José Rubens Chachá reclama da falta de convites: "O etarismo me afeta diariamente"
Ator celebra 50 anos de carreira com o monólogo autoral O Nome do Tango e faz parceria no teatro com a filha Maíra Chasseraux
Publicado em 18/08/2026 às 06:54
José Rubens Chachá comemora 50 anos de carreira com seu primeiro monólogo, O Nome do Tango, com estreia marcada para 19 de setembro, em São Paulo (SP). Escrito por ele para celebrar a ocasião, o texto reflete anseios do ator de 72 anos, que se depara com menos ofertas de trabalhos na maturidade, e dilemas que viveu na juventude, época dominada por ditaduras na América Latina.
Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, Chachá aponta: “Há cada vez menos personagens acima dos 65 anos no teatro, na televisão e no cinema, e isso naturalmente atravessou a criação do texto”. A peça também remete a lembranças dos tempos em que o então jovem artista sabia pouco do que acontecia no Brasil, mas acompanhava as notícias sobre a ditadura na Argentina.
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Embalada por clássicos da música argentina, O Nome do Tango acompanha a busca de um escritor por uma canção capaz de reverter sua decadência. O foco é colocado sobre o envelhecimento, a fragilidade da mente humana e o avanço da vida em diálogos constantes com o passado.
“O Nome do Tango reúne essas duas pontas da minha trajetória: o homem que sou hoje, olhando para o envelhecimento e para o etarismo, e o jovem que começou a fazer teatro em meio a um período de repressão. Revisitar essa história me parece importante, inclusive porque continuamos vendo, em diferentes partes do mundo, movimentos autoritários e ameaças à democracia. É um assunto que, para mim, ainda precisa ser lembrado e discutido.”
Outra experiência para celebrar é a parceria com a filha Maíra Chasseraux. Ela é quem dirige O Nome do Tango, enquanto é dirigida pelo pai em outro espetáculo criado por ele, Dr. Carrasco e Sua Criada Matti. “O mais interessante para mim é conseguir separar o amor que tenho pela minha filha da relação artística. De repente, eu passo a enxergá-la como profissional, a descobrir possibilidades que talvez eu não conhecesse tão de perto.”
A carreira do ator também se estende à televisão e ao streaming. Entre os momentos mais marcantes dessas cinco décadas, Chachá cita as minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006), da Globo, e a série O Rei da TV (2022), do Star+, em que interpretou Silvio Santos (1930-2024). “São muitas histórias, muitos personagens e muitos encontros. E, mesmo depois de tudo isso, continuo com a sensação de que a carreira não está completa. Ainda quero fazer muita coisa e, quem sabe, os melhores trabalhos ainda estejam pela frente.”
Leia na íntegra a entrevista com o ator José Rubens Chachá
NaTelinha: O que O Nome do Tango representa para a sua carreira? Qual o diferencial dessa montagem na sua trajetória?
José Rubens Chachá: O Nome do Tango representa uma comemoração na minha vida de autor e de ator. Escrevi esse texto especialmente para celebrar meus 50 anos de carreira e ele tem um gosto muito especial porque é o meu primeiro monólogo. Depois de tanto tempo de estrada, achei curioso chegar agora a um formato que eu sempre dizia aos amigos que todo ator deveria ter “no bolso do colete”, pronto para representar a qualquer momento.
“Aos 52 do segundo tempo, estou finalmente montando o meu. E ele acaba reunindo muitos lados do meu trabalho: o humor, o cômico, o dramático e o trágico. O espetáculo passa por várias camadas, do alegre ao mais denso, e me dá a oportunidade de transitar por todas elas em cena. Por isso, é um trabalho que representa muito para mim e que estou fazendo com muito carinho.”
NaTelinha: Quais foram as inspirações para o texto?
José Rubens Chachá: A inspiração veio de dois lugares muito pessoais. Um deles é a fase da vida em que estou hoje e os desafios do etarismo, que eu sinto na pele. Há cada vez menos personagens acima dos 65 anos no teatro, na televisão e no cinema, e isso naturalmente atravessou a criação do texto.
O outro lugar vem do meu passado. Comecei no teatro amador em Santos, ainda adolescente, fazendo teatro político em sindicatos e faculdades, justamente no auge da ditadura brasileira. Naquele momento, por causa da censura, muitas informações sobre o que acontecia no Brasil não chegavam até nós. Curiosamente, sabíamos muito mais sobre as ditaduras da Argentina, do Chile e do Uruguai. Eu costumava dizer que tinha mais medo do Videla (general Jorge Rafael Videla) do que do Médici, porque sobre Videla eu sabia muita coisa e sobre o que acontecia aqui, muito pouco.
“Escolher a Argentina como cenário também veio daí. A violência daquele período foi brutal e deixou marcas profundas na sociedade argentina. São lembranças que ficaram muito presentes para mim desde o início da minha vida no teatro, em 1968, justamente quando a repressão também se intensificava no Brasil.”
Então, de certa forma, O Nome do Tango reúne essas duas pontas da minha trajetória: o homem que sou hoje, olhando para o envelhecimento e para o etarismo, e o jovem que começou a fazer teatro em meio a um período de repressão. Revisitar essa história me parece importante, inclusive porque continuamos vendo, em diferentes partes do mundo, movimentos autoritários e ameaças à democracia. É um assunto que, para mim, ainda precisa ser lembrado e discutido.
