Exclusivo

"A música perde": Vincent Villari aponta ansiedade como vilã das trilhas de novelas atuais

Autor de Sangue Bom e Tititi explica como a disputa pela atenção do público afetou o uso das trilhas sonoras


Cena de Por Amor, em que Helena chora, com música marcante
Música tema perdeu espaço em novelas - Foto: Reprodução/Globo

Desde que as telenovelas se estabeleceram no Brasil, as trilhas sonoras surgiram como parte fundamental para contar a história. A música tema sempre ficou marcada na memória do telespectador. Um dos principais defensores das trilhas é Vincent Villari, autor de sucessos como Sangue Bom (2013) e Tititi (2010), que é um estudioso da área.

O NaTelinha conversou com Villari, que atualmente é colaborador de João Emanuel Carneiro, com quem esteve em Mania de Você (2024) e seguirá em Avenida Brasil 2, prevista para 2027, e o novelista abriu o jogo sobre a trilha sonora nas novelas brasileiras.

Questionada sobre a função da trilha sonora em uma novela, ele é enfático. “Então, o gênero, né, a nossa teledramaturgia, ela é muito associada ao melodrama. O que que é melodrama? A tradução literal do grego é drama com música. Então a música, ela é o acesso direto à emoção do espectador. Né, muitas vezes ela tá reiterando o que a gente está vendo no ar. A gente tem um personagem sofrendo, entra uma música de sofrimento”, explica.

“Outras vezes ela pode surpreender e trazer uma informação que que a cena não está dando. Um um exemplo que me ocorre, por exemplo, um exemplo famoso, que é o tema do Nonô Corrêa [Ary Fontoura] de Amor com Amor Se Paga [1984], que era um velho avarento Ranzinza, entrava uma balada havaiana do Pepeu Gomes e aí a gente compreendia que que aquele homem, no fundo, apesar de ser patético, ele queria amar. Ele queria a liberdade do amor”, exemplifica.

Marcos Caruso confirma que estará em Avenida Brasil 2: "Voltar a emocionar e divertir"

Avenida Brasil 2: João Emanuel Carneiro define colaboradores em continuação

O autor define o papel das trilhas. “Então a música tem esse componente de emoldurar, muitas vezes de grifar as emoções é que deseja que que o que nós pretendemos é fazer com que o espectador sinta”.

Ele prossegue "Só terminando. É fazer com que essa a emoção seja tão marcante que que seja fique gravada na memória do espectador a associação entre o personagem e a música. Porque a emoção despertada pela música faz com que a memória acolha de modo mais intenso e por mais tempo é aquilo que foi visto e que despertou a emoção”.

No momento atual, porém, as novelas diminuíram essa simbiose entre personagem, história e música. Vincent foi questionado sobre essa mudança de perfil e não foge. “São muitos fatores juntos. Podemos citar como como um deles, talvez o mais importante, a teledramaturgia absorveu a ansiedade dos tempos modernos”, inicia.

Ele vai além e compara o momento do uso de smartphone com as novelas. “Nós temos que competir o tempo todo com o Instagram, com o WhatsApp, com outros canais da TV aberta, da TV fechada, do streaming. Existe uma pressão, uma intenção nossa de fazer com que o telespectador não se distraia ou não se aborreça a ponto de mudar de canal, a ponto de desistir de acompanhar o programa que nós estamos levando ao ar”.

“Então, aí a música perde. Por quê? Porque a música é aquele momento da pausa. É o tempo que nós estamos prestando atenção na emoção do personagem e nada está sendo dito. Nós estamos apenas em conexão com o sentimento, com a alegria, com o amor, com a tristeza, com a raiva daquele personagem. Isso se perdeu, porque nós não podemos dar margem para a distração e o aborrecimento do público que atualmente absorveu a ansiedade dos dias atuais”, sentencia ele.

