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Roteirista de Jogada de Risco abre o jogo sobre cenas: "Olhar frontal para a sexualidade"

Thiago Dottori foi o principal roteirista de Jogada de Risco, criada por Cauã Reymond e sucesso do Globoplay


Cena de Jogada de Risco
Jogada de Risco é ousada e roteirista comemora o sucesso - Foto: Reprodução/Ingternet

A série Jogada de Risco, do Globoplay, explora as dinâmicas de poder e os conflitos nos bastidores do futebol brasileiro. Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, o roteirista Thiago Dottori detalhou o desenvolvimento do projeto, as escolhas narrativas da produção e sua recente movimentação no mercado audiovisual.

O ponto de partida da obra ocorreu em 2020, durante o período de isolamento social. Dottori explicou a cronologia do projeto: "Foi em 2020, ainda na pandemia. Eu tinha acabado de escrever, justamente, Os Outros", inicia ele em conversa exclusiva com o NaTelinha.

E o Cauã [Reymond, criador da série] estava procurando um roteirista para desenvolver a série que ele, até então, tinha criado com a Sofia Maldonado. Acho que a gente se deu bem na conversa, em parte porque já fui muito apaixonado por futebol, conheço esse mundo, frequentei muito estádio, já fui muito fanático pelo São Paulo - pra você ter uma ideia, escrevi e dirigi o documentário oficial do meu amado (e infelizmente destroçado) clube quando fomos tricampeões brasileiros (eu sei, faz tempo)".

A formação da equipe e os atrasos causados por outros compromissos também moldaram o roteiro. "Enfim, Cauã e Sofia precisavam de alguém para chefiar uma sala de roteiro e desenvolver o material que eles tinham. Cauã participava sempre que possível das reuniões, já estava entrando em gravações para fazer Um Lugar ao Sol", prossegue.

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"Nós pegamos então aquele primeiro texto dele e Sofia e começamos esse processo de sala, eu, Sofia, Claudia Sardinha e o Bruno Ribeiro, além do Cauã - que sempre teve uma visão sobre a série, a abordagem, o tom. Levantamos uma temporada e sinopses de 12 episódios. Mas com o passar do tempo, muita coisa aconteceu, por muitas razões distintas", revela ele.

Dottori também tentou se enveredar pelas novelas. "Enquanto isso, eu cheguei a escrever duas novelas que infelizmente não foram aprovadas na Globo - histórias que eu amo muito e que não sei se um dia o público vai conhecer, que escrevi com a craque Thelma Guedes. Cauã ainda fez Terra e Paixão e depois Vale Tudo. Mas nós nunca deixamos de sonhar com Jogada de Risco".

O tempo de espera serviu para maturar a história. "E nesse tempo, também amadurecemos, ouvimos mais histórias e passamos por mais alguns processos criativos. A gente nunca deixou a conversa sobre a série morrer, nosso instinto criativo estava sempre ali, vivo, ao longo desse tempo todo, mesmo tocando outras coisas, envolvidos em outros projetos".

"Eu e ele sempre tínhamos conversas com empresários, jogadores experientes, ex-jogadores, garotos na base, assessores de imprensa, muita gente com muita história boa pra contar. E a gente foi alimentando e jogando esses elementos no nosso caldeirão criativo, definindo algumas cenas e ideias que a gente iria ter, aquelas 'obrigatórias'", complementa

A formatação final da temporada contou com a integração de novos profissionais. "Até que nosso desenvolvimento definitivo dos roteiros aconteceu também com a chegada do Lucas, que entrou para supervisionar a série e daí nós montamos uma outra sala de roteiro com Flávio Araújo, Thais Fujinaga, João Ademir e Kariny Martins, com a leitura sempre parceira do time criativo do Estúdio Globo, liderado pelo José Villamarim, Pilar Minguez e André Braga".

Ele conta como foi o processo. "Escrevemos 12 episódios, que depois viraram 8 que são esses que foram ao ar. Tem um pouco de todo mundo ali, mas tem também essa visão minha e do Cauã, que nesses anos, fomos depurando temas, personagens e a abordagem que a gente queria. Como a gente sempre falava, 'o jogo por trás do jogo'. Depois, ainda, a fundamental visão do Bruno Safadi, nosso diretor que entendeu tudo e mergulhou com a gente no texto, para aprimorá-lo, assim como a Isabela Bellenzani, que foi nossa produtora que fez Jogada de Risco acontecer de um jeito brilhante."

