Fim histórico

Pela 1ª vez em 45 anos, SBT fica sem sessão de filmes

Grandes produções do cinema fizeram parte dos 45 anos do SBT


Silvio Santos nos intervalos de gravação do programa Todos Contra Um, em 2002
Silvio Santos apostou em filmes mas começou a abrir mão do produto nos anos 2010 - Foto: Divulgação/SBT

No mês em que completou 45 anos no ar, o SBT abriu mão de um filão que ajudou a consolidá-lo em segundo lugar e a brigar com a Globo em outros tempos. Pela primeira vez desde sua estreia, o canal fundado por Silvio Santos (1930-2024) fica sem uma sessão regular de filmes em sua grade nacional. O "sobrevivente" Cinema em Casa deu adeus - ou até logo - no último sábado (22). No próximo (29), estreia o +SBT Show, com Gaby Cabrini e Gabriel Cartolano, ao vivo, das 15h às 18h.

A relação do SBT com o cinema começou logo em sua estreia, em 19 de agosto de 1981, conforme consta em documento histórico na Câmara dos Deputados. Naquele dia, a emissora estreava a Sessão das Dez. Anos depois, outras sessões marcaram história.

Uma delas, aliás, foi uma espécie de "trampolim" na carreira de apresentadores consagrados do canal: Gugu Liberato (1959-2019) e Celso Portiolli, que comandaram a Sessão Premiada. O primeiro no início dos anos 1980, enquanto o segundo em meados dos anos 2000, distribuindo prêmios nos intervalos.

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Filmes tiveram papel decisivo no SBT

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Na década de 1980, os filmes ganharam um papel central na estratégia de Silvio Santos para enfrentar a Globo. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 26 de agosto de 1988, na estreia do Cinema em Casa, com Rambo: Programado para Matar (1982). A concorrente esticou Vale Tudo (1988-1989) e exibiu dois capítulos da novela na tentativa de segurar o público. O SBT, em vez de começar o longa no horário anunciado, manteve uma imagem congelada de Sylvester Stallone e avisou: "Não se preocupe, quando terminar a novela da Globo você vai ver Rambo".

A estratégia funcionou. O SBT esperou o encerramento de Vale Tudo e iniciou o filme cerca de 50 minutos depois do previsto. Rambo alcançou 44 pontos e derrotou a Globo.

Apesar do pouco tempo no ar, o SBT já dava sinais de que achara um produto capaz de competir de igual para igual com a líder de audiência: e ele vinha de Hollywood.

Ex-braço direito de Silvio Santos relatou bastidores

Ao NaTelinha, Ricky Medeiros concedeu uma entrevista em 2016 (ele faleceu em 2020) em que revelou os bastidores de algumas das negociações que ajudaram a incrementar o pacote de filmes do SBT. "Um dia, o Silvio me disse que gostaria de ter filmes bons. E isso a gente não poderia fazer no começo porque não tínhamos nem credibilidade e nem dinheiro. Ele adorava a Warner."

"Eu falei: Vamos tirar a Warner da Globo?. Demorou três anos, mas conseguimos. A Disney veio porque eles estavam de saco cheio da Globo, porque lá eles só colocavam desenho dentro do programa da Xuxa e eles queriam fazer um programa deles. Como o SBT era mais flexível eu disse que poderíamos fazer, mas queríamos os filmes também. Foi assim que foi construído o negócio com a Disney, com o 'Cruj'."

Ricky Medeiros, ex-braço direito de Silvio Santos, ao NaTelinha

A Disney veio primeiro, em 1997. O acordo, estimado na época em US$ 15 milhões, envolvia cerca de 120 filmes e 65 horas anuais de desenhos animados. Para isso, o SBT criou a Tela de Sucessos, que ficou no ar até o início deste ano.

A Warner chegou ao SBT em 2000 a partir de um desafio pessoal, conforme relatado por Medeiros. "Eu chamava os representantes do México, ligava para o chefe dele de Nova Iorque, enfim, fazia de tudo. Depois que veio esse dois, o mercado no Brasil estava difícil para quem vendia filmes. Porque a Globo, naquela época, tinha a Fox e Universal. A gente tinha a Warner e a Disney e o restante não tinha mais mercado pra vender", relembrou.

A disputa por grandes pacotes atingiu o ponto máximo em 2000. O SBT anunciou contratos com Warner e Disney/Buena Vista que poderiam chegar a US$ 200 milhões e garantiam mais de mil filmes durante cinco anos. O acervo incluía produções como Matrix (1999), O Sexto Sentido (1999), Cidade dos Anjos (1998), De Olhos Bem Fechados (1999), Armageddon (1998), A Rocha (1996) e 101 Dálmatas (1996).

Foi nesse cenário que surgiu o Cine Espetacular (ou Cine Milionário, conforme bradava Silvio Santos em seu Show do Milhão). A sessão de filmes, ao lado da Tela de Sucessos, foi responsável por uma série de derrotas de programas da Globo na audiência em pleno horário nobre.

Ainda nos anos 2000, o SBT também contou com a MGM e Paramount. "A Paramount não tinha muito filme mas completava o pacote e a MGM eu estava contra desde o primeiro dia, mas o Silvio quis, e a gente comprou", destacou o ex-braço direito do Homem do Baú.

Até mesmo Silvio Santos saiu de cena dos domingos à noite para dar vez aos filmes. No fim de 2005, com a estreia de 8 e Meia no Cinema, foram as produções de Hollywood que ocuparam a faixa após o Domingo Legal até 2009.

Novos tempos: SBT largou mão da exclusividade

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Esse modelo começou a perder força com o fim dos grandes contratos de exclusividade, a fragmentação dos direitos de exibição e a expansão dos serviços de streaming. Em 2013, o SBT abriu mão da exclusividade dos filmes da Warner e passou a negociar pacotes mais restritos. O Cine Belas Artes saiu do ar em maio de 2017. Dois anos depois, restavam somente Cine Espetacular e Tela de Sucessos no horário nobre.

A escassez de títulos tornou as reprises cada vez mais frequentes, como mostrou uma matéria do NaTelinha no ano passado. Alguns dos filmes chegaram a ser exibidos por quatro vezes ao longo do ano.

Atualmente, a Globo é quem mais dedica espaço aos filmes, ainda que o retorno financeiro não se sustente, conforme já revelado pelo NaTelinha em conversa com um ex-executivo da líder de audiência. A injeção de dinheiro está na casa dos milhões de dólares para um retorno na casa de milhares de reais.

Cinema em Casa era sobrevivente no SBT

Clássica sessão de filmes do SBT, o Cinema em Casa retornou à programação em março de 2023, depois de 12 anos. Ao contrário de outros tempos, desta vez no formato semanal, aos sábados. O bom desempenho levou a emissora a ampliar a faixa para dois filmes, como vinha acontecendo nas últimas exibições. As produções chegaram a ser o programa mais visto do dia do SBT.

Além disso, o Cinema em Casa seria um tapa-buraco enquanto os novos programas não ficassem prontos, como o Programa Livre, que acabou não estreando.

O NaTelinha apurou que não há, no momento, intenção de voltar a dar espaço aos filmes. O motivo é justamente o preço, que estão em cifras milionárias, e além disso, as produtoras vêm dando cada vez menos possibilidades de reprises, encarecendo o produto.

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