Saúde mental

Pressão, bullying, assédio, sobrecarga de trabalho e metas inatingíveis podem adoecer o funcionário?

Especialista explica e reforça importância das novas normas para a saúde mental no trabalho


Homem com várias mãos sendo apontadas para ele
Pressão, bullying, fofoca, assédio moral, sobrecarga de trabalho e metas inatingíveis podem mesmo adoecer o funcionário?

A saúde mental no trabalho tem se tornado um assunto cada vez mais importante. Para te ser uma ideia, dois episódios recentes envolvendo homens que mataram colegas de trabalho dentro das empresas onde atuavam voltaram a colocar um tema delicado no centro das discussões: até que ponto os ambientes corporativos estão preparados para identificar fatores que colocam em risco a saúde mental dos trabalhadores e dos colegas que estão ao redor?

Mesmo que seja impossível afirmar que crimes dessa natureza tenham como causa um transtorno mental ou, exclusivamente, problemas relacionados ao trabalho, especialistas alertam que ambientes marcados por pressão excessiva, assédio, jornadas abusivas, bullyings e conflitos constantes podem contribuir para o adoecimento psicológico e aumentar situações de sofrimento intenso. Situações extremas, e fora do limite podem levar o trabalhador a reagir contra si e contra os outros.

É justamente para reduzir esses riscos que entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir oficialmente os chamados riscos psicossociais na gestão obrigatória de saúde e segurança das empresas.

Segundo a especialista em gestão estratégica de pessoas e liderança, palestrante e mentora de líderes, Sunamita Fonseca, a mudança representa um novo olhar sobre o ambiente de trabalho. A partir de agora, as empresas precisam identificar fatores que possam comprometer a saúde mental dos funcionários e criar planos de ação para prevenir o adoecimento.

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Cuidar da saúde mental também melhora os resultados

Durante muitos anos, falar sobre saúde mental nas empresas foi tratado como um benefício opcional. Hoje, especialistas defendem que prevenir o adoecimento faz parte da própria estratégia do negócio.

Funcionários que trabalham em ambientes saudáveis tendem a apresentar maior produtividade, menor índice de afastamentos, menos faltas e maior engajamento com a equipe e com a empresa.

Outro ponto importante é não confundir prevenção com benefícios isolados. Promover palestras ou campanhas de conscientização pode ser positivo, mas isso, sozinho, não elimina os fatores que provocam sofrimento psicológico no dia a dia. O objetivo da NR-1 não é obrigar empresas a oferecer terapia aos colaboradores, mas incentivar mudanças na gestão para reduzir situações que favoreçam o adoecimento mental.

Os recentes casos de violência dentro de empresas servem como um alerta para a importância de ambientes mais seguros, respeitosos e atentos aos fatores que podem levar ao sofrimento psicológico. Mais do que cumprir uma obrigação legal, investir na prevenção significa proteger vidas e construir relações de trabalho mais saudáveis para todos.

 A seguir a especialista Sunamita Fonseca explica como funciona a nova NR-1.

O que muda na prática com a NR-1 em relação à saúde mental dos trabalhadores?

A NR1 foi atualizada com a inclusão de Riscos Psicossociais e isso passa a fazer parte da gestão obrigatória dos riscos ocupacionais da empresa. Na prática, a empresa precisa mapear se existe riscos de saúde mental no ambiente de trabalho e criar planos de ações preventivos.

Um ponto importante é entendermos que saúde mental é uma condição do indivíduo. Ela pode ser influenciada por fatores pessoais, familiares, financeiros, saúde e também pelo trabalho.

 A mudança na NR1 cita os fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho.

Quais fatores de risco psicossociais as empresas agora precisam identificar e prevenir?

O Ministério do Trabalho divulgou um guia onde cita alguns desses riscos que as empresas precisam mapear. Entre eles:

  • Jornadas excessivas;

  • Sobrecarga de trabalho;

  • Metas inatingíveis;

  • Excesso de demandas simultâneas;

  • Assédio Moral;

  • Assédio Sexual;

  • Falta de apoio da Liderança;

  • Falta de clareza de papeis.

Mas é importante dizer que dependendo da empresa, tipo de atividade, existem outros riscos que só a empresa fazendo o mapeamento adequado poderá identificar.

Toda empresa precisa se adequar à nova regra ou ela vale apenas para grandes empresas?

A nova regra é válida para todas as empresas independentemente do tamanho e quantidade de funcionários.

Como as empresas podem proteger a saúde mental dos funcionários sem comprometer a produtividade?

Proteger a saúde mental dos funcionários é um dos caminhos mais consistentes para a produtividade. Quando o funcionário está bem, ele produz mais e melhor, falta menos ao trabalho, não se afasta por motivo de atestado e ainda existe uma tendencia de aumentar o seu engajamento.

Quais são os principais erros que as empresas ainda cometem quando o assunto é saúde mental no ambiente de trabalho?

Um erro muito comum é pensar que é responsável pela saúde mental da pessoa em si. E na verdade, a obrigação da empresa é de não causar adoecimento por fatores estressores no ambiente de trabalho.

Outro erro é confundir benefício com prevenção. Muitas empresas investem em palestras pontuais e param por aí. Esse é um bom benefício, mas não resolve a questão dos riscos.

O foco da NR1 não é obrigar as empresas a oferecerem terapia e sim incentivar uma gestão que reduza os fatores que favorecem o adoecimento mental.

Demitir alguém que está com problemas com a saúde mental... É justo?

Depende. Cada situação precisa ser analisada com cuidado. Do ponto de vista legal e ético, uma empresa demitir simplesmente porque o funcionário está enfrentando um problema de saúde mental pode configurar discriminação.

Se houver nexo causal com o ambiente de trabalho, a demissão pode ser contestada judicialmente.

Agora se a empresa sabia que o colaborador estava adoecido, ignorou sinais de sofrimento, manteve um ambiente com assédio, pressão excessiva ou violência psicológica e não ofereceu acolhimento nem buscou reduzir os fatores de risco;

A justiça dessa decisão depende menos da demissão em si e mais da conduta da empresa antes de ela acontecer. Precisa refletir sobre sua responsabilidade ética, de prevenção e gestão.

Por outro lado, também existem situações em que a empresa precisa realizar desligamentos por reestruturação, encerramento de atividades ou outros motivos legítimos. O fato de um colaborador estar em tratamento de saúde mental não torna automaticamente qualquer demissão injusta ou ilegal.  Mas pode demonstrar que a empresa não tem empatia.

Cada caso depende das circunstâncias, da legislação aplicável e da forma como a organização conduziu todo o processo.

“O importante é não ter vergonha de falar no assunto e sempre buscar ajuda.” finaliza a especialista Sunamita Fonseca.

Pressão, bullying, assédio, sobrecarga de trabalho e metas inatingíveis podem adoecer o funcionário?

Sunamita Fonseca é especialista em gestão estratégica de pessoas e liderança, palestrante e mentora de líderes.

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