Doc Investigação: Thais Furlan diz qual criminoso mais tentou lhe enrolar e revela bastidores
"Não nos inspiramos em ninguém", diz ela sobre o programa que terminou sua terceira temporada na Record
Publicado em 28/08/2026 às 04:05,
atualizado em 28/08/2026 às 16:41
O Doc Investigação encerrou sua terceira temporada na noite dessa quinta-feira (27), na Record. À frente do jornalístico, Thais Furlan ficou cara a cara com diversos criminosos. Ainda que a lista deles tenha sido extensa, não titubeou quando questionada sobre quem mais tentou lhe enrolar. "Jairinho. Sem dúvida foi o Jairinho", diz ela em entrevista exclusiva ao NaTelinha.
Quem viu os episódios do programa na Record não imagina o trabalho que é levá-los ao ar. "Não me sento diante de nenhum entrevistado sem saber 100% daquele processo ou inquérito. Isso significa varar noites, chegar a um presídio sem dormir há três ou quatro noites porque estou estudando e relendo. Não consigo não estar preparada", diz ela, que não abre mão de atuar diretamente na produção.
O gênero 'true crime' está escasso na TV aberta - para não dizer que inexiste, com exceção do próprio Doc Investigação -, e Thais diz que não buscou inspiração em nenhum outro lugar. "Não encontramos nenhum formato parecido. No true crime de streaming, normalmente existe o documentário sem narração, com uma entrevista colada na outra e todos sentados. Não há essa busca pela informação, esse movimento de procurar, confrontar e cobrar respostas. É quase um jornalismo de relato sobre o que aconteceu. Fomos encontrando a nossa própria forma de fazer", detalha.
Ao longo da entrevista, ela revela os bastidores do programa, que vão desde cartas aos presídios, longas negociações com entrevistados e até o fato de ter procurado 13 ou 14 assaltantes no plano de roubo ao Banco do Brasil, mas somente dois terem topado falar. "Exigiu muito convencimento", relembra.
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Confira a entrevista na íntegra:
NaTelinha - Quando aparecem os créditos finais, a impressão é que existe pouca gente para cuidar de um programa desse tamanho. A equipe do Doc Investigação é realmente enxuta? Como funciona a divisão do trabalho?
Geralmente, funciona assim: cada editor pega dois episódios, mas cada programa fica concentrado em um editor, um produtor e em mim. Atuo diretamente na produção desde a primeira temporada e não abro mão disso. São três ou quatro pessoas focadas em fechar aquele episódio, todas sabendo muito sobre o crime e a investigação.
É uma forma de conseguirmos ser mais precisos. Quando muita gente dá palpite sobre um único caso sem conhecê-lo com profundidade, existe um risco. A equipe enxuta é uma escolha nossa e funciona melhor.
NaTelinha - Quanto você se prepara para cada episódio? Diante de investigados, acusados e condenados, você reage muito rapidamente às tentativas de escapar das perguntas. Você está sempre afiada. Tudo bem que pode ter a questão da edição, mas você sempre reage muito rapidamente.
Essa edição do bate-pronto quase não acontece. A entrevista acontece daquele jeito. Sempre viajamos ou vamos ao presídio com no mínimo duas câmeras. Nos presídios, por exemplo, são três: duas no entrevistado e uma em mim. Aquilo é muito real. Seria até leviano tentarmos falsear.
As entrevistas também acontecem na presença dos advogados dos condenados ou dos réus. Talvez tenha muito da minha personalidade, porque sou acelerada. Não sou ligada no 220, acho que sou no 440. Sou rápida e falo muito rápido. Talvez isso me ajude, porque já faz parte da minha personalidade.
Mas existe um preparo fundamental. Não me sento diante de nenhum entrevistado sem saber 100% daquele processo ou inquérito. Isso significa varar noites, chegar a um presídio sem dormir há três ou quatro noites porque estou estudando e relendo? Significa. Não consigo não estar preparada.
Quando você está com aquela informação muito fresca, a sua reação é autêntica e verdadeira. Você não está fabricando nada, porque está com a informação consolidada.
NaTelinha - Por que pessoas já condenadas e presas aceitam conversar com você? Existe algum tipo de incentivo financeiro?
Não existe. No nosso programa, não existe incentivo financeiro. Aprendi com grandes psiquiatras forenses que todo psicopata quer fazer propaganda do crime que cometeu até o dia em que morrer, porque, no fundo, é um grande exibicionista. Quando lidamos especificamente com esse tipo de condenado ou réu, o convencimento é mais fácil porque ele quer falar. No fundo, ele quer falar.
