resgata histórias reais de criatividade, coragem e subversão cultural durante a ditadura militar. A pesquisa mostra como os artistas driblavam a censura durante o período em que a Censura Federal vetava a arte, quase sempre sem muito critério.

Músicas eram um alvo preferencial dos censores, e a publicação resgata o contexto de lançamentos como Apesar de Você e Acorda, Amor, de Chico Buarque, e Aquele Abraço, de Gilberto Gil.

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A TV também enfrentou o desafio de manter histórias ousadas e relevantes no ar passando pelo crivo da ditadura. O caso mais emblemático é o de Roque Santeiro, censurada no dia da estreia, em 1975, e que só foi levado ao ar, em outra versão, em 1985, já no fim do regime militar.

Nem por isso a trama passou incólume, já que a Censura Federal só foi extinta de fato em 1988. Até então, vários capítulos, entrechos e até produções na íntegra também foram impedidos de ir ao ar.

Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, Miguel De Almeida elege a história mais surpreendente que descobriu nos três anos de pesquisa para o livro. O jornalista também fala da censura à novela e opina que o ímpeto autoritário de censura se mantém vivo na sociedade nos dias atuais.

Leia a entrevista com o jornalista Miguel De Almeida, autor do livro Chame o Ladrão

NaTelinha: Chame o Ladrão envolveu três anos de pesquisa. Qual foi o fato ou história mais surpreendente para você durante esse trabalho?

Miguel De Almeida: O livro traz muitas histórias surreais. Principalmente pelo surreal da situação – havia uma ditadura que desaparecia e matava os adversários –, os acontecimentos e as reações não caminhavam pelo normal.

Destaco uma delas: o diretor-geral da Censura Federal, Romero Lago, o homem que censurava e permitia ou não o que os brasileiros pudessem ouvir e ler, era um assassino perseguido por duas mortes no Rio Grande do Sul. Ele se chamava na verdade Hermelindo Ramirez Godoy.

Depois de matar dois homens no interior gaúcho, ele fugiu para o Paraguai e retornou com nome falso ao Brasil. Mudou-se para o Rio de Janeiro, chegou a ser ajudante de ordens de Getúlio Vargas e ascendeu na carreira de funcionário público. Mas era um foragido da justiça pelo crime de homicídio.

O ministro da Justiça Gama e Silva se viu obrigado a convocar uma entrevista coletiva, ao lado do chefe da Polícia Federal da época, para confessar o problema. Era 1968, época no qual o regime militar começava a se tornar mais ditatorial com a edição do AI-5. Para se ver como era mambembe o governo golpista de 1964.

Betty Faria e Lima Duarte em Roque Santeiro
Betty Faria e Lima Duarte na primeira versão de Roque Santeiro, impedida de ir ao ar em 1975 - Foto: Divulgação/Globo

NaTelinha: O livro cita a censura a Roque Santeiro em 1975 e 1985. Quais eram os diferenciais, em relação às outras artes, dos vetos nas novelas e na TV?

Miguel De Almeida: A censura a Roque Santeiro, em 1975, resultou de um grampo no telefone do Dias Gomes, autor da novela. Ele disse ao seu interlocutor que a novela se baseava na sua peça O Berço do Herói, que estava proibida pelos militares. Era uma adaptação, mas o enredo usava o esqueleto da peça.

Até então, a censura limitava-se a cortes nas falas ou cenas. A proibição total nunca ocorrera antes. Dias Gomes era visto como comunista inimigo do regime militar. A ideia dele em usar sua peça proibida ocorreu num ano dramático para o Brasil – assassinato de Vladimir Herzog no porão do Doi-Codi e uma desobediência militar ao comando de Ernesto Geisel.

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NaTelinha: Solange Hernandes se tornou uma figura folclórica do período. Na sua percepção, por que ela se tornou uma censora tão lembrada?

Miguel De Almeida: Ela teve a infelicidade – para nós: felicidade total – de assumir no período em que a ditadura sofria desgastes e se encaminhava para seu triste final.

Para lembrar, o presidente Figueiredo se envolveu numa briga de rua com estudantes em Florianópolis. Imagine!, um risca-faca envolvendo o próprio general e sua equipe de segurança. Significou que a população estava de saco cheio dos milicos.

Solange entrou nesse momento e teve de encarar ainda uma geração de artistas destemidos e bocudos. Caso de Rita Lee, muito censurada por ela, e que levou seu nome para a boca de suas plateias: “Dona Solange, a senhora já ouviu falar em Modess?”. Rita Lee bateu de frente com ela, dando nome aos bois (digamos assim), pessoalizando a censura na figura da Solange.

E houve ainda o caso dela querer driblar os votos favoráveis à liberação do filme Pra Frente, Brasil, sendo desmascarada pelos próprios colegas da censura. E chamada à responsabilidade pelo Conselho Superior de Censura. Ao que ela respondeu à imprensa: “quis proteger o público”.

Era uma senhora que nunca casou, mais radical que os próprios superiores militares, certamente dominada por alguma patologia. Eu não a conheci, felizmente, mas acredito pelas fotos que ela ouvia vozes.

NaTelinha: Em certo trecho, você aponta que “o impulso autoritário sobreviveu nas sombras” com o fim da censura federal em 1988. Você percebe esse ímpeto nos dias de hoje? Em caso positivo, em que situações ele aparece?

Miguel De Almeida: Os militares não deram o golpe e ficaram no poder tantos anos apenas pela força das armas. Parte da sociedade os apoiava, comungava (!) de sua visão de mundo e de seus métodos. Não pense que muitos não achavam importante torturar e matar adversários políticos. Afinal, eram comunistas – e comunista deve morrer, pensavam. Entre as vítimas, jovens de 20, 20 e poucos anos, meu Deus.

O sadismo das torturas não pertencia apenas aos torturadores, mas vinha na pele da nossa sociedade. Basta ver o número de homicídios anuais no Brasil – somos uma sociedade muitíssimo violenta.

Agora, passada a ditadura, a sociedade mostra seu lado autoritário à esquerda e à direita, só que sem máscara e o biombo dos militares. Quando se proíbe a exibição de um ator usando o recurso da blackface ou se proíbe uma mostra como Queermuseu, em 2017, a sociedade mostra seu ranço autoritário. O curioso é que teve apoio de pessoas que jamais entraram em um museu em toda a vida! Nem no Brasil e nem em Miami, onde essa classe média gosta de passar temporadas.

Ao mesmo tempo, se deliciam com as músicas do “sertanojo” cujas letras só falam de personagens traídos – é uma tal “cornificação” assustadora.

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