O último voo da nave da Xuxa: por que uma virilha cavada incomoda tanto?
Após espetáculo de Xuxa, temos uma nova profissão: fiscal de virilha
Publicado em 27/07/2026 às 18:50
Xuxa subiu ao palco em São Paulo no último sábado (25) e, aos 63 anos, deu um show de vitalidade. Cantou, dançou, pulou, se emocionou e entregou energia de sobra para uma multidão de adultos que voltaram no tempo.
O Nu Parque (antigo Allianz Parque), na zona oeste da capital, virou uma enorme pista de dança tomada por pessoas cantando, chorando e revivendo memórias afetivas que só quem estava lá é capaz de mensurar. Mas, para algumas pessoas, a magia do reencontro não importou. O que realmente incomodou foi a roupa e, principalmente, a idade da artista.
No dia seguinte á apresentação, as redes sociais foram tomadas por uma onda de julgamentos promovida por pessoas que sequer estavam no estádio. O foco virou a "virilha cavada", o maiô fio-dental e o figurino tecnológico, elementos que, aliás, ela sempre usou ao longo de toda a carreira.
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A magia do show esperadíssimo pelos "baixinhos" que cresceram acabou ficando em segundo plano, sufocada por uma fiscalização descabida e exagerada e que me fez pensar: agora existe fiscal de virilha também? Era só o que faltava.
E o que torna tudo isso ainda mais triste e doloroso é perceber que a maior parte dessas críticas vem de outras mulheres. Em vez de empatia e celebração da liberdade feminina, o que se vê é uma enxurrada de julgamentos cruéis, machistas e que parecem vir direto dos anos 1930.
Por trás dessa indignação toda com o figurino, existe uma camada pesada de etarismo: o preconceito velado (e por vezes escancarado) contra a mulher madura. A sociedade tolera o envelhecimento masculino com louvor, mas pune a mulher que recusa o papel de "senhora discreta".
Convenhamos: Xuxa não estava em uma cerimônia religiosa ou num ambiente com código de vestimenta estrito. Ela estava no palco de um estádio, em um show pensado e produzido exclusivamente para o seu público adulto.
Aos 63 anos, ela continua sendo dona do próprio corpo, da própria carreira e de suas escolhas. Exibiu uma forma física e uma disposição impressionantes, fruto de disciplina e cuidados, que deixam muita gente de 30 anos no chinelo. Essa é a verdade.
Dois Pesos e Duas Medidas
O contraste é gritante. Quando um homem aparece sem camisa no palco, com figurinos ousados ou exibindo o corpo, é aclamado como "autêntico", "sexy" e "moderno".
Quantos artistas homens, inclusive mais velhos, já vimos fazendo apresentações arrumando confusão, bêbados ou proferindo absurdos machistas, para depois serem tratados como "irreverentes" e "sem papas na língua"? Para eles, tudo é relativo e justificável.
Quando é uma mulher madura, o corpo passa a ser tratado como propriedade pública. A "patrulha dos bons modos e dos bons costumes" é extremamente seletiva: passa pano para assédio, traição e preconceito, mas desde que esses estejam alinhados aos seus pensamentos e escolhas políticas, mas encontra tempo de sobra para militar contra a virilha alheia.
Muitos tentaram justificar os ataques alegando que partes íntimas da cantora teriam aparecido em alguns momentos da apresentação, e que isso seria um absurdo. Mas precisamos entender que incidentes com figurino acontecem em desfiles de escola de samba, bailes de gala e até em vestidos de noiva. Acontece.
Mas garanto: para quem estava lá vivendo a emoção do show, isso passou completamente batido. O público queria apenas mergulhar na nostalgia que só a Rainha dos Baixinhos é capaz de entregar.
E isso, para algumas pessoas, parece ser muito mais difícil de engolir do que qualquer virilha aparecendo. Querem engajamento, querem impor limites e regras, e querem polemizar algo que não faz sentido algum para quem ama a Rainha dos “baixinhos crescidos" que sempre estarão ao lado da musa.
A questão nunca foi o fio-dental ou a virilha cavada. O que realmente acontece é o etarismo e a estrutura machista em ver uma mulher de 63 anos dona de si, desejada, admirada, lotando estádios e, acima de tudo, não pedindo licença a ninguém para existir.
Vida longa, Xuxa, e muitos shows lotados!