Mesmo assim, é um trabalho de convencimento que demora. Houve preso que levei mais de dois anos para conseguir. Em um dos casos, foram quase 36 ou 37 meses. É um trabalho de formiga. Teve preso desta temporada que comecei a tentar entrevistar na primeira.
Mando cartas para eles nos presídios. Tenho um monte na minha casa. Eles respondem, alguns de forma mais arredia, e eu continuo escrevendo. Para eles, receber uma carta também é uma forma de passar o tempo. Quando entendo que existe um aceite, procuro o advogado. Em alguns casos, procuramos o advogado primeiro.
Não conseguimos enviar cartas diretamente para presos de segurança máxima. Nesses casos, procuramos primeiro o advogado, escrevo a carta e peço que ele a leve durante uma visita. Não abro mão desse contato.
Logo de cara, digo: "Não estou oferecendo um documentário com uma tese de defesa. Isto é para você dar a sua versão sobre o que fez".
Entrevistar um criminoso não é apagar a vítima. Pelo contrário. É fazer a pergunta correta para causar desconforto e obrigá-lo a encarar de frente aquilo que fez.
Quando você está preparado e faz as perguntas corretas, o entrevistado invariavelmente acaba escancarando onde o sistema falhou que permitiu que aquele crime acontecesse? Isso se transforma em um aprendizado para a sociedade.
No caso do serial killer de Alagoas, ele contou detalhadamente como stalkeava as vítimas. Também mostramos que a polícia não investigou porque era um crime de pobre. Não é apenas a história de um psicopata que saiu matando. Ele poderia ter sido parado na primeira morte se três inocentes não tivessem sido presos. Aquilo virou uma bola de neve.
Ele também mostrou claramente que monitorava meninas de 13 anos que mantinham as redes sociais abertas. Jamais queremos apagar a vítima. O confronto que faço causa um desconforto imediato, que acredito ser o mesmo sentido por quem está em casa.
Em determinado momento, falei: "Albino, uma menina de 13 anos... Sou mãe de duas meninas de 13 anos. Como um tiro na bochecha pode não ser para matar?". Acho que foi o que o telespectador pensou quando ele disse que não queria matar.
Em quase 100% dessas entrevistas com criminosos, conseguimos revelar coisas, causar esse desconforto e fazer perguntas que eles nunca foram obrigados a responder, porque nunca interessou a ninguém perguntar.
NaTelinha - No episódio sobre o plano de roubo ao Banco do Brasil, vocês conseguiram entrevistar dois integrantes da quadrilha. Como você chegou a eles e os convenceu a falar?

Um ladrão de banco não quer ser encontrado. Ele não tem um telefone comum, registrado no nome dele, que você procura e acha. Existe um trabalho enorme de investigação até chegar a essa pessoa.
Nesse caso, tentei falar com 16 assaltantes. Conversei com 13 ou 14, se não me falha a memória, para conseguir dois. Um não mostrou o rosto e o outro mostrou. Exigiu muito convencimento.
Tínhamos três delegados e um investigador muito importante contando como conseguiram impedir o crime. Eles fizeram um trabalho incrível, mas também mostramos o outro lado: os criminosos quase conseguiram. Quem poderia contar isso, senão um assaltante? É um acesso jornalístico raríssimo. Como disse um dos delegados, o ladrão de banco está no topo da cadeia criminosa.
É um acesso raro, mas comprometido e pautado pela ética jornalística. Durante a negociação, sempre explico: "Esta não é a sua tese. Vou fazer as perguntas e você responderá". Não enviamos perguntas previamente. Isso não existe.
O programa conquistou essa característica ao longo das temporadas. O público se senta para assistir ao Doc Investigação esperando que a nossa investigação confronte réus, condenados e pessoas julgadas por crimes tão bárbaros.
NaTelinha - Um dos assaltantes chegou a mostrar o rosto e deu muitos detalhes. O que ele ganhava ao se expor daquela maneira?
Sou a pessoa mais otimista com quem você trabalharia na vida. Sempre acho que dará certo, mesmo quando recebo 50 nãos. No caso desse assaltante, eu achava que conseguiria a entrevista, mas não acreditava que ele mostraria o rosto. Por isso, o primeiro que gravei foi justamente o que não apareceu.