Villari lembra que já falou do tema anteriormente. “Eu entrevistei longamente o André Werneck, que foi diretor musical da TV Globo por muitos anos. Ele me explicou uma coisa muito interessante: música é frequência. A música para marcar, você tem que ter ela na novela, leva o artista pro Globo de Ouro, leva o artista pro Fantástico, emplacar a música no rádio. É um circuito fechado”.

“Você faz uso de todos os mecanismos possíveis da indústria cultural, você se utiliza de todos os recursos da indústria cultural pra fazer com que aquela música te marque. Você tá vendo o o programa de auditório: 'Olha, a música da novela!'. Você tá ou ouvindo o rádio: 'Ai, a música! É o tema de fulano!'”, ensina.

Vincent Villari garante que a mudança também passa por isso. “Então, isso faz com que tanto a novela quanto a música permaneçam na memória e na emoção do espectador mesmo sem ele estar vendo a novela. Isso era antes”.

“O que que acontece agora? Não tem mais frequência. Acabou a frequência. Vou dar um exemplo: novela Mania de Você, que foi a última novela em que eu trabalhei. Os personagens tinham temas, né? Tinha o tema da Viola, tinha o tema da Mariana Ximenes. Aí você me pergunta: quais eram as músicas? Eu me lembro que tinha uma música do Johnny Hooker, que era o tema principal da novela, e me lembro que tinha uma música do Jão que era o tema do Chay Suede. Aí você me pergunta: como se chamavam essas músicas? Eu não sei.

\"A música perde\": Vincent Villari aponta ansiedade como vilã das trilhas de novelas atuais

O colaborador de João Emanuel Carneiro também lembra da falta de CDs. “Não tem a mídia física da novela, né? Que que sempre foi um souvenir para os espectadores. Claro que a gente se interessava pelas músicas e tal, mas era aquele objeto, a trilha de novela, a mídia física sempre foi aquele objeto, aquela memória física que que nós tínhamos da daquela novela que nós gostávamos tanto. Isso não existe mais”.

“Eu não vi o Jão em nenhum programa 'Ah, vou cantar aqui a música da novela', porque para os próprios artistas não interessa mais fazer com que a sua música de trabalho seja a música que toca na novela, porque ele sabe que que o esquema agora é outro, que a música vai tocar só num rabichinho de cena e que ninguém vai comentar porque essa frequência já não existe. Essa frequência não existindo dificulta ainda mais que ela que ela volte a acontecer”, lamenta.

“Então você vê que são vários fatores. Ninguém por parte da indústria lucra mais com esse processo de apresentar a música em uma novela, porque não tem mais mídia física, não tem mais frequência, não tem mais nada disso. E por parte do espectador também não existe mais uma conexão, porque é como eu disse: você ouve rabichos da música entre uma cena e outra porque não há mais espaço, não há mais possibilidade de, entre aspas, 'tempos mortos' — que não são tempos mortos, mas são os temas, são os tempos de observação do sentimento dos personagens sem que nada seja dito. Não havendo esses tempos, não há música; não havendo música, não há mais memória afetiva ligada à música”, crava.

imagem-texto

Sobre as trilhas incidentais, aquelas em que não há voz, o autor é enfático. “Trilha instrumental continua nas novelas, até ainda mais forte, composições originais feitas pras novelas. Agora você ouve muito mais a trilha incidental nas novelas do que as músicas cantadas. Pelo menos é a minha percepção”.

O novelista foi questionado também sobre as mudanças na forma de se ouvir música, por plataformas de digitais. Se isso poderia influenciar na mudança e consequente queda na força das trilhas sonoras. “Sim! Isso tá diretamente ligado com o que eu falei da ansiedade dos tempos atuais”, inicia.

“A música se tornou, de certa forma, um pano de fundo. Você tem o streaming, e aí você coloca numa playlist, você vai consumir músicas que você não quis, que você não escolheu, você não sabe quem é o artista, você não sabe como se chama a música, você nem vai atrás de se informar, porque você tá ali fazendo outras coisas enquanto rola a playlist”, continua.

