Entrevista exclusiva

Dercy Gonçalves é um antídoto contra a caretice dos nossos tempos, diz biógrafa

Livro ressalta contradições da artista, segundo Adriana Negreiros; falas machistas, racistas, homofóbicas e transfóbicas não são ignoradas


Dercy Gonçalves
“Ao mesmo tempo que agia como uma feminista autêntica, ela criticava o feminismo”, diz biógrafa de Dercy Gonçalves - Foto: Reprodução/Globo
Por Walter Felix

Publicado em 14/05/2026 às 05:27,
atualizado em 14/05/2026 às 10:29

Na intenção de narrar a história de uma mulher que sintetizasse o Brasil do século XX, a jornalista e escritora Adriana Negreiros elegeu Dercy Gonçalves (1907-2008) como a personagem ideal. Assim nasceu o livro Dercy: A Diva Debochada, lançado pela Editora Objetiva no momento em que a espontaneidade da biografada faz tanta falta, segundo a autora.

“Dercy é um antídoto contra a caretice reinante dos nossos tempos, contra esse moralismo aterrorizante que domina a nossa sociedade”, diz Adriana. “Vivemos tempos absolutamente moralistas, conservadores, em vários aspectos da sociedade, tanto à esquerda quanto à direita, e de uma rigidez de comportamento como eu, aos 51 anos, nunca vi.”

30 anos depois: Como estão hoje as Hzetes, musas do 1º programa de Luciano Huck?

O livro traz detalhes do início da vida da artista, em Santa Maria Madalena, no interior do Rio de Janeiro, até a ascensão no teatro, no cinema e na televisão, onde, além de atriz e comediante, foi também apresentadora. São elencados afetos e desafetos no meio artístico e passagens dramáticas, com uma variedade de tragédias – incluindo a violência sexual sofrida aos 73 anos.

Cada capítulo é intitulado por frases da artista, preservando seu arsenal de palavrões. Entre os melhores achados, há pérolas como “Só paro quando a buceta encontrar com o queixo”, ao comentar a constante busca por cirurgias plásticas em meio a decepções na vida amorosa – e em uma sociedade que passou a considerá-la velha por volta dos 30 anos de idade.

A biografia resgata uma Dercy tão divertida quanto polêmica. Ela falava de forma crua sobre temas como aborto, maternidade e sexo. Declarações hoje consideradas machistas, racistas, homofóbicas e transfóbicas não foram ignoradas e revelam, segundo Adriana, a complexidade da personagem.

Referia-se a Grande Otelo (1915-1993), com quem dividiu a cena algumas vezes, como “negro safado”. No fim dos anos 1980, culpou homossexuais pela proliferação de HIV/Aids e, ao mostrar os seios na TV, argumentou que o fez em resposta à popularidade de Roberta Close. O movimento feminista também era alvo da artista.

“Ao mesmo tempo que agia como uma feminista autêntica, ela criticava o feminismo”, nota a escritora, que aponta os impropérios da comediante como um reflexo daquele tempo. “Não podemos olhar para o passado com os olhos de hoje”, defende. A trajetória de Dercy, como bem percebeu a autora, ajuda a passar a limpo parte da história do país.

Leia a íntegra da entrevista com Adriana Negreiros, autora de Dercy: A Diva Debochada

Adriana Negreiros
A jornalista e escritora Adriana Negreiros - Foto: Reprodução/Instagram

NaTelinha: Como surgiu o projeto do livro Dercy: A Diva Debochada?

Adriana Negreiros: Eu tinha a intenção de pesquisar um pouco mais sobre como foi a vida das mulheres no Brasil no século XX. Tinha originalmente um plano muito ambicioso de contar a história das mulheres no Brasil ao longo de um século. Queria contar uma história coletiva, mas tendo um indivíduo como cicerone, alguém que pudesse pegar a minha mão e me conduzir pelo século XX, contando como foi aquele período para as mulheres brasileiras.

Comecei a pensar em uma personagem que tivesse a capacidade de me apresentar esse século, por ter vivido nele e ter tido uma vida intensa, não uma vida circunscrita ao ambiente privado. Portanto, não poderia ser uma dona de casa, por exemplo, mas uma mulher que tivesse ocupado o espaço público.

E foi assim que Dercy surgiu, como essa mulher que nasceu em 1907, morreu em 2008 e, portanto, percorreu todo o século desde muito cedo sob os holofotes. Foi uma mulher testemunha desse século em um ambiente muito atraente, que é o ambiente artístico, sobre o qual eu tinha muita curiosidade, muita vontade de mergulhar. Foi assim então que surgiu a Dercy como essa personagem a ser biografada.

NaTelinha: Você escreve, ao final da biografia, que se encantou pela Dercy durante o trabalho de pesquisa. Conte sobre sua história com ela. Quais suas primeiras lembranças e impressões? Chegou a conhecê-la pessoalmente?