Mas você se encontra muitas vezes com essas pessoas e cria uma relação. Não diria exatamente uma relação de confiança, mas uma proximidade que permite explicar: "Você colocará a sua vida em risco se mostrar o rosto? Já pagou por esse crime?". Ele não colocaria a vida em risco e já havia cumprido a pena.
Não sei te responder. Ele não ganhou nada. Talvez existam relações e desavenças daquele submundo que não conseguimos compreender. Sabemos que, naquele crime, um informante ligado a um dos integrantes da quadrilha foi responsável pelas prisões. Talvez tenha existido uma vingança, um desejo de contar como tudo aconteceu.
Ele contou exatamente como ocorreu. Depois, ligamos para a polícia para conferir a entrevista, e os investigadores confirmaram que tudo havia acontecido da forma relatada.
Também pode existir o desejo de dizer: "Hoje, já que mostro o rosto, não sou mais bandido. Paguei e estou livre para viver em sociedade". Mas ele começou no crime aos 13 anos e a roubar bancos aos 19. Nunca conseguiremos entender completamente essa cabeça sob a nossa ótica. Mesmo assim, não desisto. Tento até o fim.
NaTelinha - O episódio já estava montado antes de vocês conseguirem essas entrevistas?
Já estava editado sem os assaltantes. O programa sobre os envenenamentos também já estava pronto. Foram três versões: primeiro sem os dois acusados, depois com um e, por fim, com ela. É uma trabalheira que você não faz ideia. O programa está pronto e precisamos voltar à ilha para fazer tudo novamente.
NaTelinha - Já aconteceu de uma pessoa conceder a entrevista e depois pedir que ela não fosse exibida?
Essas pessoas assinam um termo de direito de imagem antes da gravação, como qualquer entrevistado da Record. Também explico previamente como será a entrevista. Elas são criminosas, mas absolutamente inteligentes. Não esperam uma conversa amena.
Não é algo recorrente, mas já aconteceu. Em um episódio sobre o crime de Serrambi, uma pessoa concedeu a entrevista e depois pediu que ela não fosse ao ar. Respeitamos e não colocamos, mas avisei que o documentário informaria que havíamos gravado com aquela pessoa e que ela havia se arrependido e não queria mais aparecer. O público entende o que isso quer dizer. É suspeito, não?
NaTelinha - Um pouquinho só...
Não é recorrente, não. Os advogados também participam dessa negociação para a concessão ou não da entrevista.
NaTelinha - Existe alguém que você tenta entrevistar há muito tempo e ainda não conseguiu?
O mais difícil é sempre o próximo. Existe uma pessoa que tento entrevistar desde março de 2023 e ainda não consegui.
NaTelinha - Fica para o ano que vem?
Quem sabe, se houver uma quarta temporada? Ela responde às minhas cartas. Se eu mandar uma por dia, responderá uma por dia.
Quando o programa está no ar, também acontece um efeito muito interessante: familiares de vítimas de casos de grande repercussão me procuram e dizem: "Vá atrás. Tente entrevistar o homem que fez isso com a minha filha". Ter esse pedido e o respeito de quem sofreu tanto é incrível.
NaTelinha - O caso do falso fotógrafo foi o episódio de que mais gostei, mas terminei sem entender o que a mulher por trás de Eduardo Martins ganhou com tudo aquilo. Ela não obteve fama nem dinheiro e ainda gastava com presentes e procedimentos para outras pessoas. Qual você acredita ter sido a motivação?

Eu também. Esse é o grande plot do caso. O que você espera de um golpe? Que aquele fotógrafo ganhasse dinheiro. Mas nunca foi um golpe contra a mídia. Sempre foi um catfishing. O perfil apenas ficou famoso demais.
Ela já vinha aplicando esse golpe desde 2008 e conseguia manter relacionamentos com mulheres. Em determinado momento, criou um perfil que cresceu muito e aquilo passou a alimentar o ego dela.
Você tinha Daniele Suzuki e Bruno Gagliasso interagindo com aquele perfil, além de modelos famosas, enquanto ela mantinha relacionamentos com algumas pessoas. Preservamos muita gente que pediu para não ser identificada, porque esse é um papel importante que temos com as vítimas.
Pessoas muito famosas namoraram virtualmente essa pessoa. Houve gente famosa que deu acesso às câmeras da própria casa para o fake. Ele conseguia acompanhar a pessoa chegando e saindo de casa, tamanho era o envolvimento, sem que eles nunca tivessem se encontrado.
