Entrevista exclusiva

Mamonas Assassinas: O que diz a ex-repórter da Globo que esteve no local da tragédia

Eleonora Paschoal revelou ao NaTelinha cenas mais chocantes, incluindo ação de curiosos e jaqueta da banda pendurada na mata


À esquerda, o grupo Mamonas Assassinas; à direita, a repórter Eleonora Paschoal
Eleonora Paschoal foi a única repórter autorizada a adentrar a mata da Serra da Cantareira logo após o acidente dos Mamonas Assassinas - Foto: Reprodução/Montagem NaTelinha
Por Walter Felix

Publicado em 02/03/2026 às 14:15,
atualizado em 02/03/2026 às 16:19

Há exatos 30 anos, em 2 de março de 1996, a tragédia envolvendo o grupo Mamonas Assassinas comoveu o país. No auge do sucesso, os cinco integrantes, Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli, morreram um acidente aéreo, que também matou o piloto Jorge Luiz Germano Martins, o co-piloto Alberto Takeda, o ajudante de palco Isaac Souto e o segurança Sérgio Porto.

Em entrevista ao NaTelinha, em 2023, a repórter Eleonora Paschoal revelou bastidores da cobertura histórica – na época do acidente, ela era contratada da Globo e foi uma das primeiras pessoas a chegar no local. A jornalista ajudou nas buscas e, no depoimento exclusivo, recordou as cenas chocantes que viu no meio da mata.

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A notícia do acidente

Naquele sábado, Eleonora já havia cumprido o expediente na Globo quando um motoboy enviado pela emissora a acionou informando sobre a queda de uma aeronave na Serra da Cantareira. “Fiz alguns contatos e, em questão de minutos, eu já sabia que era o avião dos Mamonas Assassinas”, relembrou a repórter.

“Liguei para a redação e falei com o diretor Roberto Müller, que vetou a divulgação. Ele disse: ‘Imagina… Não podemos dar essa notícia assim. É preciso ter muita certeza. Olha só de quem vocês estão falando’. E eu dizia: ‘Mas eu tenho certeza que são os Mamonas Assassinas’.”

Mal-entendido com namorada de Dinho

Mamonas Assassinas: O que diz a ex-repórter da Globo que esteve no local da tragédia

Na época, a jornalista fazia um curso de pilotagem de aeronaves. Traçou então, com o piloto da Globo, o plano de voo do Learjet 25D prefixo PT-LSD, com possibilidades de local do acidente. O combinado era que o helicóptero da emissora decolasse no momento em que saísse o primeiro raio de sol daquele domingo, 3 de março de 1996.

Para não perder tempo, Eleonora pegou a estrada e foi logo para as proximidades da Serra da Cantareira, onde passou a madrugada. Ao comentar com um colega que “nem milagre faria alguém sobreviver a esse acidente”, Eleonora não percebeu que, a seu lado, estava Valeria Zoppello, então namorada de Dinho, aflita por notícias.

“Ela ficou muito brava comigo, como se eu tivesse desejado que eles estivessem mortos, quando, na verdade, foi uma constatação técnica.”

Eleonora Paschoal

Negociação com a polícia e os bombeiros

No dia seguinte, logo pela manhã, o piloto da emissora encontrou o ponto exato onde estavam os destroços, antes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Eleonora precisou negociar com o comandante do grupamento: “Já localizamos os destroços. O helicóptero da PM ainda não decolou. Vamos fazer um acerto?”.

A repórter propôs dar as coordenadas, com uma condição: “O senhor segura toda a imprensa aqui e só eu vou com a tropa. Como fui eu que achei, tenho o direito de ser a primeira a chegar”. Ela ouviu um alerta do oficial: “Os meus homens não vão carregar nenhum equipamento nem vão socorrer você nem seu cinegrafista se vocês escorreguem. É por sua conta em risco”. 

"Foi preciso parar para respirar fundo"

Eleonora Paschoal foi a única repórter autorizada a adentrar a mata, na companhia do cinegrafista Américo Figueiroa. “Enquanto achávamos os destroços, eu ia fazendo a minha matéria, contando o que estava vendo.”

“Tudo o que vimos, assim que chegamos, foi chocante, muito triste mesmo. Por várias vezes, foi preciso parar para respirar fundo. Nosso pensamento era: ‘Calma, vamos lá. A gente precisa esclarecer o que aconteceu e contar para as pessoas. E a gente só vai fazer isso se ficar equilibrado’.”

Eleonora Paschoal

A lembrança mais aterradora é a dos corpos mutilados, espalhados pela mata. “Não vou entrar em detalhes, porque acho que ninguém merece detalhes disso. Eu e meu cinegrafista precisamos parar por alguns segundos. Pedimos luz para aquelas pessoas e força para que a gente pudesse terminar o nosso trabalho. Tivemos que segurar a emoção e fazer tudo de forma mais clara e objetiva possível.”

Jaqueta dos Mamonas Assassinas pendurada em árvore

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Outras imagens ficaram na memória da jornalista: o saco com o corpo do vocalista Dinho sendo içado pelo helicóptero e a jaqueta do grupo, que encontrou pendurada em uma das árvores. Na semana passada, na exumação dos corpos, a peça foi encontrada intacta, 30 anos depois de ser enterrada junto ao corpo do cantor.

“Fiz uma passagem na reportagem da Globo mostrando exatamente como encontramos aquela jaqueta. Aliás, não tocamos em nada. Tudo o que mostramos na reportagem estava exatamente da forma como foi encontrado depois do acidente.”

Eleonora Paschoal

"Pessoas queriam souvenirs da tragédia"

A jornalista já estava habituada a cobrir acidentes aéreos. Ainda assim, as imagens causaram impacto. “Ninguém se acostuma com a tragédia. Na época em que comecei a trabalhar na Globo, eu não podia esboçar muita reação. Era preciso fazer um exercício, respirar fundo e passar a informação, fazendo o trabalho de ‘reportagem’ mesmo.”

“As pessoas começaram a correr para a Serra, e pegavam tudo o que viam pelo caminho. As pessoas queriam souvenirs daquela tragédia. Falo disso e fico até arrepiada até hoje.”

Eleonora Paschoal

Comoção no País

Sobre a comoção causada pela tragédia, Eleonora relembrou: “Todo mundo era fã deles. Eu também gostava das músicas, até hoje gosto. Havia um carinho nacional, e eu me encaixo nessa legião de fãs. Achava a banda o máximo, com aquela vontade de viver e aquela luz para divertir as pessoas”.

Mamonas Assassinas: O que diz a ex-repórter da Globo que esteve no local da tragédia

Fora da TV após passagens pela Globo e pela Band, Eleonora Paschoal atua hoje como repórter, produtora freelancer e correspondente internacional, baseada na ponte aérea entre São Paulo e Orlando, nos Estados Unidos. Ela também se especializou em treinamento de porta-voz (media training), gerenciamento de crises e produções jornalísticas internacionais.

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