O Diabo Veste Prada e 5 lições para jovens jornalistas
Ícone do cinema contemporâneo ganha sequência e continua não sendo um filme só sobre moda
Publicado em 01/05/2026 às 08:23,
atualizado em 01/05/2026 às 12:35
A espera acabou! A sequência de O Diabo Veste Prada, finalmente, chega às passarelas de moda. Quer dizer, às telas de cinema, duas décadas depois do lançamento do longa original, em 2006.
A repercussão tem sido de acordo com a expectativa dos fãs. Premiere espalhadas pelo mundo afora, com direito a celebridades desfilando pelo red carpet. Inclusive aqui, no Brasil.
Na última semana, o Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, deu uma pausa nos espetáculos de dança e concertos musicais para receber nomes do cinema, da TV, teatro e moda, além da imprensa e convidados que conferiram em primeira mão o filme do ano.

Capas de revistas, coleções inspiradas nos looks dos personagens, com suas padronagens e indumentárias, make, cosméticos e acessórios, assim como balde de pipoca em formato de bolsa ou sapato também fazem parte do pacote.
Marketing gratuito que vem ajudando a alavancar o longa antes mesmo da sua estreia. Não me surpreende se a franja da Andrea e os fios platinados da Miranda voltarem a dominar os Studios e Coiffeuer das cidades.
Aliás, já deu um Google? Basta pesquisar pelo título do filme para ver o famoso scarpin vermelho, com salto agulha em formato de tridente, caminhar pela tela do seu celular ou computador.
+ O Diabo Veste Prada 2: Veja antes e depois do elenco principal do filme
Hoje, não seria exagero afirmar que o mundo respira O Diabo Veste Prada 2. Agora, pensando no mercado cinematográfico, o filme estreia no Brasil uma semana depois de Michael, cinebiografia sobre o astro pop Michael Jackson (1958-2009), e que arrecadou R$ 1 bilhão em bilheteria em seu primeiro final de semana de exibição.
Embora sejam produções para públicos distintos, eu achei uma infeliz coincidência. A ponto de ousar afirmar que nesse embate de titãs Miranda Priestly leva a melhor.
Inspirada em Anna Wintour, lendária editora-chefe da Vogue norte-americana, a personagem de Meryl Streep é a dama de ferro do jornalismo. Uma mulher de língua afiada. Exigente, forte, crítica, classuda e muito feminina.
A chefe que todos temem, mas não abrem mão de tê-la por perto caso surja uma chance. Uns classificariam de masoquismo, outros de oportunidade de aprender a sobreviver no mundo corporativo.
O Diabo Veste Prada nunca foi só sobre moda

"Você vendeu a sua alma no primeiro Jimmy Choo que calçou". Essa frase foi citada em O Diabo Veste Prada (2006) por Emily Blunt (Emily Charlton), primeira assistente de Miranda Priestly, para Andrea (Anne Hathaway), a segunda assistente.
Como qualquer jornalista recém-formado, Andy sonhava com a chance de entrar no mercado de trabalho quando conseguiu uma vaga na Runway, uma das principais publicações de moda dos Estados Unidos.
O emprego que para tantos jovens parecia dos sonhos logo se tornaria um pesadelo para a moça nada cosmopolita, que não se interessava por alta costura, nem conhecia marcas famosas e, provavelmente, achou que Yves Saint Laurent era apenas um nome "fresco" de perfume.
Andrea era o oposto do que poderia se esperar de uma produtora de moda. Desengonçada para uns, cafona para tantos outros. Cabelo desgrenhado e ressecado, look amarrotado e que não combinava em nada. Sem o mínimo de vaidade.
Mas já era vista, mesmo que de forma negativa. E o resultado não poderia ser outro senão um tratamento vexatório. Além do bullying dos colegas por causa de sua aparência desleixada, a jovem rapidamente se tornou vítima do assédio moral da chefona.
Miranda tratava a inexperiente jornalista como capacho, mas sem perder a classe ou levantar a sua voz. Essa imponência que intimida através da fala mansa, do olhar que julga, da discreta levantada de sobrancelha capaz de arrepiar a espinha.