Acho que ela queria manter namoros virtuais. O perfil cresceu demais e ela perdeu o controle. Precisava corresponder à expectativa: "Se você é um fotógrafo de guerra, onde estão as suas fotos?". Acredito que tenha começado assim a alimentar o outro lado, até publicar imagens.
A imprensa validou aquele perfil. E cortamos na própria carne ao mostrar isso. Por que validou? Porque era um homem bonito, branco e com cara de rico. Não era qualquer pessoa que a imprensa validaria daquela maneira. Ninguém checou.
O que ela ganhava? Nada. Mesmo nos relacionamentos anteriores à fama do perfil, ela pagou próteses de silicone para mais de duas mulheres, além de dar iPad, celular e outros presentes.
Eu queria muito que ela tivesse concedido a entrevista. A recusa também revela algo sobre o que fez e sobre a personalidade dela. Não sei se existe algum diagnóstico ou transtorno de personalidade. Não posso afirmar. Sei que a família sabia.
NaTelinha - Ela chegou a processar a Record por causa da investigação?
Que eu saiba, não. Não fui notificada. Também seria uma ação contra uma investigação para a qual temos cerca de cinco pastas de documentos.
Em aproximadamente 25 anos de jornalismo, nunca perdi nenhum processo. Não coloco no ar nada que não esteja absolutamente embasado. Tenho uma equipe de jornalismo investigativo fenomenal para fazer esse trabalho.
Não acredito que ela vá processar, mas também não me preocupo com isso. Se eu começar a fazer jornalismo pensando no risco de um processo, preciso passar para o outro lado do balcão. Ser processada faz parte do jogo.
Precisamos estar preparados para não perder um processo. Não apenas pelo dinheiro, mas pelo que isso representa para a nossa ética jornalística.

NaTelinha - Cada episódio tem aproximadamente 45 ou 50 minutos. Quantas horas de material bruto precisam ser condensadas até chegar à versão final?
É muita coisa. Uma entrevista em presídio depende muito do tempo concedido pela unidade, mas, no caso dos envenenamentos, tínhamos entre três e quatro horas apenas com os dois acusados. Depois, havia mais uma hora e meia com o promotor, uma hora e meia com o delegado e uma hora com os familiares da vítima.
Nesse caso de Ribeirão Preto [Garnica], ainda queríamos entrevistar os amigos de Larissa, mas nenhum aceitou falar. Nunca parei para fazer a conta exata, mas trabalhamos, em média, com 12 a 15 entrevistados por episódio. Nesta temporada, talvez tenham sido 10 em alguns casos, porque tivemos entrevistas muito importantes com as pessoas diretamente envolvidas.
NaTelinha - Quem chegou a dizer que gravaria e recuou?
Mizael Bispo. Ele chegou a dizer que gravaria. Entrou na minha rede social e começou a falar de mim achando que estava escrevendo em uma página da Record. Respondi: "Você não me conhece. Quer falar comigo?". Ele se assustou e pediu o meu WhatsApp.
Depois, enviou mensagens, encontrei com ele e começamos a negociar, mas deu para trás. Vou por como medo.Colocou o advogado para falar.
Existe uma questão de ética jornalística, mas também uma questão jurídica. Somos obrigados a procurar todas as partes. Se faço um documentário sobre um assassinato, seja de uma criança, de um idoso ou de qualquer pessoa, preciso procurar o acusado ou condenado. Caso contrário, ele pode pedir direito de resposta. A premissa básica do bom jornalismo também é ouvir todos os lados. O direito exige que a gente ouça todos os lados.
Procurei Mizael Bispo, embora, na verdade, ele praticamente tenha me procurado ao provocar na rede social. Depois, ficou com medo e não falou.
NaTelinha - No episódio sobre o túnel, o programa mostra detalhadamente a engenharia do plano. Onde está o limite entre explicar a sofisticação do crime e fornecer uma informação que possa ensinar alguém a cometê-lo?
Temos isso em mente. Quando entendemos que determinada informação pode ensinar uma modalidade nova de crime, ela nem entra no programa.
Nesse caso, tratamos de crimes de grande repercussão e os detalhes já estavam em processos públicos. Para um assaltante de banco, aquilo que mostramos sobre o túnel é o básico. Pessoas que cometem crimes grandiosos já têm uma sofisticação muito grande.