A inserção da produção ocorre em um cenário de forte tradição em novelas. Sobre a viabilidade de séries no mercado nacional, o roteirista, que já havia se consagrado em outros projetos, como Psi, indicada ao Emmy Internacional avalia: "Antes de mais nada, obrigado pela lembrança de Psi, uma série que eu amo e que foi muito importante na minha carreira, escrita com o saudoso e genial Contardo Calligaris para a HBO. Entre Psi e Jogada de Risco, ainda escrevi Segredos de Justiça, Pais de Primeira, Os outros... E isso de certa maneira responde à pergunta: acho que há cada vez mais espaço para os autores brasileiros escreverem séries, porque temos mais produção, mesmo com a paixão nacional por novelas".

"E eu acredito que a audiência gosta mesmo é de se emocionar, se envolver com os personagens, em qualquer formato. O que entendo que torna mais difícil a vida de quem se arrisca nas séries é que a concorrência é muito grande - são muitos lançamentos, em muitas plataformas, produções de toda parte do mundo, que chegam aqui e disputam a atenção da audiência brasileira. Então é preciso criar estratégias, sejam narrativas, de marketing, da escolha do tema ou do universo abordado, para que uma série consiga chamar a atenção, chegar ao público e contar a sua história", garante.

O eixo da sexualidade e o contraste narrativo

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Ao comparar o trabalho em Jogada de Risco com produções anteriores, Dottori destacou a abordagem física da nova série. "É curioso comparar Psi e Jogada de Risco. Mas acho que a gente sempre leva algo de um projeto para outro. Psi era uma série de investigação psicanalítica e na psicanálise, o desejo ocupa um lugar central", inicia.

"O desejo nos move, seja pela sua realização, seja pela sua frustração e consequente sintoma. Mas lá, o desejo era analisado e discutido, a gente girava em torno dele. Em Jogada de Risco o desejo está posto, vívido e latente. São personagens que habitam uma arena muito rica, que conquistam fortunas muito cedo, com corpos que estão no seu auge e que são, também, seus instrumentos de trabalho. Então eu e Cauã e Sofia também, a gente sempre teve, desde as primeiras reuniões, esse olhar e essa convicção para que o desejo estivesse presente em Jogada de Risco, em sua plenitude", crava.

Ele explica sobre a importância do corpo na obra. "É uma premissa conceitual: nesse universo o sexo é um eixo e a gente queria que isso fosse uma marca da série - porque era uma marca que surgia na pesquisa, em diferentes conversas. E que o corpo estivesse ali não fosse apenas o das mulheres, mas o dos homens também. E a condução do Bruno Safadi e a coragem e disposição do elenco foram essenciais para fazer isso funcionar".

Eu tinha até um pouco de medo de espantar a audiência, assustá-la, mas ao mesmo tempo, eu acreditava que esse olhar frontal para a sexualidade e pro corpo também poderia ser um convite para a audiência - a gente vai revelar esse universo de maneira total, não vamos esconder nada, vamos 'revelar tudo', seja o corpo, o desejo, suas loucuras. Então, são também séries muito diferentes nesse sentido: Psi era muito conceitual, do discurso, da palavra; Jogada de Risco é física, da ação, da exposição."

Thiago Dottori

O autor também aponta as influências diretas na construção do ritmo e no delineamento dos personagens. "Outro trabalho que eu escrevi e que me influenciou foi Os Outros, que tive a oportunidade de escrever a primeira temporada com o Lucas Paraizo. E em Jogada tivemos a sorte de ter o Lucas como supervisor de texto", inicia.