Adriana Negreiros: Minha história com ela não é nada de muito próprio ou peculiar. Não a conheci pessoalmente, não tive a oportunidade de entrevistá-la. Sou jornalista desde 1996, mas trabalhei primeiro com política, depois com outros temas e, mesmo na época em que fui editora na Playboy e trabalhava mais com artistas, não consegui entrevistá-la. Até tentei, mas, por alguma razão, não deu certo, o que muito me entristece hoje.

Dercy Gonçalves
Dercy Gonçalves em participação especial na novela Que Rei Sou Eu?, de 1989 - Foto: Divulgação/Globo

As lembranças mais antigas que eu tenho da Dercy são da novela Que Rei Sou Eu? (1989). Lembro que eu ficava muito surpresa com a imagem daquela mulher com um porte muito diferente das demais. A maneira como ela atuava era muito diferente dos outros atores, porque parecia muito que ela estava inventando na hora os diálogos, o que de fato viria a se confirmar depois.

E a lembrança mais forte é dela no Domingão do Faustão, que eu assistia ao do lado do meu pai. Eu morava na periferia de Fortaleza, em um bairro que não tinha muitos equipamentos públicos de lazer, e a minha diversão aos domingos era basicamente ver o Domingão do Faustão. Meu pai era um homem muito sisudo, e na minha casa não se podia falar palavrões. A Dercy apareceu falando aquele monte de barbaridades, e ficava aquele climão no ar, porque não era o tipo de coisa que fazia parte da nossa rotina, mas era muito divertido, porque era como alguém que desmascarasse uma certa hipocrisia reinante.

“Eu tinha muita fascinação pela figura da Dercy por ser essa mulher que em tudo era diferente da maneira como eu vivia. Muito livre, que podia dizer o que vinha à cabeça, completamente diferente do que se esperava de uma mulher daquela idade.”

NaTelinha: Dercy já teve outras biografias publicadas e uma minissérie sobre sua trajetória produzida pela Globo, em 2012. Qual o diferencial deste livro? O que há de novo em relação a essas produções anteriores?

Adriana Negreiros: Existe uma biografia muito boa da Dercy, que foi feita pela Maria Adelaide Amaral e publicada em 1994. É um relato em primeira pessoa. Essa biografia me serviu muito como roteiro, porque ali era a voz da Dercy, e ajudou a recuperar histórias que ela só tinha contado para a Maria Adelaide. Foi um grande guia, fundamental para o meu trabalho.

O principal diferencial deste novo livro é que não é uma biografia a partir do relato da Dercy. É a minha visão sobre ela, e eu consultei muitas fontes para, inclusive, confrontar aquelas histórias que ela contou. A Dercy fantasiava muito sobre a vida dela, sobre a origem, então fiz uma biografia mais documental, com entrevistas e muita pesquisa nos jornais de época. Muitas das histórias contadas pela Dercy, eu conto, apresentando novos detalhes, inclusive algumas contradições.

Quanto à obra televisiva, aí já se trata também de uma adaptação, também com as suas liberdades poéticas, que são permitidas a uma adaptação dessa natureza. De fato, são produtos muito diferentes.

Dercy Gonçalves
Dercy Gonçalves na novela Deus nos Acuda, exibida em 1992 - Foto: Divulgação/Globo

NaTelinha: Houve algum detalhe sobre a Dercy ou algum episódio da vida da artista que te surpreendeu em particular?

Adriana Negreiros: Quando eu comecei a biografar, a fazer a pesquisa, eu não a conhecia em profundidade. Fiquei muito surpresa ao perceber como a vida dela é eivada de tragédias, a começar pela infância, em que perdeu irmãos, um deles inclusive morto afogado; perdeu a mãe ainda muito jovem; foi criada por um pai muito violento, que batia nela; enfrentou muitas dificuldades como a fome; ao longo da vida, teve uma diversidade de episódios de violência de gênero, violência sexual, violência patrimonial, violência psicológica.

“Essa trajetória da Dercy me surpreendeu, até pela maneira como ela se posicionava publicamente, que não dava a entender, pelo menos não a mim, que ela tivesse enfrentado tantas dificuldades ao longo da vida.”

Também me surpreendeu perceber que, apesar de ter tido tantos sofrimentos, ela nunca se comportou como uma vítima, nunca foi do tipo que falasse coisas como “Vocês não sabem o quanto eu sofri”. Ela sempre teve uma postura muito digna em relação às dificuldades que enfrentou ao longo da vida.

NaTelinha: A biografia não ignora declarações da Dercy hoje consideradas machistas, racistas e homofóbicas. O que essas frases nos dizem sobre a atriz?

Adriana Negreiros: Elas dizem sobre uma mulher do seu tempo. A Dercy, de fato, foi racista, especialmente com o Grande Otelo (1915-1993). Também teve um comportamento que podemos classificar como machista, falas contra feministas. Dizia que as feministas eram umas “babacas” e que as mulheres não deveriam jamais ter uma iniciativa no sexo, que esse era um atributo masculino e que as mulheres deveriam se comportar como damas na intimidade. Era uma mulher também homofóbica e transfóbica, embora os termos não existissem à época.

