Rita Batista revela desafios em A Nobreza do Amor: "Já precisamos parar gravações"
Apresentadora e jornalista faz sua estreia como atriz interpretando Ladisa, viúva que representa milhões de mulheres negras na trama das 18h
Publicado em 19/06/2026 às 06:54,
atualizado em 19/06/2026 às 12:20
Com uma trajetória no jornalismo, no entretenimento e agora nas novelas, Rita Batista mostra que é sempre tempo de se reinventar. Aos 47 anos, ela deixou o comando do É de Casa para se aventurar como atriz vivendo a sofrida Ladisa em A Nobreza do Amor, que vai ao ar na Globo às 18h. Para a intérprete, a personagem representa milhões de mulheres negras vítimas da violência no país.
“Essas mulheres precisam fazer do luto uma bandeira de luta para continuar vivendo, carregando, além de tudo, mais uma causa”, afirma Rita Batista, em entrevista exclusiva ao NaTelinha. “Não se trata de mau humor; o rosto delas apenas revela um estado de espírito. A Ladisa sorri pouco e festeja pouco porque a vida é muito dura e a lida é enorme.”
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Jendal, o vilão interpretado por Lázaro Ramos, também se assemelha a tiranos da vida real, segundo Rita. Na trama, foi em um protesto contra o golpista do reino de Batanga que o marido de Ladisa foi assassinado, inspirando a viúva a integrar o movimento de resistência contra o vilão no fictício reino africano.
Sobre a estreia na dramaturgia, a veterana da TV revela: “Uma das minhas maiores dificuldades tem sido não encarar a câmera, já que passei 22 anos olhando diretamente para ela no jornalismo. De repente, hoje, preciso ignorar a lente, o que é muito esquisito para mim, pois olhar no olho da lente sempre foi o meu forte, o meu tesão”.
Ela admite que já foi preciso parar as gravações por conta do costume. Contracenar com os colegas também tem sido um desafio. “O silêncio também comunica, e comunica muito, o que é o oposto do jornalismo, onde não podemos deixar espaços vazios”, detalha.
O público, que reagiu surpreso ao vê-la na novela, quer saber se Rita pretende voltar ao posto de apresentadora ou se seguirá em novelas. Ela, por outro lado, rejeita previsões para o futuro. “Já sou uma pessoa que mantém a ansiedade sob controle, com dez miligramas diários do meu remédio e o tratamento todo certo, então evito ficar pensando muito no amanhã.”
Leia a íntegra da entrevista com Rita Batista, de A Nobreza do Amor
NaTelinha: Há um paralelo entre a luta de Ladisa no contexto de A Nobreza do Amor e as lutas travadas na sociedade nos dias de hoje?
Rita Batista: Ladisa representa essa mulher negra, brasileira e trabalhadora que compõe a base da pirâmide social desse país. Muitas vezes ela tem os seus companheiros assassinados pela violência urbana, pela guerra entre polícia, tráfico e milícia, e por todas as mazelas brasileiras que moldam a sobrevivência feminina. Essas mulheres precisam fazer do luto uma bandeira de luta para continuar vivendo, carregando, além de tudo, mais uma causa.
Por isso, honrar esse lugar e esse papel é um presente. É honrar a vivência de todas as mulheres que convivem comigo, que eu conheço, que vocês conhecem e que sabemos que estão ali. Não se trata de mau humor; o rosto delas apenas revela um estado de espírito. A Ladisa sorri pouco e festeja pouco porque a vida é muito dura e a lida é enorme.
Às vezes, as pessoas acham que elas estão mal-humoradas. O machismo, a heteronormatividade e o patriarcado ainda fazem piada disso, dizendo que "aquela mulher dormiu de calça jeans", que é "mal-amada", "mal-comida" ou que está "de mal com a vida".
No entanto, só ela sabe o que precisa transpor e movimentar dentro de si para continuar acordando, trabalhando e equilibrando todos os pratos ao mesmo tempo. Ela não pode deixar nenhum cair, porque, se algum quebrar, além de repor, ela terá que recolher todos os caquinhos e dar a destinação certa a eles, sem se cortar. É muito duro, mas é muito real.
NaTelinha: O que pode nos contar sobre o destino da personagem?
Rita Batista: Eu posso contar sobre o desejo que eu tenho. Quero que a Ladisa seja feliz e que ela se refaça. Nós queremos Batanga livre, longe das mãos de Jendal, dos tiranos, tingualulo, do facínora, miserável e desgraçado.
A gente xinga o personagem de Lázaro Ramos o tempo todo, mas o Brasil está odiando amar esse ator genial, generoso, querido e mestre na interpretação. Ele está trazendo esses desmandos do malvado Jendal para o horário das seis, para a nossa A Nobreza do Amor, fazendo uma relação com muita gente que a gente conhece na realidade. Inclusive com pessoas que fecham as padarias do reino para terem jardins no palácio inspirados em Versalhes. Vejam onde vai a tirania de Jendal, que se assemelha muito a outros tiranos que temos na vida real.
A minha vontade é que a Ladisa seja feliz e que se refaça verdadeiramente desse luto. Desejo que ela encontre o amor conjugal, porque o amor pela terra, pelo território, pela pátria e pela liberdade ela já tem; isso é visível em todas as falas dessa mulher. Espero que, junto com seus companheiros e companheiras de luta, ela consiga, de fato, fazer com que a Princesa Alika se torne rainha, volte para Batanga e faça justiça por seu pai, que foi assassinado por Jendal.
