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Entrevista exclusiva

Nathalia Dill: "O jeito como o público se relaciona com a novela das 9 mudou"

Francesca de Quem Ama Cuida é uma incógnita até para a própria atriz; ela aposta que a fantasma tem "caso inacabado nesse plano"


Nathalia Dill
Nathalia Dill interpreta Francesca, fantasma que está relacionada a alguns dos principais mistérios da novela Quem Ama Cuida - Foto: Globo/Beatriz Damy
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Nathalia Dill vivencia o auge de uma obra aberta como Francesca em Quem Ama Cuida. A personagem misteriosa revelou ser uma fantasma ao longo da trama, e o entrecho espírita guarda alguns dos maiores mistérios do atual cartaz da Globo às 21h. A atriz comenta os rumos da história e opina sobre o atual momento das novelas em entrevista exclusiva ao NaTelinha.

No início, havia a possibilidade de Francesca não ser um espírito. A pegada sobrenatural ganhou força e se confirmou por conta da aprovação do público. “É uma personagem que vai se revelando aos poucos, inclusive para mim. Acho interessante não querer ter todas as respostas desde o começo e permitir que a história surpreenda”, comenta Nathalia Dill.

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A relação de Francesca com Otoniel (Tony Ramos), o único que se comunica com ela, instiga o público. Sabe-se ainda que a moça tem alguma ligação com Arthur Brandão (Antonio Fagundes), mas ainda não está claro qual era a relação entre ela e o empresário assassinado no início da história.

Para a intérprete, Francesca “tem algum caso inacabado nesse plano, alguma pendência que a prende aqui”. A atriz, contudo, não tem preferência sobre o destino da personagem. “Não fico muito pensando em ‘quero que ela termine assim ou assado’, porque também acho bonito deixar a narrativa conduzir.”

Sem descuidar dos projetos no cinema e no teatro, a atriz marca presença na TV desde os anos 2000. Ela vê uma mudança na audiência: “Estar no horário nobre ainda é uma vitrine muito importante, mas acredito que a força de uma novela hoje também está na capacidade que ela tem de continuar reverberando para além do horário em que foi exibida”.

Leia na íntegra a entrevista com a atriz Nathalia Dill

NaTelinha: Para você, como é criar uma personagem que vai sendo definida enquanto a história se desenvolve, como é o caso da Francesca em Quem Ama Cuida?

Nathalia Dill: Novela é isso, é obra aberta. Eu gosto muito desse processo porque ele mantém a personagem viva para mim. Quando a gente recebe uma personagem, existe uma ideia inicial, mas a novela é uma obra muito longa e construída em conjunto. Conforme as cenas acontecem, as relações se aprofundam e o público reage, também vamos descobrindo novas possibilidades.

Com a Francesca, tenho sentido muito isso. É uma personagem que vai se revelando aos poucos, inclusive para mim. Acho interessante não querer ter todas as respostas desde o começo e permitir que a história surpreenda.

NaTelinha: Qual destino você gostaria que a Francesca tivesse na história? Seria um caminho mais lúdico ou mais realista?

Nathalia Dill: Eu vejo um pouco dos dois lados nessa narrativa dela. Mesmo sendo uma trama espírita, vejo que o Walcyr e a Claudia fazem isso com muito respeito e bebendo de muitos relatos sobre esse tema.

Não fico muito pensando em “quero que ela termine assim ou assado”, porque também acho bonito deixar a narrativa conduzir.

O que me parece é que a Francesca tem algum caso inacabado nesse plano, alguma pendência que a prende aqui. E aí vamos conferir ao longo da novela se de fato é isso mesmo e o que seria essa urgência dela.

Francesca e Otoniel em Quem Ama Cuida
Francesca (Nathalia Dill) e Otoniel (Tony Ramos) em Quem Ama Cuida - Foto: Globo/Angélica Goudinho

NaTelinha: Os improvisos dos atores têm sido um dos pontos elogiados da novela. Você também tem usado essa liberdade em cena? De que forma?

