Quem é João Victor Gonçalves? Conheça o ator que vive Mau Mau em Quem Ama Cuida
Estreante revela como seu primeiro personagem em novelas se aproxima e se distancia de sua história pessoal
Publicado em 05/06/2026 às 05:00
João Victor Gonçalves é um rosto novo na TV, mas quem assiste às suas cenas como Mau Mau na novela Quem Ama Cuida não imagina que a trajetória artística do ator paulista de 24 anos já é longa. Com uma carreira no teatro desde a infância, ele revela, em entrevista exclusiva ao NaTelinha, com o primeiro personagem na TV se aproxima e se distancia de sua história pessoal.
Com cerca de 15 anos de carreira, João Victor Gonçalves conta já ter participado de mais de 400 montagens teatrais. “Posso dizer que nunca passei um fim de semana sem estar em cartaz”, diz. Na faculdade, cursou Rádio e TV, mas não quis trocar pela comunicação o trabalho com as artes cênicas.
Em sua estreia em novelas, interpreta um jovem gay em processo de autodescoberta. “Queria interpretar o Mau Mau de uma forma que fugisse completamente dos estereótipos, construindo um personagem leve, humano e verdadeiro. Estou feliz porque esse retorno está chegando ao público.”
Nas redes sociais, já há torcida para que o personagem viva um romance com Felipe (Pietro Antonelli) ou com Heitor (Renato Góes), o filho desaparecido de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) que entra em cena mais adiante.
Desde a estreia, têm repercutido as cenas em que os gestos e as falas de Mau Mau são reprimidos pelo avô Otoniel (Tony Ramos). Os atores já gravam a segunda fase da trama, após uma passagem de tempo, em que o rapaz irá adiante em um processo assumir a sexualidade em meio a medos e dúvidas.
“Na minha vida, a aceitação aconteceu de forma muito tranquila”, relata João Victor. “Cresci em uma família que sempre valorizou muito mais o caráter e a felicidade das pessoas do que qualquer outra coisa. Desde pequeno, ouvi que o mais importante era ser uma boa pessoa e encontrar aquilo que me fizesse feliz.”
Ele frisa: “Claro, ouvi comentários preconceituosos em ambientes externos, como na escola e outros espaços de convivência. Mas isso sempre teve um peso muito pequeno diante do apoio que eu recebia dentro de casa”. Algumas dessas experiências serviram para a construção do primeiro personagem na TV.
“Me envolvi com uma pessoa que vivia diariamente a repressão dentro da própria casa. Mesmo sem ter se assumido para a família, ela escutava comentários homofóbicos constantemente”, relembra. “Pude emprestar um pouco das emoções, dos conflitos e das dores que testemunhei de perto para contar essa história com mais verdade e sensibilidade.”
Leia a entrevista com João Victor Gonçalves, o Mau Mau de Quem Ama Cuida
NaTelinha: Essa é a sua primeira novela, certo? Fale um pouco da sua trajetória até aqui.
João Victor Gonçalves: Sim, Quem Ama Cuida é a minha primeira novela, e minha trajetória até aqui é longa. Eu comecei quando tinha oito anos na Oficina dos Menestréis. Faço parte desse grupo até hoje. Entrei pelo grupo livre, que é o grupo de teatro para formação, e hoje faço parte da companhia profissional. Lá foi a minha grande casa. Foi onde aprendi tudo o que sei. Comecei a ganhar dinheiro com teatro quando tinha 12 anos. Ali tive meu primeiro trabalho profissional.
“Costumo dizer que ser ator não foi a profissão que escolhi ter, mas a profissão que não consegui deixar de ser. Eu não pensava em ser ator. Estava no teatro porque gostava, porque me divertia. Era uma grande brincadeira, e sempre foi assim. Um lugar leve, onde eu me dedicava muito e, às vezes, me destacava. Isso acabava me levando para outros trabalhos.”