“Isso revela as contradições da personagem. Tinha um discurso que poderia ser considerado muito conservador e preconceituoso, mas era uma mulher muito transgressora no seu comportamento. Ao longo da vida, contrariou todas as expectativas de gênero que foram depositadas nela. Ao mesmo tempo que agia como uma feminista autêntica, ela criticava o feminismo, o que é muito contraditório.”

Também é preciso compreender que quando a Dercy cometeu esses atos criminosos, essas discussões ainda não estavam latentes na sociedade brasileira como estão hoje. Não estou desculpando a Dercy por isso, mas não podemos olhar para o passado com os olhos de hoje. É um erro tentar ler o passado como se estivéssemos em um outro tempo.

À época em que a Dercy cometeu esses impropérios, essas questões passaram batidas, como também todas as vezes em que ela teve que lidar como vítima. Um exemplo disso foi a entrevista que deu ao Roda Viva em 1987, em que relata ter sido vítima de um estupro com mais de 70 anos. A reação da bancada foi rir, gargalhar do relato dramático dela. Se observamos hoje, é um crime, uma tragédia, algo que nos choca, mas na época era algo considerado absolutamente trivial. É preciso sempre considerar que esses atos, frases e comportamentos têm que ser lidos dentro de um contexto.

NaTelinha: Seus dois outros livros publicados – Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço (2018) e A Vida Nunca Mais Será a Mesma: Cultura da Violência e Estupro no Brasil (2021) – tratam da mulher em contextos de violência. A história de Dercy também pode ser inserida nesse tema?

Adriana Negreiros: Sim, certamente. Infelizmente, quando contamos histórias de mulheres, é muito difícil escapar da violência. Acho que não tem essa possibilidade. Toda mulher enfrenta violência ao longo da vida, seja de que natureza for. As cangaceiras sofreram violência sexual, Dercy sofreu inúmeras vezes violência sexual, eu também sofri violência sexual. Esse acaba por ser um denominador comum aos três livros e às histórias de mulheres.

Dercy Gonçalves
Dercy Gonçalves no programa Fala Dercy, que foi ao ar em 2000 - Foto: Divulgação/SBT

NaTelinha: Ao longo da trajetória, Dercy conheceu a popularidade e também a rejeição, acumulando muitas críticas. Na sua percepção, como os novos tempos reagem a ela? Como ela é vista hoje?

Adriana Negreiros: A Dercy tem feito muito sucesso nas redes sociais pela maneira espontânea como tratava de algumas questões. Hoje, ela é vista como essa mulher irreverente – uma palavra que ela odiava, porque achava que sempre a chamavam assim não a levavam a sério. Também é vista como uma mulher que diz o que pensa, que não age de uma maneira hipócrita, frente a um certo moralismo.

Acho que a Dercy é um antídoto contra a caretice reinante dos nossos tempos, contra esse moralismo aterrorizante que domina a nossa sociedade. Vivemos tempos absolutamente moralistas, conservadores, em vários aspectos da sociedade, tanto à esquerda quanto à direita, e de uma rigidez de comportamento como eu, aos 51 anos, nunca vi.

Todo mundo tem um discurso muito ensaiado. É tudo muito editado, as pessoas falam as mesmas coisas, têm as mesmas opiniões e têm medo de ter uma opinião diferente, de serem canceladas. Falam com as mesmas frases, usam as mesmas palavras, as mesmas expressões, os mesmos clichês. Todo mundo que vai falar de um mesmo tema cita os mesmos autores. É um discurso completamente homogêneo, plastificado. Tudo é muito ensaiado, editado, filtrado.

“A Dercy era o oposto disso. Ela dizia o que vinha à cabeça, era a rainha do improviso no teatro. Especialmente porque, como era uma mulher que tinha pouca instrução, só fez até o terceiro ano do primário e, portanto, não tinha boas capacidades de leitura. Então, nos espetáculos, não decorava os textos exatamente pela incapacidade de lê-los, e inventava frases, cacos.”

Essa espontaneidade era a espontaneidade dela na vida. Então, se alguém fizesse alguma pergunta para ela, ela dizia o que pensava, ainda que isso pudesse muitas vezes ser equivocado. Ela se permitia exercitar o pensamento dela e dizer aquilo que vinha à cabeça dela.

Isso não é uma defesa de frases criminosas e preconceituosas, de forma alguma. É uma defesa de um pensamento livre que se permita, inclusive, questionar padrões vigentes. Nos tempos atuais, a Dercy seria o antídoto contra essa impossibilidade que temos de nos expressarmos de maneira mais livre.

Mais Notícias
Outros Famosos

Enviar notícia por e-mail


Compartilhe com um amigo


Reportar erro


Descreva o problema encontrado