"Então a gente tinha algumas premissas que faziam sentido pra gente aqui também: uma tensão permanente e um ritmo de cena intenso. Mas claro, também com algum coração, em especial nas relações de Maurício com Cris e Rita, mas também de Maurício com o pai Valdemar - um dos personagens que mais amei criar e escrever na vida. E Rita que é cafetina, mas é uma personagem marcada pela dor; Daniele, que Bruna fez tão bem, que é sagaz, inteligente, esperta. E ao mesmo tempo, a contra-parte disso tudo: de um lado o auge do hedonismo, mas também a depressão, tão silenciada, dos atletas profissionais", confirma

Essa estrutura tem como ponto central o percurso de instabilidade financeira e emocional do protagonista. "Então, foi meio por aí, com essa sensação de desmoronamento permanente, tendo o Maurício como esse epicentro em que as coisas acabam sempre dando errado. Desde quando era jogador, o sucesso, o dinheiro, o auge e, quase simultaneamente, o fracasso, a dor, a queda", explica.

Dottori dá detalhes sobre a obra. "A ideia era refletir como a carreira de um jogador pode ser construída ou destruída com diferença de um detalhe do destino: você pode se tornar milionário de um dia para o outro, com um grande contrato, realizar seu sonho e o da sua família; assim como pode perder tudo na mesma velocidade, destruir seu corpo, sua carreira, seus sonhos, num piscar de olhos. Foi assim a carreira do Maurício. É assim para a grande maioria dos homens que tentam se tornar jogadores. Então essa montanha-russa era conceitual, porque ela reflete a promessa que o futebol oferece, ainda que conquistá-las seja muito difícil."

Pesquisa, tabus e preconceito no futebol

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Para a elaboração das tramas, a equipe realizou entrevistas de campo. Dottori cita algumas das fontes consultadas: "Muita gente conversou no anonimato, outras nós podemos citar. Me lembro de uma ótima conversa com Grafite, outra com César Sampaio aqui em São Paulo, que é um maravilhoso contador de histórias. Mas teve uma empresária que eu gostei muito de conversar e que me ajudou muito que foi a Marisa Alija, empresária do Hulk. Nós tivemos conversas muito francas e profundas sobre o que é ser empresária no futebol, como é para uma mulher nesse meio, qual a relação dela com famílias e com os jogadores".

Nem todas as histórias coletadas foram incluídas nesta temporada. "Eu acho que ainda terão histórias que vão entrar em possíveis próximas temporadas, então não quero adiantá-las aqui, mas sem dúvida, um tema fundamental que a gente já queria ter abordado, mas acabamos adiando para a próxima é o assédio nas categorias de base", conta.

Ele dá detalhes de como a história é pesada. "Nós ficamos chocados com a quantidade de garotos que relataram histórias assim, nos alojamentos, nas concentrações. Desde profissionais dos clubes, ou outros aproveitadores que se aproximam, com promessas vazias para garotos muito novos e cheios de sonhos. É um tema muito importante, denso e como ainda é um tabu para muitos homens falar sobre isso, entendo que é um tema que precisa ser explorado com urgência, até para servir de alerta para futuros jogadores."

A série lida frontalmente com comportamentos discriminatórios recorrentes no meio esportivo. Questionado sobre como abordar machismo e homofobia sem validá-los, o roteirista argumenta. "Esse é um desafio narrativo muito relevante hoje em dia e que não tem uma solução fácil, né? Mas eu tenho muita clareza de que o discurso de um personagem não é o discurso do autor. De alguma forma, esses dois conceitos narrativos acabaram se confundindo pelas discussões relevantes que temos hoje sobre representação".

"Mas eu gosto muito de uma ideia do Vargas Llosa, de que as grandes obras se 'emancipam' do autor, então, eu entendo que os grandes personagens se emancipam também, eles tem vida própria e eles tem que falar com a linguagem que lhes é característica, fluida e natural. Não tem como a gente mergulhar no universo do futebol e querer que ali não exista machismo e homofobia", pondera.

Ele ainda conclui o tema. "É assim que se comporta ainda, infelizmente, boa parte da torcida, dos jogadores e dirigentes. Eu, como são paulino, por exemplo, sempre ouvi 'piadas' homofóbicas. Já vi isso no estádio um milhão de vezes - ainda que essa conversa tenha de alguma forma evoluído, ela evolui num compasso muito mais lento que o desejável".