Quando completei 16 anos, a equipe da Oficina dos Menestréis me convidou para fazer assistência de direção. Ao mesmo tempo, fazia de tudo no teatro: luz, som, contrarregragem. Aprendi um pouco de cada área porque sempre tive curiosidade e vontade de conhecer tudo. Foi uma paixão construída na prática.
Quando terminei o ensino médio, decidi cursar Rádio e TV. Fiz a faculdade, gostei muito da área, mas percebi que queria estar em cena. Não queria trabalhar apenas nos bastidores.
Então mergulhei de vez na atuação. Eu já possuía meu DRT por conta da quantidade de horas de palco acumuladas ao longo dos anos e comecei a investir ainda mais na profissão. Fui estudar outras técnicas de interpretação, conhecer novos métodos.
Minha primeira experiência no audiovisual veio em 2021, com a série Mila no Multiverso. Foi uma oportunidade importante. Depois disso, me dediquei mais ao teatro, trabalhando intensamente nos palcos. Em 2025, participei do filme Nicole: A Primeira Fome.
Em mais de 15 anos já participei de mais de 400 montagens. Posso dizer que nunca passei um fim de semana sem estar em cartaz.
NaTelinha: Quais respostas do público têm chegado até você sobre o Mau Mau de Quem Ama Cuida?
João Victor Gonçalves: Os feedbacks são muito positivos, principalmente porque o Mau Mau tem gerado muita identificação entre jovens que sofrem ou já sofreram dentro de casa com microagressões e situações de preconceito.
Além disso, tenho recebido retornos muito interessantes sobre o meu trabalho e a forma como escolhi construir o personagem. O texto chega com algumas indicações e pistas sobre quem é aquele personagem, mas cabe ao ator decidir como traduzir isso em cena.
Durante a preparação, conversei bastante com nosso preparador e compartilhei um desejo muito claro: queria interpretar o Mau Mau de uma forma que fugisse completamente dos estereótipos, construindo um personagem leve, humano e verdadeiro. Estou feliz porque esse retorno está chegando ao público.
O Mau Mau é um garoto tímido, mas sua timidez não define quem ele é. Ele se retrai por causa do ambiente familiar em que vive. Quando está em espaços onde se sente seguro, consegue se soltar um pouco mais, mas logo volta a se fechar por medo das reações que pode enfrentar. Ele convive com o receio constante de sofrer agressões emocionais e psicológicas. E isso torna a trajetória dele muito sensível.
“Ao mesmo tempo, existe uma complexidade interessante na relação com o avô [Otoniel, vivido por Tony Ramos]. Não é um homem que não ama o neto. Pelo contrário, ama muito, mas carrega uma visão de mundo antiga, marcada por medos e limitações que acabam se transformando em atitudes preconceituosas.”
Fico sempre feliz com a resposta do público. Quando as pessoas se identificam com uma história, sinto que estou cumprindo meu papel como ator. Isso me mostra que todo o estudo, dedicação e toda a busca por verdade na interpretação estão chegando do outro lado.
Acho que o Mau Mau terá uma trajetória muito bonita pela frente. Estou ansioso para que o público acompanhe essa evolução.
NaTelinha: A novela terá uma passagem de tempo, com mudança para a segunda fase da história. O que você pode nos adiantar?
João Victor Gonçalves: Começamos a gravar a segunda fase da novela e acredito que o Mau Mau ainda tem muita coisa para viver. Vamos descobrir, muitos desafios para enfrentar uma jornada importante de amadurecimento.
Acima de tudo, essa nova fase será marcada pelo processo de autodescoberta. Neste momento da história, o Mau Mau ainda está tentando entender quem ele é. Ele vive muitas dúvidas, muitos medos e ainda busca seu lugar no mundo.
Na segunda fase, acredito que veremos um personagem mais disposto a se conhecer, a se aceitar e a enfrentar seus conflitos de frente. E isso passa diretamente pela relação com a família, especialmente com o avô.
“Existe uma questão muito delicada que muitas pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam. O mais difícil nem sempre é a família não aceitar quem você é. Muitas vezes, o mais difícil é aceitar que a sua família talvez nunca corresponda às expectativas que você tem. E seguir em frente mesmo assim.”
