Há 40 anos, Chico Buarque fez as pazes com a Globo e estreou musical com Caetano Veloso
Na época da Ditadura Militar, cantor foi proibido de aparecer no canal
Publicado em 25/04/2026 às 09:55
Chico Buarque teve uma turbulenta relação com a Globo na década de 1970. As pazes só foram feitas quando estreou um programa intitulado Chico & Caetano, ao lado de Caetano Veloso, em 25 de abril de 1986. O primeiro programa, que foi exibido mensalmente até dezembro daquele ano, contou com o veto da censura à música intitulada Merda, que, no jargão teatral, é conhecida como um desejo de boa sorte.
"Na época em que mais precisei de dinheiro, em que a censura estava mais brava, eu todo endividado, o pessoal da Globo, ninguém em particular, apenas um porta-voz da máquina Globo de Televisão, disse que eu estava proibido de aparecer em seus programas", afirmou Chico Buarque em entrevista à Veja, em 1976.
"Porque nunca ninguém se responsabilizou pela proibição, porque a Globo é prepotente, resolvi me afastar voluntariamente de seus programas. Chegaram a dizer que não precisavam de mim. Eu também não preciso dessa máquina desumana, alienante. Então, estamos quites."
Chico Buarque em entrevista à Veja, em 1976, sobre o fato de ser proibido de aparecer na Globo
+ Luciano Szafir abre o jogo sobre possibilidade de Sasha ser mãe: "Que a Xuxa não me escute"
+ Saory Cardoso e Dudu Camargo entregam intimidade e revelam plano de ter filhos: "A gente quer"
Chico Buarque teve musical formatado por Daniel Filho

O diretor Daniel Filho, que concebeu a atração, teve papel fundamental nessa reconciliação. "Queremos fazer um programa de boa música, no estilo da série Grandes Nomes. Tudo muito simples, mas de altíssima qualidade", disse o profissional em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, em janeiro de 1986.
Com roteiro elaborado por Nelson Motta, Chico & Caetano teve um revés logo na estreia. No final da Ditadura Militar, o programa teve a música Merda censurada pelos militares. Além do uso de uma linguagem considerada imprópria pelas autoridades, a música também fazia referência ao uso de drogas ("Nem a loucura do amor/Da maconha, do pó, do tabaco e do álcool/Vale a loucura do ator").
Chico Buarque e Caetano Veloso seguiram com o programa e viram de perto a fama que Tim Maia (1942-1998) tinha: a de não comparecer aos seus compromissos. Ele não apareceu na gravação previamente agendada, e a produção teve que improvisar, exibindo os ensaios do cantor.
O musical, que era tão esperado para a temporada de 1986, acabou tendo um final precoce e até frio, como relatou o jornal O Globo em novembro daquele ano. "Fico feliz por ter acabado, pois não pretendo fazer carreira de show na televisão depois desse contrato de um ano. Acho que valeu por ser um programa de música ao vivo e de grande aceitação popular. Não sei se a Globo pretende continuar com um programa de música, gostaria até de ser convidado", comentou Chico ao Jornal do Brasil.
Caetano Veloso, por sua vez, confessou seu alívio ao final do musical: "Além da audiência imensa e de as crianças na rua me chamarem de Chico e Caetano, acho que valeu. Me lembro de momentos muito bons. Gostei muito também de mim com o Chico e Paulinho da Viola. Nas gravações, o que mais me emocionou foi o Milton Nascimento com Pena Branca e Xavantinho, dupla caipira. Agora, também quero descansar depois da pré-estreia nacional do meu filme O Cinema Falado".
Chico & Caetano acabou gerando um LP lançado pela Som Livre em 1986 e ganhou reapresentação nas tardes de sábado, no verão de 1987. O musical foi vendido ainda para países como Canadá, Cuba, Paraguai e Uruguai.