Jornalista demitida da RecordTV relata em detalhes assédio sexual sofrido na emissora

Caso aconteceu no Rio Grande do Sul

Fotos: Reprodução/Facebook

Publicado em 07/04/2017 às 11:26:06 , atualizado em 04/11/2017 às 22:01:18

Por: Sandro Nascimento

Casos de assédio sexual, como foi denunciado pela figurinista da Globo, Su Tonani, com o ator José Mayer, estão sujeitos a acontecer em qualquer segmento da sociedade e em qualquer emissora de televisão. A jornalista Elisângela Veiga, 27, era contratada da RecordTV do Rio Grande de Sul nos últimos cinco anos e decidiu relatar, na última quarta-feira (05) em seu Facebook, um caso de assédio sexual que sofreu enquanto era produtora do canal.

"Decidimos fazer um dia de greve para chamar a atenção da chefia superior sobre os assédios moral, que todos sofrem, e até mesmo sexual, que eu sofri, naquela emissora. O resultado foi a demissão de apenas um dos chefes, o que me assediava sexualmente, a permanência da outra chefe, que pratica assédio moral com todos, e a demissão de oito funcionários, incluindo eu, que lutaram por melhorias nas condições e no ambiente de trabalho", postou a jornalista, que foi demitida da Record na segunda (03).


Em outubro do ano passado, os jornalistas da RecordTV no Rio Grande do Sul fizeram uma greve exigindo melhores condições de trabalho. Entre eles estava Elisângela Veiga. Segundo a profissional, sua demissão foi uma forma de represália por ter participado do movimento e que vai processar a emissora, por ter sofrido assédio sexual e moral de seus superiores. "Eu não contava nem para minha família, eu tinha vergonha", desabafa.

Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, Elisângela conta detalhes do assédio sexual que sofreu dentro da RecordTV Rio Grande do Sul. "Ele falou assim: 'Nossa, você sabe que você é linda, tu é gostosa, tu é sexy, quem aqui dentro não quer te comer? A TV inteira quer te comer, eu quero te comer. Tu sabe, não adianta ficar constrangida que você tá na lista das três mais gostosas dessa televisão'. Eu nunca imaginei ouvir isso de alguém, ainda mais de um chefe", disse ela, preferindo não citar nomes.

Confira o relato completo

Como tudo começou

O chefe que fazia isso conosco encarava como uma brincadeira, como normal falar um monte de besteira e tentar insinuar muitas coisas. Era horrível. Ele me prometeu sete vezes que eu seria promovida como repórter. Quando ele entrou na emissora, me chamou na sala dele e me perguntou quais eram meus objetivos. Então eu falei que tinha sido repórter em outro canal enquanto era estagiária e esse era meu desejo. Aí ele disse: "Eu tenho ótimas recomendações e eu quero te promover a repórter".

Foi ele que me chamou, não foi eu que pedi. Então eu cheguei a escurecer o cabelo, emagrecer, comprar roupa, fui numa fonoaudióloga e fui treinando. Mas ele colocava outra de fora, promoveu um editor de imagem, promoveu outros colegas produtores e sempre tinha uma desculpa. "São Paulo pediu um homem pra vaga, era para noite e podia ser perigoso, você tem rostinho de menina e não vai passar credibilidade, eles querem alguém mais experiente, você está fora do peso". As sete vagas que abriram ele foi me prometendo. Dava o doce e tirava.

O assédio

Só que a primeira vez que ele foi oferecer essa vaga, foi a mais chocante de todas, nunca passei por isso. Eu me arrependo de não ter procurado a delegacia da mulher naquele dia. Ele falou assim: "Nossa, você sabe que você é linda, tu é gostosa, tu é sexy, quem aqui dentro não quer te comer? A TV inteira quer te comer, eu quero te comer. Tu sabe, não adianta ficar constrangida que você tá na lista das três mais gostosas dessa televisão". Eu nunca imaginei ouvir isso de alguém, ainda mais de um chefe.

Rotina

Em reuniões de pauta, ele entrava na sala olhando diretamente para mim como se estivesse bêbado numa festa caçando uma mulher e falava: "Nossa, que cheiro e esse? Que perfume delicioso" e simplesmente cafungou no meu pescoço, na frente dos funcionários. Todo mundo achando normal: "É jeito dele, é brincadeirinha". Eram situações que ocorriam diariamente. Um dia ele veio em minha direção no corredor e me puxou pelo pescoço para me dar um beijo. Se eu não virasse, ele me beijava na boca. Era neste nível.

A última vez

Na última vez, a sétima no caso que me prometeu a promoção, ele me disse: "Você poderia ser repórter há muito tempo. Tu sabe o que está faltando você fazer, né? Sabe muito bem". Eu estava tão chocada e fiquei com medo de perder o emprego. Ele usou meu sonho, por isso o assédio moral e o sexual no caso dele. Ele sabia que eu tinha um objetivo ali dentro, queria ser repórter e crescer. Eu ficava com medo de denunciar, eu pensava: "Como eu vou procurar uma delegacia da mulher? Eu posso sofrer represália, posso ser demitida".


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Vergonha

Eu não contava nem para minha família, eu tinha vergonha, contava para algumas colegas. Mas ele tinha essa atitude de cheirar, dar um apertão e largar algo do tipo: "Você tá gostosa". Ele fazia com quase todas. Depois disso a Record chamou ele de volta para São Paulo e o demitiu em seguida. Hoje em dia ele está em outra emissora em São Paulo.

Procurando superiores

Enquanto eu sofria esses assédios, eu procurei por e-mail e depois pessoalmente um supervisor geral da RecordTV RS, chorando, e contei na sala dele exatamente tudo que se passava na redação e dei nomes. E o que aconteceu? Ele não fez absolutamente nada. No dia da greve, ele tentou me persuadir dizendo: "Eu resolvi seus problemas". Eu disse: "Me desculpe, você não resolveu meu problema. Um chefe foi demitido e outra está aqui".

Depois disso ele ficou com muita raiva de mim, até chegar o dia da minha demissão. Todos da Record sabiam disso, eu não tenho medo de nada. Sou de família humilde, trabalho desde os meus 18 anos e nunca tinha sido demitida. Apesar disso tudo eu não deixava atrapalhar meu desempenho na emissora.

Cinco anos de tormenta

Foram cinco longos anos de tormenta pura. Principalmente de assédio moral e sexual por parte de um chefe que nem trabalha mais na Record. Eu fui demitida segunda-feira (3). Estava no grupo da greve, eu e mais uma colega produtora que também foi demitida, foram as únicas que tiveram coragem de falar, então sofremos represália, nos demitiram.

Outro lado

Procurada, a Comunicação da RecordTV emitiu a segunda nota: "Cabe esclarecer que todas as reivindicações levadas à diretoria por um grupo de funcionários no ano passado foram atendidas".

O diretor de jornalismo da RecordTV no Rio Grande do Sul, Rodrigo Falcão, também se posicionou: "Apenas saliento que a saída da funcionária foi devido a uma reestruturação no setor e a vaga será preenchida por outro profissional".

Elisângela preferiu não revelar o nome do profissional que ela acusa de ter praticado o assédio sexual, com a justificativa de não atrapalhar o processo que moverá na Justiça.



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