Vincent defende que o mundo mudou completamente. “Então, de modo geral, principalmente com as novas gerações, a relação com a música é muito diferente. Anos atrás, você tinha mídias físicas, você ia atrás de entrevistas daquele artista, você lia os encartes, você prestava atenção na ordem das músicas que estavam na mídia física, porque os artistas, muitos artistas se preocupavam em criar uma narrativa com o seu álbum”.

Na visão dele, isso é consequência. “A gente era mais solicitado a prestar atenção na obra daquele artista. Hoje essa atenção não é mais solicitada. Você pode observar que atualmente as músicas são muito mais curtas, né? O pop atual não passa de três minutos, nunca, porque o streaming lucra a partir do momento em que você ouve pelo menos a metade da música. Não tenho certeza dessa informação, Você precisa ouvir uma certa porcentagem da música pra pro streaming pagar o artista. Então os artistas fazem as músicas com dois, três minutos, no máximo”, ensina.

Ele segue na análise do novo momento da música e como isso influencia as novelas. “Não tem mais refrão. Os refrões que antigamente explodiam em em versos muito arrebatados. Porque a música pop é A, B, C. A é a introdução, o B é o crescimento que vai levar pro refrão e o C é a explosão, é o refrão. Agora tem o A, B, C, mas você vê que o B parece que vai crescer, mas no C, que seria o refrão, a música volta a baixar, porque assim você não dá no ouvinte a impressão de saciedade”.

“Porque o refrão que explode sacia. Você não quer ouvir aquela música de novo, não em seguida, pelo menos. A partir do momento em que você não é saciado e a música é breve, você pode ouvir aquilo em looping, que aquilo não vai te enjoar, mas também não vai suprir nenhuma emoção que você deseje trazer à tona através de uma música”, crava, ao falar um pouco também sobre a música em si e como isso pode ter efeito cascata nas novelas.

“Tudo isso se relaciona com com o modo como nós nos relacionamos com o tempo, atualmente”.

Villari, no entanto, enxerga que houve uma mudança do mundo e não vê como o espaço das trilhas serem recuperados naquele estilo dos anos 80 e 90. “É utópica, o o tempo não volta atrás”.

\"A música perde\": Vincent Villari aponta ansiedade como vilã das trilhas de novelas atuais

“O tempo precisaria mudar. Eu precisaria fazer com que o streaming deixasse de existir, para que só houvesse sete canais na TV aberta, para que não houvesse mais a ansiedade, não houvesse mais smartphone. Não tem”.

Vincent Villari é enfático ao escolher uma música tema que funcionou na espécie de simbiose com o personagem. “Eu vou citar 'Dona', do Roupa Nova, pra Viúva Porcina, de Roque Santeiro. Por quê? Porque a Porcina era uma vilã. Ela era uma mulher oportunista que participava da da farsa do do Roque Santeiro, cúmplice do Sinhozinho Malta. Era uma mulher assim, desprezível. Só que aí entrava 'Dona', que descrevia uma mulher grandiosa, admirável, 'dona dos seus ideais', 'não há pedra em seu caminho, não há ondas no teu mar'. E aí isso mudava o nosso olhar pra personagem. A gente via: 'Não, espera aí, no fundo essa mulher é uma sobrevivente, essa mulher é forte, essa mulher tem garra, essa mulher trilhou um caminho errado devido à necessidade de sobrevivência, mas ela tem muita força'”, crava.

“Então a música nos conduziu a a enxergar a personagem daquele modo. E foi muito bacana. Talvez a novela mais marcante da da TV brasileira, a personagem mais marcante dessa novela, a música mais marcante dessa trilha. Então, eu fico com essa”, finaliza.

Mais Notícias

Enviar notícia por e-mail


Compartilhe com um amigo


Reportar erro


Descreva o problema encontrado