Quando existe acolhimento familiar, tudo se torna mais leve. Mas essa não é a realidade de todas as pessoas. O Mau Mau vive justamente esse conflito: seguir aquilo que o avô acredita ou escolher a própria felicidade.
O plot twist do Mau Mau será entender que ser feliz, muitas vezes, exige coragem para viver a própria verdade.
NaTelinha: O personagem levanta uma abordagem sobre a descoberta da sexualidade e a aceitação da família. Fale um pouco sobre a sua experiência a esse respeito.
João Victor Gonçalves: Na minha vida, a aceitação aconteceu de forma muito tranquila. Cresci em uma família que sempre valorizou muito mais o caráter e a felicidade das pessoas do que qualquer outra coisa. Desde pequeno, ouvi que o mais importante era ser uma boa pessoa e encontrar aquilo que me fizesse feliz.
Claro, ouvi comentários preconceituosos em ambientes externos, como na escola e outros espaços de convivência. Mas isso sempre teve um peso muito pequeno diante do apoio que eu recebia dentro de casa. Eu, minha irmã, meus primos, todos cresceram com essa visão de que o amor e a felicidade importam mais do que qualquer rótulo. Por isso, minha experiência pessoal foi marcada pelo acolhimento.
“Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de conviver de perto com uma realidade muito diferente. Me envolvi com uma pessoa que vivia diariamente a repressão dentro da própria casa. Mesmo sem ter se assumido para a família, ela escutava comentários homofóbicos constantemente. Eram falas que colocavam em dúvida quem ele era e o direito que tinha de viver a própria felicidade.”
Muitas vezes são situações que envolvem religião, crenças familiares e valores muito rígidos. E o resultado é que a pessoa se vê impedida de viver sua verdade, de amar quem deseja amar e de construir a vida que gostaria de ter.
O que mais me marcou foi perceber que o medo não era apenas de se assumir. Era o medo de perder a família que amava. O medo de ser rejeitado pelas pessoas mais importantes da sua vida, simplesmente por amar alguém do mesmo sexo.
De certa forma, essa vivência me ajudou muito na construção do Mau Mau. Pude emprestar um pouco das emoções, dos conflitos e das dores que testemunhei de perto para contar essa história com mais verdade e sensibilidade.
NaTelinha: Como avalia a importância de abordar esse tema na TV?
João Victor Gonçalves: Eu acho fundamental abordar esse tema na televisão. A TV continua sendo um dos meios de comunicação com maior alcance no país, chegando diariamente à casa de milhões de pessoas. A dramaturgia tem um poder enorme de gerar identificação e reflexão. Muitas vezes, o público enxerga aqueles personagens como pessoas reais e se envolve profundamente com suas histórias.
Por isso, considero muito importante que pais, avós, tios, tias e todas as pessoas que reproduzem esse tipo de comportamento dentro de casa possam se reconhecer nessas situações. Muitas vezes, essas agressões não acontecem de forma explícita. Elas aparecem em comentários, piadas, críticas ou cobranças constantes dirigidas a jovens que fogem dos padrões esperados, seja em relação à sexualidade, à identidade ou até mesmo à forma de se expressar.
O que mais me toca na história do Mau Mau é que ele não responde, não confronta e nem se afasta imediatamente. Ele guarda tudo para si. Ele se machuca em silêncio porque ama sua família e tem medo de perder essas pessoas. E essa é uma realidade vivida por muita gente.
Por isso, é importante que a televisão mostre as consequências dessas atitudes. Muitas vezes, quem reproduz esse tipo de comportamento acredita que está protegendo, orientando ou educando. Mas, na prática, está ferindo, afastando e impedindo alguém de ser quem realmente é.
“Acredito que a televisão tem a capacidade de provocar essa reflexão. Se a história que estamos contando conseguir gerar essa conversa dentro das famílias, já terá cumprido um papel muito importante.”
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