Nathalia Dill: O improviso acontece muito mais quando existe intimidade e confiança entre os atores, nesse caso em específico, com o Tony, que é um gênio. Às vezes, você está em uma cena e percebe que existe um espaço para experimentar uma reação, uma pausa, um olhar ou uma fala que não estava prevista. Acho que isso deixa a cena mais orgânica.

Eu já trabalhei também no passado não só com o Walcyr, mas com a Claudia e a Amora, então eu tenho muita confiança no trabalho deles. Para mim, o improviso funciona quando está a serviço da cena e da relação entre os envolvidos.

NaTelinha: Você manteve nos últimos anos trabalhos frequentes na Globo, o que tem sido raro mesmo para atores veteranos. As novelas têm tido uma prioridade na sua carreira?

Nathalia Dill: As novelas continuam sendo muito importantes para mim, mas não diria que existe uma prioridade exclusiva. Tenho vontade de experimentar diferentes formatos, linguagens e personagens. Ao mesmo tempo, eu tenho uma relação muito especial com a televisão e com a novela, que foi onde construí grande parte da minha trajetória. Então, quando aparece um projeto que me interessa e uma personagem que me provoca, eu tenho muito prazer em voltar.

Acho que hoje a gente tem uma liberdade maior para transitar entre diferentes trabalhos, e isso é muito rico. Por exemplo, eu gravei um longa [O Personagem] recentemente sobre a imigração haitiana em São Paulo que deve ser lançado ano que vem e também estava em espetáculo [Três Mulheres Altas] que durou anos junto com a Suely Franco e a Deborah Evelyn.

NaTelinha: O que estar no ar no horário nobre representa para um ator hoje? A novela das nove ainda tem a mesma força de antes?

Nathalia Dill: Acho que a novela das nove continua tendo uma força enorme, mas o jeito como o público se relaciona com ela mudou. Hoje existem muitas formas de assistir, as pessoas comentam nas redes, criam teorias, recortam cenas, acompanham determinados personagens... A experiência ficou muito mais fragmentada e, ao mesmo tempo, muito mais participativa.

Estar no horário nobre ainda é uma vitrine muito importante, mas acredito que a força de uma novela hoje também está na capacidade que ela tem de continuar reverberando para além do horário em que foi exibida.

NaTelinha: Com mais de 20 anos de carreira na TV, você consegue eleger os momentos-chave, trabalhos que representaram viradas ou foram mais marcantes nessa trajetória?

Nathalia Dill: É muito difícil escolher, porque cada trabalho chega em um momento diferente da vida e deixa alguma coisa. Me lembro de Malhação (2007), Paraíso (2009), Cordel Encantado (2011), Avenida Brasil (2012), Liberdade, Liberdade (2016), Orgulho e Paixão (2018), A Dona do Pedaço (2019), Guerreiros do Sol (2025)…

Mas acho que, olhando para esses mais de 20 anos, as grandes viradas não estão necessariamente só nos trabalhos que fizeram mais sucesso. Às vezes, uma personagem chega em um momento em que você precisava se desafiar, ou um diretor te apresenta uma maneira nova de trabalhar, ou você encontra parceiros que transformam sua experiência.

Hoje eu consigo olhar para a trajetória muito mais como um conjunto de encontros e aprendizados do que como uma sequência de grandes acontecimentos.

NaTelinha: Se a Nathalia de hoje pudesse assistir aos primeiros trabalhos, de 20 anos atrás, qual conselho prático ou reflexão você daria?

Nathalia Dill: Acho que eu tinha muita pressa de acertar, de dar conta, de provar que eu conseguia. Hoje entendo que a gente não precisa saber tudo o tempo inteiro e que errar também faz parte do trabalho. Que fazer novela é um trabalho em equipe e quanto mais gente você conhece no set mais confortável você fica com a câmera, com o texto, com a direção, com seus colegas de elenco…

Quando você está começando, é muito fácil olhar para o lado e achar que todo mundo está avançando mais rápido do que você. Hoje eu vejo que cada trajetória tem seu tempo. Então acho que seria isso: aproveita mais o processo, se cobra um pouco menos e confia que você ainda vai descobrir muita coisa sobre você mesma no caminho.

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