Ele explica como o texto resolveu esses conflitos de forma orgânica. "Mas, enfim, se a gente não retratasse isso, se a gente fosse tentar corrigir o discurso dos nossos personagens, ou não olhasse para essas questões de frente, a gente estaria mentindo. Por outro lado, acho maravilhoso quando a gente coloca isso dentro do caldeirão, confronta nossos personagens, de maneira fluida".

"Se escapa em Maurício algo machista, ou nos jogadores, a Cris, como protagonista e uma mulher do seu tempo, vai confrontá-los de imediato. Ao mesmo tempo, retratamos Regiane como uma mulher que sofre machismo no ambiente televisivo, mas nem por isso ela vai ser a pessoa mais correta e ética do mundo como jornalista - porque ela também pode ter essa complexidade, a gente não precisa chapar os personagens como detentores da virtude", exemplifica.

Ele prossegue. "Em certa medida, são como nós, cheios de luz e sombra. Então a nossa escolha foi equilibrar as vozes. E na história do Geraldo, surgiu na sala a vontade de dar uma saída pra ele também, se não me engano a Thais Fujinaga, de dar essa voz pra ele, não ser apenas uma história frustrante, mas uma história que carregasse uma força, uma declaração - orgânica à história, mas sem dúvida, uma escolha nossa, como autores. Nessas horas eu amo escrever ficção - se nenhum jogador até hoje pode se declarar, na nossa história o Geraldo vai declarar seu amor pelo homem que ele ama."

Recepção e movimentações no mercado

A audiência registrada pela produção reflete as expectativas iniciais do projeto. "Eu primeiro sonhava que a série fosse feita. Durante muitos anos, sonhamos muito com isso. E agora, que ela encontrou o público, eu estou muito feliz, claro, o que mais um escritor de televisão pode querer?", questiona.

"Acreditava que ela tinha potencial de público sim, por abordar o universo futebolístico, por encarar esse universo com tanta franqueza, por ter personagens que me encantavam. Mas talvez o sucesso tenha sido até maior que o esperado", afirma

A respeito da possibilidade de uma nova indicação ao Emmy, prêmio no qual já concorreu, o autor foi cauteloso: "Quem sabe? A gente sempre torce pelo sucesso daquilo que a gente faz, com tanto empenho, trabalho e amor. Eu torço demais pra que isso aconteça, acho que é um trabalho de fôlego, que tem estilo e que já vimos que viaja bem - Jogada de Risco foi selecionada para abrir o festival de séries do SxSw de Londres e foi muito bem recebida. Mas é impossível prever prêmios. Depende de tanta coisa", inicia.

"E, no fundo, hoje eu tô mais tranquilo com relação a isso. Nossa missão era atingir o público e isso a gente conseguiu. Ganhar prêmio pode ser uma consequência maravilhosa, mas se não vier, estou bem tranquilo. Não estou desdenhando do prêmio, ainda mais do Emmy! Se vier uma indicação de novo, e quem sabe uma nova vitória (além da indicação de Psi, ganhei um Emmy com Pedro e Bianca, série que criei com Cao Hamburger e Teo Poppovic), vou transbordar de felicidade, postar no instagram, encher a cara... mas realmente quando escrevo, isso não está no radar", garante

Concluindo a entrevista, Thiago Dottori anunciou oficialmente seu desligamento da emissora e seu novo destino profissional. "Depois que terminei de escrever Jogada de Risco, eu acabei saindo da Globo, encerrando um contrato longo de quase 8 anos por lá. Na sequência, eu fui head-writer de uma outra série que me parece maravilhosa, chamada Rauls, que escrevi para a Netflix, criada pelo Kaíque Alves, Felipe Braga e Kondzilla, que me convidaram para escrever e liderar a sala de roteiro. E foi genial.

Ele aproveita para revelar seu destino. "O curioso é que depois de quase 30 anos escrevendo - desde quando fazia institucionais até hoje, meu primeiro roteiro de série, 2Apês, pra TV Usp, é de 1999 - dei um passo numa direção diferente: me tornei Series Manager na Netflix. É algo novo, mas estou muito encantado com a possibilidade de descobrir novas séries e poder colocar minha experiência como roteirista para ajudar outros criadores a contarem maravilhosas histórias brasileiras. Então, como se diz, rs, 'vem coisa boa aí!'."

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