No fim, o que quero é que ela seja feliz. É o que desejo para mim, para as minhas amigas e para todas as mulheres: que sejamos plenamente felizes de acordo com o que queremos fazer das nossas vidas, vivendo do nosso jeito e sem ameaças por sermos mulheres.
A Ladisa, por exemplo, já foi assediada por Pascoal (Luciano Quirino), o chefe da guarda de Jendal, que se assemelha muito a ele na tirania e na malvadeza. O meu desejo é que não sejamos estupradas, abusadas ou cerceadas de nossos direitos apenas por sermos mulheres.
NaTelinha: Como tem sido a experiência de estreia em novelas? Quais têm sido os principais desafios?
Rita Batista: Esta é a minha primeira novela e eu tenho a sorte de estar com esse elenco primoroso, nessa história incrível que o Brasil já abraçou e que é um grande sucesso no horário das seis.
Como todos os produtos da Globo, há um rigor extremo em A Nobreza do Amor, um rigor de estilo, de pesquisa, de busca, que se reflete no cenário, no figurino e na caracterização. É realmente um trabalho de excelência para o público viajar, se divertir a cada capítulo, esquecer um pouco do mundo e embarcar com a gente nessa fábula que queremos contar.
Estou muito feliz e cercada por grandes professores que tenho o prazer de chamar de colegas de elenco, como Hilton Cobra, André Luiz Miranda, Licínio Januário, que são os que mais contracenam comigo, além de Luciano Quirino, Lázaro Ramos e Nikolly Fernandes. Esses parceiros de cena do dia a dia me dão toques preciosos. Meus diretores, Mariana Betti, Pedro Guerreiro, Ricardo, Gustavo e Igor Verde, também são maravilhosos e muito pacientes comigo.
Uma das minhas maiores dificuldades tem sido não encarar a câmera, já que passei 22 anos olhando diretamente para ela no jornalismo. De repente, hoje, preciso ignorar a lente, o que é muito esquisito para mim, pois olhar no olho da lente sempre foi o meu forte, o meu tesão. Já precisamos parar gravações porque dei uma olhada de canto de olho ou encarei a câmera, mas a direção, com toda a paciência, disse "Rita deu uma roubadinha, olhou para a câmera", me orientou.
Contracenar também é um grande desafio. Não se trata apenas de esperar o outro terminar a fala; é uma conversa, um diálogo em que é preciso entender e perceber o tempo e a respiração do outro, assim como o seu próprio tempo. Não se deve responder imediatamente por mera obrigação mecânica da teledramaturgia. O silêncio também comunica, e comunica muito, o que é o oposto do jornalismo, onde não podemos deixar espaços vazios.
“Esse processo está sendo muito interessante. É desafiador, sim, mas essas dificuldades se tornaram testes fantásticos para o meu aprendizado. Com a maturidade, prestes a completar 50 anos, entendi que a multidisciplinaridade se aplica a todos os aspectos e ambientes da existência, inclusive à profissão. Atuar é mais uma forma de comunicar, mais uma vertente e mais um braço artístico. Estou me testando em todas essas performances e adorando a experiência.”
Rita Batista
NaTelinha: Quais reações do público sobre esse novo trabalho têm chegado até você?
Rita Batista: No primeiro momento, claro, as pessoas se surpreenderam e se perguntavam: "Mas como assim? E agora?". A pergunta do momento é se eu volto para a apresentação, mas eu não sei. Também me perguntam se já tenho uma próxima novela, mas as pessoas precisam ter calma, pois nem acabei a primeira ainda.
Acho que essa ansiedade do público é natural, mas eu não a absorvo, porque senão acabo ficando ansiosa de verdade. Eu já sou uma pessoa que mantém a ansiedade sob controle, com dez miligramas diários do meu remédio e o tratamento todo certo, então evito ficar pensando muito no amanhã.
Eu vivo as 24 horas de hoje. O meu tempo é agora, como dizia Mãe Stella de Oxóssi, a ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que já nos deixou. Ela tem um livro que fala exatamente disso: "Meu tempo é agora".
Nós temos a mania de projetar o futuro, e claro que fazemos projetos, temos expectativas e queremos traçar planos. No entanto, estou fazendo tudo a curto prazo para ir entendendo como vou me movimentar daqui para frente, agora com mais uma possibilidade de trabalho, de fazer artístico e de comunicação.
O público ainda reage com surpresa porque muitos não sabiam ou não tinham me visto atuar. É a mesma surpresa de quando as pessoas me viram cantar pela primeira vez e perguntam: "Mas você também atua?". Pois é, nem eu sabia.
NaTelinha: No futuro, você se vê mais como atriz ou como apresentadora? Qual caminho pretende privilegiar?
Rita Batista: Olha vocês aí perguntando o que eu acabei de falar. No futuro, o que é o futuro? Como diz lá na Globo, o futuro já começou.
A Nobreza do Amor é criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior, com direção artística de Gustavo Fernandez.
O NaTelinha divulga todos os dias os resumos dos capítulos, detalhes dos personagens, entrevistas exclusivas com o elenco e spoilers da novela A Nobreza do Amor. Confira!
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