NaTelinha: O espetáculo fala sobre envelhecimento e etarismo. Como você convive e enfrenta esses temas na sua vida pessoal? De que forma eles te afetam?
José Rubens Chachá: O etarismo me afeta diretamente. Depois dos 65 anos, comecei a perceber uma redução muito grande nas ofertas de trabalho. Eu tinha uma rotina intensa na televisão, no cinema e no teatro e, aos poucos, os personagens foram ficando mais raros. Vieram os avôs, os Papais Noéis, alguns papéis ligados à idade, mas existe uma escassez evidente de personagens acima dos 65 ou 70 anos.
E isso não acontece porque os atores mais velhos não queiram trabalhar. Tem muita gente com energia, repertório, disposição e vontade de continuar em cena. O que falta, muitas vezes, é escrever para essa faixa etária.
Eu acabei abraçando essa questão. Já escrevi espetáculos e roteiros para personagens mais velhos e acredito que esse também será um caminho importante para mim daqui para frente: usar a idade que tenho como matéria de criação e como possibilidade de trabalho.
“Eu me sinto muito ativo, com vontade de fazer, de criar, de sonhar novos trabalhos. Então, em vez de enxergar a idade como um freio, ela acabou me empurrando para a frente.”
Se eu ficar esperando em casa, vou acabar parando num bingo, e é justamente o que eu não quero. Quero continuar no palco, nas telas, diante das câmeras e inventando coisas para fazer.
NaTelinha: Como é a experiência de trabalhar com sua filha em dois espetáculos? A intimidade familiar contribui para a parceria artística?
“A convivência artística com a minha filha, por incrível que pareça, é uma novidade para nós dois. Eu tenho muitos anos de carreira, ela também, e durante muito tempo a gente falou sobre a vontade de fazer alguma coisa junto, mas a vida foi levando cada um para seus caminhos.”
Agora isso finalmente aconteceu em duas frentes. Em O Nome do Tango, a Maíra me dirige. Em Dr. Carrasco e sua criada Matti, eu dirijo a Maíra e o Pedro Osório em um texto que escrevi para os dois. E tudo isso também acabou se organizando em torno da Cia. Fotiá.
O mais interessante para mim é conseguir separar o amor que tenho pela minha filha da relação artística. De repente, eu passo a enxergá-la como profissional, a descobrir possibilidades que talvez eu não conhecesse tão de perto. Quando ela me dirige, traz um olhar que eu não tenho e acrescenta muito ao personagem e ao texto. E, quando eu a dirijo, acontece o caminho inverso: vejo como ela recebe e transforma um texto que escrevi pensando nela.
Está sendo uma troca muito rica e uma pequena loucura, porque estamos montando dois trabalhos ao mesmo tempo. Mas eu gosto disso. Para quem não quer ficar parado e está sempre procurando movimento, está sendo uma experiência muito especial: dirigir minha filha e também ser dirigido por ela.
NaTelinha: Em 50 anos de carreira, imagino que sejam muitos momentos marcantes e inesquecíveis. Consegue elencar os principais?
José Rubens Chachá: É difícil escolher poucos momentos em 50 anos, porque tive experiências muito marcantes no teatro, no cinema e na televisão. E o mais importante é que consegui me realizar profissionalmente me divertindo muito ao longo do caminho. Mas algumas lembranças têm um lugar especial.
Uma delas é a primeira montagem de Os Saltimbancos, em que fiz o Cachorro e tive o Chico Buarque presente nos ensaios. Depois veio também a primeira montagem de A Ópera do Malandro, novamente com o Chico acompanhando o processo.
Mais tarde, entrei para o Teatro do Ornitorrinco, que marcou profundamente a minha trajetória e me levou a viajar pelo mundo. Fizemos festivais e temporadas em vários países e continentes. Uma lembrança muito forte é Sonho de uma Noite de Verão, no Central Park, em Nova York, diante de uma plateia enorme. A gente interpretava em português e era impressionante perceber como o público acompanhava tudo. Também guardo com muito carinho as temporadas na Alemanha, na Espanha e tantos outros lugares por onde passamos.
No cinema, um momento inesquecível foi Uma História de Futebol, indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2000. Estar naquela cerimônia representando o Brasil foi uma experiência única. Não ganhamos, mas eu brinco que ficamos com o “Oscar de prata”. Só estar ali já foi uma vitória enorme para todos nós.
Na televisão, viver Oswald de Andrade também foi muito especial. Fiz o personagem em Um Só Coração e depois em JK, numa experiência rara de levar o mesmo personagem de uma minissérie para outra. E, mais recentemente, interpretar Silvio Santos em O Rei da TV foi outro grande momento da minha carreira. Foi um trabalho que me exigiu muito e que considero um dos mais importantes que já fiz.
São muitas histórias, muitos personagens e muitos encontros. E, mesmo depois de tudo isso, continuo com a sensação de que a carreira não está completa. Ainda quero fazer muita coisa e, quem sabe, os melhores trabalhos ainda estejam pela frente.
O Nome do Tango, com José Rubens Chachá , estreia em 19 de setembro e fica em cartaz até 11 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo (SP). Ingressos à venda pelo site Sympla.
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