Xuxa processa empresa por uso de Inteligência artificial com sua voz e imagem
Especialista Pedro Miranda alerta para o perigo da deepfake com IA, que está cada vez mais comum, aprimorada e perigosa
Publicado em 29/07/2026 às 13:23
Xuxa Meneghel não tem sossego. Segundo o colunista Ancelmo Goes, do Jornal O Globo, a apresentadora entrou na Justiça contra a Bagy Soluções de Comércio Digital Ltda. após descobrir que sua imagem e sua voz teriam sido reproduzidas por inteligência artificial em uma campanha publicitária sem sua autorização.
A ação tramita na 4ª Vara Cível da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Segundo os documentos do processo, a apresentadora afirma que a empresa publicou, em seu perfil no Instagram, um vídeo produzido com tecnologia de deepfake, reproduzindo seus traços e sua voz para divulgar ferramentas de inteligência artificial voltadas ao comércio digital.
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A apresentadora teria pedido uma indenização de R$ 100 mil por danos morais, além de uma reparação por danos materiais, cujo valor deverá ser definido no decorrer do processo.
Os advogados de Xuxa também solicitaram à Justiça uma liminar para que a empresa retire imediatamente qualquer conteúdo que utilize a imagem ou a voz da artista. Em caso de descumprimento, foi pedida multa diária de R$ 50 mil.
Até o momento, o pedido de remoção do conteúdo ainda aguarda uma decisão da Justiça.
O caso chama atenção para uma discussão cada vez mais urgente: até onde a inteligência artificial pode chegar quando a imagem, a voz e a identidade de uma pessoa são usadas para vender produtos sem que ela tenha autorizado?
Com a popularização dos chamados deepfakes, celebridades e anônimos podem ter sua aparência e sua voz reproduzidas digitalmente de maneira cada vez mais convincente e, muitas vezes, sem sequer saberem que estão sendo utilizados em campanhas ou conteúdos que nunca aprovaram.
Para entender o que é a deepfake e como ela é utilizada, conversei com consultor de integração de IA em negócios, e especialista em inteligência artificial para marketing em IA, Pedro Miranda, da empresa Glitch.
O que é deepfake?
Deepfake é a inteligência artificial imitando uma pessoa real, em vídeo ou em áudio, fazendo ela dizer ou fazer o que nunca disse nem fez, e de um jeito bom o suficiente para enganar quem está assistindo. A maioria das pessoas imagina que seja uma montagem bem-feita, um photoshop de vídeo, mas montagem é recortar e colar pedaços do que já existe, enquanto no deepfake a máquina gera do zero um rosto e uma voz que nunca estiveram naquela cena.
A inteligência artificial analisa fotos, vídeos e áudios da pessoa, aprende o rosto, o timbre e o jeito de falar, e a partir daí produz qualquer fala nessa identidade emprestada. Poucos anos atrás isso exigia um estúdio de cinema para ficar crível, e hoje cabe num aplicativo gratuito, a ponto de qualquer um conseguir gerar um áudio falso igual a esses que a gente manda no WhatsApp todo dia, com uma qualidade que faz quem escuta acreditar que é real.
E o que me preocupa não é a sofisticação disso, é o preço, porque ficou muito fácil e muito barato.
Como podemos saber se o vídeo é real ou não? Pessoas leigas conseguem saber?
Ainda dá para desconfiar de alguns detalhes, e os que mais funcionam hoje são o rosto que não pisca no ritmo natural, a boca que desencaixa do som em letras como "p" e "b", uma auréola leve na borda do rosto, da boca e do cabelo, a pele lisa demais, sem poro nem ruga, e a luz do rosto que não combina com a luz do ambiente. No áudio, a voz costuma vir sem respiração, sem pausa para pensar e sem nenhum ruído de fundo. Só que a tecnologia vem corrigindo esses defeitos muito rápido, e o melhor exemplo é a piada das mãos com seis dedos, que virou meme porque a IA não conseguia gerar mão direito, e hoje já não acontece mais.
A realidade é que a pessoa leiga consegue cada vez menos, e daqui a pouco não vai conseguir mais, mas antes que isso vire pânico eu prefiro propor outro caminho, porque se identificar a peça vai ficar impossível, conferir o contexto vai continuar dando. Por isso eu sugiro trocar a pergunta: em vez de "esse vídeo parece real?", pergunte "quem ganha se eu acreditar nisso?".
Fazer um deepfake dá trabalho e ninguém faz de graça, sempre tem um interesse do outro lado, uma transferência, um clique, um voto, uma reputação para destruir, e é por isso que quase todo vídeo falso chega com pressa, com uma oferta boa demais ou com uma indignação pronta para você compartilhar. O rosto pode estar perfeito, mas a intenção nunca está.