Mas, se encontramos uma informação que pode ensinar alguém ou despertar a ideia de cometer um crime de determinada maneira, não precisamos mostrá-la. Não diremos qual foi a dosagem de chumbinho usada para matar alguém, como a substância foi misturada ou como fizeram para ela não aparecer no corpo. Jamais colocaremos esse tipo de informação, porque é irrelevante.
NaTelinha - Depois do Doc Investigação, semana que vem começa sua participação no Repórter Record Investigação...
Teremos um Repórter Record Investigação sobre o deslocamento forçado no Ceará. Pessoas estão sendo expulsas das próprias casas por grupos criminosos e perdem tudo de um dia para o outro. Gravamos em vários locais, numa situação muito tensa e perigosa.
O último é sobre o Haiti. Fui ao país para mostrar as mulheres violentadas por soldados de uma missão que deveria ser de paz e os filhos que nasceram dessas violências. São crianças abandonadas por esses homens e mulheres sem nenhuma ajuda financeira, num país em guerra civil.
Gravamos numa situação de extrema violência. Precisávamos pedir autorização às gangues para acessar determinadas ruas e chegar às casas dessas mulheres. Fomos expulsos de locais de gravação sob a mira de fuzis. É um trabalho investigativo e de direitos humanos muito importante. Construí minha carreira nesse caminho entre o jornalismo investigativo e os direitos humanos.
NaTelinha - O Doc Investigação tem um formato muito próprio e consegue condensar uma grande quantidade de material sem deixar a sensação de falta ou excesso. Houve alguma inspiração em produções nacionais ou internacionais?
Os editores são muito bons e o editor-chefe também. Não nos inspiramos em ninguém. Quando começamos a primeira temporada, meu chefe disse: "Precisamos trazer para dentro da câmera e do episódio exatamente o nosso processo de criação".
É mandar carta para um criminoso, ligar para outro, entrar em contato com um presídio e buscar uma resposta. A agilidade que temos na apuração se reflete claramente na edição. Somos assim. Acho que também existe muito da minha personalidade. Sou uma pessoa agitada e qualquer coisa muito lenta não me agrada.
O público da TV aberta também quer isso. Ele se senta diante da televisão, mas existe um celular competindo, um filho chorando e várias outras coisas acontecendo dentro de casa. Não é possível parar e voltar. Se o conteúdo não ficar muito bem explicado e conciso, não conseguimos manter esse público.
Não encontramos nenhum formato parecido. No true crime de streaming, normalmente existe o documentário sem narração, com uma entrevista colada na outra e todos sentados. Não há essa busca pela informação, esse movimento de procurar, confrontar e cobrar respostas. É quase um jornalismo de relato sobre o que aconteceu. Fomos encontrando a nossa própria forma de fazer.

NaTelinha - O que um caso precisa ter para entrar no Doc Investigação? Além de fama, é claro.
Precisa ter uma boa história. Se existe um mistério, é bom. Se há uma dualidade de versões, como no caso dos envenenamentos, também. Se conseguimos mostrar a mente de um psicopata, explorar erros judiciais, aberrações e displicência, é bom.
Precisamos pensar num grande enredo. Mistérios funcionam, assim como a solução de um caso, como aconteceu com o fotógrafo da ONU. Ele foge muito do meu estilo mais habitual. O roubo ao banco também, porque é um crime que não deu certo. Uma grande revelação no final ajuda.
Quando iniciamos cada temporada, partimos de uma lista de no mínimo 30 casos. É o mínimo. Na primeira temporada, fizemos 12 episódios. Na segunda, oito. Muitos não conseguimos realizar.
Às vezes, investigamos tudo e o assassino recua na última hora. Em outras, a família da vítima pede que não façamos. Podemos já ter toda a investigação pronta, mas respeitamos muito as famílias. Esse é sempre o nosso primeiro olhar.
Sou filha de dona Sandra e de seu Laércio. Venho de uma família muito simples, de pessoas batalhadoras, com caráter, honestidade e um olhar para o outro. Sempre que surge uma dúvida, paro e penso: "O que os meus pais teriam me ensinado a fazer quando eu era criança?". A resposta sempre vem correta.
Por isso, dissemos: "Está bem, não faremos". Não significa que eu não tentarei novamente, porque essa história precisa ser contada e essas pessoas foram muito injustiçadas. Mas perdemos muito tempo com casos que depois não conseguimos colocar no ar. Faz parte do jogo.
