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Atriz mãe de Santo em Velho Chico fala sobre morte do ator: "cruel e brutal"

"Até hoje eu fico pensando como essa ficção se tornou uma realidade", desabafou a atriz

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Fotos: Globo/Renato Rocha Miranda/ Divulgação
Redação NT

Publicado em 26/09/2016 às 03:30:00

Por Diego Falcão e Sandro Nascimento

 

Na novela "Velho Chico", Piedade dos Anjos, papel interpretado por Zezita Matos, é mãe de Bento (Irandhir Santos) e Santo (Domingos Montagner). A atriz concedeu uma entrevista exclusiva para o NaTelinha.
 
Assim como todos os atores da trama das nove sentiram a dor da trágica morte de Domingos Montagner, para Zezita a notícia veio de uma forma "brutal" e "cruel".
 
Ela, a quem o chamava carinhosamente de "filho", revela que o ator sempre tinha uma palavra de solidariedade e era de um relacionamento ímpar. Zezita enaltece o jeito carinhoso e a cumplicidade de Montanger durante as gravações das cenas de "Velho Chico.
 
Confira a entrevista na íntegra:
 
NaTelinha - Como foi a convivência com Domingos Montagner durante esses meses de gravação de "Velho Chico"?
 
Zezita Matos - Foi de fato um marco na minha história conhecer um ator competente, generoso e de um relacionamento ímpar. Vivo ou morto eu diria isso de Domingos. A cada cena e encontro que a gente tinha, fosse nos corredores, ele sempre falava uma palavra de solidariedade. Isso para mim marcou definitivamente a relação, tanto como atriz, como viver o papel da mãe de Domingos. Ele foi de fato um filho, aliás, dois que eu ganhei na vida.
 
NaTelinha - Qual foi a primeira coisa que você fez quando soube da notícia da morte dele?
 
 
Zezita Matos - É tão brutal que eu não acreditava. Nesse instante eu lembrava da cena. Não pode acontecer duas coisas no mesmo espaço de tempo. Se fosse daqui a alguns anos tudo bem, mas foi dentro de um pequeno espaço onde eu chorei a busca de Santo e depois sabia que não tinha como salvá-lo. Foi muito impactante para mim. Fiquei sem querer digerir isso. Aliás, até hoje eu fico pensando como essa ficção se tornou uma realidade, foi cruel.
 
 
NaTelinha - Alguma história que gostaria de relembrar durante este período que conviveram como colegas de trabalho?
 
Zezita Matos - Eu tinha dificuldade de coordenação motora na minha infância. E ele disse que ia me ensinar malabares. Fiquei de comprar e ele disse que ia me dar de presente as bolas... mas não deu tempo. Eu vou aprender malabares em homenagem a Domingos.
 
NaTelinha - Os índios que participaram da gravação do ritual de cura do personagem Santo na novela, enviaram um recado dizendo que Domingos Montagner virou um protetor do Rio São Francisco. Você acredita nisso?
 
Zezita Matos - Não acredito e nem desacredito. O que vejo é que Domingos foi uma comoção nacional. Primeiro pelo papel que ele estava desempenhando. As pessoas identificavam o herói que representava. Isso foi muito forte. Domingos fica um protetor do rio São Francisco, mas todos os anônimos, assim como ele, desaparecem naquele rio e também ficam. Reflito e digo, não só no rio.
 
Na Paraíba tem uma praia em que todo mundo sabe que é perigosa, mas sempre tem alguém que morre lá. 
 
NaTelinha - Alguma cena marcante que tenha contracenando com Domingos Montagner em "Velho Chico"?
 
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Zezita Matos - Eu relembro todas as cenas que fiz com Domingos. A começar pela primeira que sento no colo dele. Não foi nenhum diretor que mandou fazer aquilo. Ele sempre deixava florescer a relação. Em todas elas, tem um toque no braço, beijo, mão na cabeça. Isso me dói muito. Fico feliz pois essa relação de mãe e filho foi criada. É tanto que nos camarins e corredores ele dizia "mainha" e eu "meu filho". Todas que fiz com ele tem um olhar e um toque na mão, uma cumplicidade ímpar.

Domingos Montanger morreu aos 54 anos após se afogar nas águas do rio São Francisco.
 
"Velho Chico" chega ao fim nesta semana, na próxima sexta-feira (30), e o ator gravou praticamente todas as cenas restantes. As que não chegou a finalizar serão substituídas por uma lente de câmera - como se o telespectador visse os olhos do personagem.