Herdeiro do Grupo Globo rebate artigo de jornal britânico sobre o impeachment

Reportagem assinada por jornalista brasileiro colocou a culpa na imprensa, especialmente a Globo

 Herdeiro do Grupo Globo rebate artigo de jornal britânico sobre o impeachment
João Roberto Marinho ocupa o cargo de vice-presidente do Grupo Globo

Fabrício Falcheti

Publicado em 26/04/2016 às 16:12:02

No último dia 22 de abril, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo do jornalista brasileiro David Miranda, intitulado “O real motivo pelo qual os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment”. O texto aborda o processo que a presidente da República vem passando e o papel da mídia no caso, especialmente da Rede Globo.

Miranda lembra que “a maioria dos grandes grupos de mídia atuais - que aparentam ser respeitáveis para quem é de fora - apoiaram o golpe militar de 1964 que trouxe duas décadas de uma ditadura de direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do país. Esse evento histórico chave ainda joga uma sombra sobre a identidade e política do país. Essas corporações - lideradas pelos múltiplos braços midiáticos das Organizações Globo - anunciaram o golpe como um ataque nobre à corrupção de um governo progressista democraticamente eleito. Soa familiar?”.

E continua: “Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora. Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi que a mídia plutocrática do país gastou meses incitando esses protestos (enquanto pretendia apenas ‘cobri-los’). Os manifestantes não representavam nem de longe a população do Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e seus programas de combate à pobreza por duas décadas”.

Vice-presidente e herdeiro do Grupo Globo, João Roberto Marinho não gostou nada disso e escreveu uma carta ao The Guardian, publicada pelos editores na seção de comentários.

No texto, ele diz que toda a situação política do Brasil começou com a Operação Lava-Jato, "conduzida de acordo com as regras de direito do Brasil", e que a imprensa brasileira em geral "cumpriu seu dever de informar sobre tudo, como teria sido o casoem qualquer outra democracia no mundo".

João Roberto ainda garantiu que a Globo cobriu todos os protestos pelas ruas de maneira imparcial, e discordou da afirmação do jornalista, de que "o Grupo Globo lidera a mídia nacional", o que classificou como "de má fé". "A imprensa brasileira é uma paisagem vasta e plural de várias organizações independentes, 784 jornais diários impressos, 4.626 estações de rádio, 5 redes nacionais de transmissão de televisão, 216 canais a cabo pagos e outra infinidade de sites de notícias", bradou o filho de Roberto Marinho, fundador do Grupo Globo, falecido em 2003.

Leia a carta na íntegra:

"O artigo do Sr. David Miranda pinta uma imagem completamente falsa do que está acontecendo no Brasil hoje. Ele não menciona que tudo começou com uma investigação (chamada Operação Lava Jato), que por sua vez revelou o maior esquema de suborno e escândalo de corrupção da história do país, envolvendo os principais membros do Partido dos Trabalhadores (PT), assim como líderes de outros partidos da coalizão do governo, funcionários públicos e magnatas empresariais. Várias pessoas foram presas, e algumas foram condenadas. Todo o processo de investigação foi conduzido de acordo com as regras de direito do Brasil, sob a estrita supervisão da Suprema Corte do país. A imprensa brasileira em geral, e o Grupo Globo em particular, cumpriu seu dever de informar sobre tudo, como teria sido o caso em qualquer outra democracia no mundo. Vamos continuar a fazer o nosso trabalho, não importa quem seja afetado pela investigação.

Como reação às revelações da Operação Lava-Jato, milhões de brasileiros saíram às ruas em protesto. Precisamente para evitar quaisquer acusações de incitar as manifestações de massa – como o Sr. Miranda nos acusa – o grupo Globo cobriu os protestos sem nunca anunciar ou dar um parecer sobre eles em seus canais de notícias antes deles ocorrerem. A Globo tomou medidas iguais sobre os comícios favoráveis à presidente Dilma Rousseff e contra o impeachment: ela cobriu todos, sem mencioná-los antes deles ocorrerem realmente, concedendo-lhes o mesmo espaço que foi dado aos protestos anti-Dilma.

Quando o processo de impeachment começou na Câmara dos Deputados no Congresso, nós alocamos igual tempo e espaço para a defesa e acusação. O Grupo Globo não apoiou o impeachment em editoriais. Ele simplesmente declarou que, independentemente do resultado, tudo tinha de ser conduzido de acordo com a Constituição, que na verdade tem sido o caso até agora. O Supremo Tribunal Federal - onde oito dos onze juízes foram nomeados pelas administrações dos presidentes do PT Lula e Dilma - aprovou todo o processo. Culpar a imprensa pela atual crise política brasileira, ou sugerir que ela serve como um agitador, é repetir o erro antigo de culpar o mensageiro pela mensagem.

Por último, a afirmação de que o Grupo Globo lidera a mídia nacional, especialmente vindo de um cidadão brasileiro, só pode ser feita de má fé. A imprensa brasileira é uma paisagem vasta e plural de várias organizações independentes, 784 jornais diários impressos, 4.626 estações de rádio, 5 redes nacionais de transmissão de televisão, 216 canais a cabo pagos e outra infinidade de sites de notícias. Todo mundo atua com grande zelo para com o público brasileiro, que por sua vez é livre para fazer suas escolhas. Em meio a fortes concorrentes, o que encontramos é a independência (…). O Sr. Miranda tem o direito de dizer o que quiser, a fim de atingir os seus objetivos. Com o Grupo Globo repousa a responsabilidade de relatar os fatos como eles aconteceram. É nosso dever.

Atenciosamente,

João Roberto Marinho, presidente do conselho editorial".