Assassino de Marielle Franco diz que ficou "cego" por dinheiro: "R$ 25 milhões que era a minha parte"
Ex-policial militar fala sobre um crime político que alcançou repercussão internacional
Publicado em 27/08/2026 às 09:21,
atualizado em 27/08/2026 às 09:31
O último episódio da terceira temporada do Doc Investigação traz uma entrevista exclusiva e inédita com Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Ele aceita falar diante das câmeras sobre o crime e fica frente a frente com a apresentadora Thais Furlan, no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde está preso desde novembro do ano passado. "R$ 25 milhões que era a minha parte", admitiu ele em material que irá ao ar nesta quinta-feira (27), a partir das 22h30, na Record.
Lessa foi condenado em outubro de 2024 pelos assassinatos de Marielle e Anderson e pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que estava no carro e sobreviveu ao ataque. Neste mês, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro aumentou sua pena de 78 anos e nove meses para 81 anos e 10 meses de prisão. A punição de Élcio Queiroz, que dirigiu o veículo usado no crime, também subiu, de 59 anos e oito meses para 76 anos e seis meses.
O programa traça um perfil de Lessa e reconstrói a trajetória do ex-policial militar, que passou pelo Bope, a tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, antes de se tornar um dos personagens centrais de um dos crimes políticos de maior repercussão da história recente do país. A reportagem parte justamente dessa transformação para buscar respostas. "Em que momento você passa para o lado de lá? Em que momento começa a trabalhar para o crime?", questiona a jornalista.
Marielle Franco e Anderson Gomes foram mortos a tiros na noite de 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. A investigação se arrastou durante anos até ganhar um novo rumo a partir das delações premiadas de Élcio Queiroz e Ronnie Lessa. O acordo de Lessa com a Polícia Federal foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2024 e forneceu elementos que ajudaram a levar ao banco dos réus os acusados de planejar o crime. O próprio STF destacou posteriormente que o relato do ex-PM foi confrontado com depoimentos, documentos e outros elementos colhidos durante a investigação.
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O assassino de Marielle Franco

Lessa afirmou à Polícia Federal que os irmãos Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, e Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, encomendaram a morte de Marielle em razão de interesses fundiários na zona oeste da cidade. Segundo a investigação, a atuação política da vereadora representava um obstáculo a projetos de regularização de áreas sob influência de milícias.
Na entrevista a Thais Furlan, Lessa dá novos detalhes sobre a proposta que afirma ter recebido para executar o crime. "O que o Domingos me passou foi o seguinte: 'Ela não vai deixar a gente botar o condomínio lá. Então, ela tem que sair do caminho'. Só que agora, agora eu vou dizer: R$ 25 milhões que era a minha parte, para dividir para quatro. Eu balancei. Aí eu tremi", diz Lessa. "Eu estava cego, estava entorpecido. Eu estava sob uma overdose de ganância, overdose de ambição. Dinheiro", completa o matador.
Os irmãos Brazão deixaram de ser apenas apontados pela investigação como supostos mandantes. Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do STF condenou os dois, por unanimidade, a 76 anos e três meses de prisão pelo planejamento dos assassinatos de Marielle e Anderson e da tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. Também foram condenados Ronald Paulo Alves Pereira, apontado como responsável por monitorar a vereadora, Robson Calixto Fonseca e o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa, este pelos crimes de obstrução de Justiça e corrupção passiva. Em junho, o Supremo rejeitou recursos apresentados pelos cinco condenados.
A reportagem mostra como a apuração do assassinato de Marielle acabou revelando uma estrutura que envolvia milicianos, agentes públicos e integrantes das forças de segurança. Segundo a acusação acolhida pelo STF, os irmãos Brazão integravam uma organização criminosa armada voltada à obtenção de vantagens econômicas e domínio político, enquanto Rivaldo Barbosa utilizou sua posição na Polícia Civil para dificultar as investigações do crime.
O Doc Investigação também volta ao passado de Lessa dentro das forças de segurança. Ele ingressou na Polícia Militar em 1991, passou pelo Bope e por outras unidades antes de ser cedido à Polícia Civil. Na entrevista, dimensiona a quantidade de mortes das quais afirma ter participado ao longo de duas décadas usando farda.
"É muito provável que eu tenha participado de operações em que, no final da história, se somar durante 20 anos, mil [pessoas] é pouco. Você está entendendo? Mil acaba sendo pouco", afirma. "Então, quando surgiu essa situação de Lessa matador... Lessa matador? Tudo bem, mas matador da polícia", declara.