NaTelinha - Existe algum caso que você sonha em fazer, mas já concluiu que não será possível?
Você acredita que não? Sempre acho que dará certo. Existe um que ainda não consegui tirar do papel, mas tenho certeza de que abrirá uma próxima temporada. Não posso revelar.
O mercado de streaming é muito aquecido. Existem equipes grandiosas e admiráveis de outras plataformas que também precisam produzir. Estamos o tempo inteiro investigando histórias que outras pessoas podem estar investigando. Eu não sei o que elas estão fazendo e elas não sabem o que estou fazendo.
No jornalismo policial investigativo cotidiano, eu conseguia substituir fontes. No true crime, isso não é possível. Se vou contar o caso de Ronnie Lessa, preciso ter o delegado do caso, o próprio Ronnie, um investigador e um parente da vítima.
No caso de Albino, precisava ter o serial killer, as vítimas, o promotor, o delegado, o investigador e os peritos. Entrevistei três peritos. Não poderia simplesmente procurar um perito ou um delegado genérico para falar.
No jornalismo de direitos humanos, por exemplo, existem especialistas que conseguem discutir vários casos e vítimas de crimes semelhantes. No true crime, temos uma pessoa específica para cada função.
Preciso convencer entre 10 a 15 pessoas a participar de um documentário. Se duas desistirem, posso perder toda a gravação e a investigação. É muito difícil.
NaTelinha - Alguma edição do Doc Investigação já foi inteiramente descartada ou estão em stand-by?
Existem duas em stand-by. Ainda não joguei nenhuma edição inteira no lixo, mas já descartei muita apuração. Já passamos dois meses debruçados sobre um caso e depois não demos sequência por inúmeros motivos.
Também descartamos quando percebemos que não conseguiremos aprofundar a história, que será apenas recontar um crime por recontar e que não existe nenhum aprendizado. Às vezes, só descobrimos isso depois de dois meses investigando.
NaTelinha - A quarta temporada do Doc Investigação já está garantida na grade da Record?
Ainda não tenho essa informação. A Record costuma definir a grade no fim do ano. Se houver uma quarta temporada, ficarei muito feliz. Os fãs estão pedindo.
NaTelinha - Você acompanha os números de audiência? Você fica ligada nisso?
Nunca fico. O programa está apresentando um desempenho muito bom, principalmente considerando o horário, que é difícil. Mas trabalho em televisão desde 2003 e nunca procurei me apegar à audiência para não me orientar por algo que não deve determinar o meu trabalho.
A guerra de audiência nem sempre reflete a qualidade do programa. Se estiver passando uma partida de Libertadores entre Corinthians e Palmeiras naquele horário, isso foge ao nosso controle.
O programa performa bom desempenho e chegou à terceira temporada. Quando fui convidada, seria apenas uma. Nem sonhava chegar à terceira. Se vier uma quarta, será muito bom. Já estou realizada.
NaTelinha - Como evitar que criminosos usem o Doc Investigação e a Record para construir um personagem ou glamourizar os próprios crimes?
Confrontando com argumentos rigorosos. Eles não vão chegar ali para contar uma história fantasiosa sem serem questionados. Por isso, em determinadas entrevistas, a minha postura precisa ser mais incisiva. Preciso reagir de acordo com aquilo que o réu ou entrevistado está dizendo.
Contra fatos não há argumentos. Ele fala e eu rebato. Elizabete [Arrabaça], por exemplo, dizia: "Pesquisei chumbinho porque gosto de pesquisar no Google". Não. Ela pesquisou por um motivo, e eu sabia o que havia feito.
Se eu fizesse uma entrevista rasa ou despreparada, iria ao ar apenas a negativa dela. Mesmo quando a pergunta de confronto não aparece na edição, colocamos um promotor ou delegado com autoridade para rebater o argumento. Sempre damos o contraponto.
Foi assim no caso de Jairinho e Monique Medeiros. Jairinho contava uma história que, para a defesa do pai de Henry Borel, era fantasiosa. Quando entrevistei a outra parte, apresentei tudo o que Jairinho havia dito.
Não permitimos que se construa uma narrativa fantasiosa ou de glamourização. Isso se chama preparo, não ter medo de confrontar e oferecer os argumentos.
NaTelinha - Quem mais tentou te enrolar durante uma entrevista?
Jairinho. Sem dúvida, foi quem mais tentou.