Como grandes artistas e empresas podem se proteger e não cair nessas armadilhas?
Tem uma parte desconfortável que eu faço questão de dizer para os meus clientes, que é o fato de a matéria-prima desses golpes ser o próprio marketing da empresa. Bastam 20 ou 30 segundos de áudio para clonar uma voz, e esse áudio está no vídeo institucional, na entrevista, no webinar, na apresentação de resultados, então quanto mais a liderança se expõe, e se expor é uma estratégia legítima que funciona, mais material ela entrega.
Sumir da internet não resolve, porque isso custa mais caro que o golpe, e o caminho é parar de tratar rosto e voz como se ainda fossem a maior prova de autenticidade que existe.
A defesa que funciona começa por tratar a urgência como suspeita, e não como prioridade. Nenhuma ordem se confirma no mesmo canal em que chegou, e sim ligando para o número que já está no cadastro interno, nunca para o que apareceu na tela. Acima de um determinado valor, nenhuma transferência é aprovada por uma pessoa só, e quem pede não pode ser quem aprova. Autorização financeira não se fecha dentro de uma videochamada. É isso que eu levo para as empresas: o deepfake só consegue copiar o que é público, então a defesa precisa morar no que é privado, no combinado interno e na regra de que dinheiro nenhum sai sem seguir o protocolo, sem exceção de última hora e sem "dessa vez pode".
Você acha que a IA muda todos os dias para que esteja cada vez mais real?
Muda com toda certeza, mas não exatamente pelo motivo que a pergunta sugere, porque o realismo já foi resolvido e essa corrida terminou. A gente saiu de cerca de 500 mil deepfakes circulando na internet em 2023 para algo perto de 8 milhões em 2025, e a clonagem de voz já passou do ponto em que o ouvido humano consegue diferenciar. O que evolui todo dia agora é outra coisa, que é velocidade, custo e interatividade.
E tem uma coisa que é difícil de admitir para quem trabalha com inteligência artificial, mas eu digo: a corrida de identificar o falso olhando para o conteúdo está perdida, porque não existe olho humano, e cada vez menos existe software, que acompanhe essa velocidade. Então a defesa precisa ir para o caminho oposto, que é provar o verdadeiro em vez de caçar o falso, e isso já está sendo construído com assinatura digital e selo de origem dentro do próprio arquivo, em padrões como o C2PA, que registram de onde veio aquele conteúdo e quem responde por ele. Nos próximos anos a pergunta que vai importar deixa de ser "isso é falso?" e passa a ser "quem assina isso?", porque autenticidade vai virar uma coisa que se comprova.
“Enquanto o selo de origem não estiver dentro de cada arquivo, quem verifica de verdade é você, conferindo de onde aquilo veio, porque nenhum site faz isso no seu lugar.”, pontua o especialista.
Existe algum site que podemos verificar se é real ou não?
Existem sim, e eu cito três: Hive Moderation, Sensity e o Deepfake-o-Meter, esse último gratuito e mantido pelo laboratório de perícia digital da Universidade de Buffalo. Mas eu preciso ser honesto, eles não resolvem o problema, porque nenhum deles dá veredito, todos dão probabilidade, e a precisão que mostram em laboratório cai quase pela metade no mundo real. O risco maior está aí, já que um "provavelmente autêntico" errado é pior do que não ter consultado nada, porque a pessoa baixa a guarda com o aval da máquina.
Pedro Miranda também faz um grande alerta:
Detector nenhum responde se aquilo é verdade, ele responde se aquilo parece ter sido gerado por máquina, que é outra coisa. Um vídeo pode ser cem por cento autêntico e estar mentindo, tirado de contexto, de outro país ou de outro ano, e no Brasil esse tipo de manipulação ainda engana muito mais gente do que deepfake.
Então, na prática, o que funciona para qualquer pessoa é rastrear a origem, jogando um print no Google Lens para descobrir onde aquilo apareceu primeiro, vendo se algum veículo de imprensa noticiou, porque uma bomba que só existe num post de rede social quase sempre é falsa, e consultando as agências de checagem brasileiras, como Aos Fatos, Lupa e Projeto Comprova, que costumam desmentir os golpes mais virais em poucas horas.
“Infelizmente , os famosos estão muito á mercê desse tipo de situação, assim como aconteceu com a Xuxa” finaliza Pedro Miranda.

Pedro Miranda - Consultor de integração de IA em negócios, e especialista em inteligência artificial para marketing em IA da empresa Glitch