Era assim que Andrea e todos da equipe se sentiam, mas claro que com a "novata" o peso seria dois, porque o jogo é saber até onde a mocinha seria capaz de se humilhar para atingir os seus objetivos.
Voltando à frase sobre uma das marcas de sapatos mais cara do mundo, quem não se corromperia? A moda sempre foi vista como forma de expressão. Não à toa, o figurino de Miranda Priestly passa a imagem de uma mulher que está no topo da pirâmide.
Sabe o famoso "tailleur de tweed", de Coco Chanel? Foi criado pela estilista na década de 50, se tornando tendência para mulheres em cargos de confiança, de chefia, o que na maioria das vezes, ainda não muito diferente hoje, são ocupados por homens.
Por isso, quando Andrea percebe que só consegue virar o jogo se "corrompendo", ela muda o visual, aceita o que o universo está propondo para ela e agarra as oportunidades. E como já dizia um filósofo qualquer da vida... A gente se acostuma com o que é bom, né?
Agora, a questão é estar preparado para pagar o preço, porque a conta sempre chega. No caso da jovem, no geral o saldo foi até positivo, já que ela conquistou autoestima e autocofiança, aprendeu a lidar com o conflito, a trabalhar sob pressão e no meio do caos.
O lado negativo, se é que dá para chamar assim, foi descobrir as puxadas de tapete no mundo corporativo ou mercado de trabalho em geral, o machismo e a misoginia, às vezes velados, além de identificar um boy lixo e uns amigos que só lhe colocavam pra baixo, fazendo-a acreditar que o erro era dela.
O Diabo Veste Prada: 5 lições para estudantes de jornalismo e recém-formados

O Diabo Veste Prada tem o bônus e o ônus. O filme é delicioso para quem gosta de moda e beleza, ou sonha com o "falso glamour" que o jornalismo proporciona, uma carreira bacana e um salário top.
Por outro lado, o caminho pode ser duro, sofrido e que adoece. Estamos falando de um ambientes de trabalho tóxicos, de chefes autoritários e abusivos, de equipe oprimida e depressiva.
+ Claudia Raia assume papel de Meryl Streep em versão musical de O Diabo Veste Prada
Quando eu assisti ao filme, em 2006, estava formada há pouco tempo e rapidamente me identifiquei com os sonhos de Andrea e desejei um dia ocupar o mesmo lugar da Miranda.
Assim como o título, o longa atrai a nossa atenção. A história seduz, o cenário enfeitiça, os looks encantam... Mas é preciso um olhar mais profundo, uma análise mais crítica e menos romantizada da profissão.

É preciso ler nas entrelinhas:
1 - Assédio moral: humilhação pública, sobrecarga de trabalho, manipulação, isolamento social, abuso de poder, falta de comunicação e sacrifícios pessoais;
2 - Resiliência: o jornalismo é uma área de grande pressão. Quantas mensagens você já respondeu, ligações que atendeu, fora do horário de trabalho por medo de ser dispensada, ou mentiu sobre o seu estado emocional só para não parecer frágil?
3 - Proatividade: prestar atenção ao seu redor, não ignorar os detalhes e seguir as tendências, porque as pautas nem sempre batem na porta. Tem que correr atrás!
4 - Sacrifícios: Andrea era despreparada e a vida é feita de sacrifícios. Hoje você perde o chope com os amigos, mas faz contatos e aumenta o seu mailing. Fecha uma porta e abre duas janelas.
5 - O impossível é possível: nem sempre ser boa no que faz é suficiente. Às vezes, é preciso aguentar tudo e sem reclamar. Assim como Miranda, que precisou se blindar emocionalmente para ser respeitada.
Bônus:
Ocupação do lugar: Você já se perguntou o significado do título O Diabo Veste Prada? Chefes autoritários e exigentes são gênios. Já quando a "chefa" assume a mesma postura é rotulada de demônio. Deu pra entender ou quer que eu desenhe?