Xuxa

O último voo da nave da Xuxa: por que uma virilha cavada incomoda tanto?

Após espetáculo de Xuxa, temos uma nova profissão: fiscal de virilha


Após espetáculo de Xuxa, temos uma nova profissão: fiscal de virilha
O último voo da nave da Xuxa: por que uma virilha cavada incomoda tanto?

Xuxa subiu ao palco em São Paulo no último sábado (25) e, aos 63 anos, deu um show de vitalidade. Cantou, dançou, pulou, se emocionou e entregou energia de sobra para uma multidão de adultos que voltaram no tempo.

O Nu Parque (antigo Allianz Parque), na zona oeste da capital, virou uma enorme pista de dança tomada por pessoas cantando, chorando e revivendo memórias afetivas que só quem estava lá é capaz de mensurar. Mas, para algumas pessoas, a magia do reencontro não importou. O que realmente incomodou foi a roupa e, principalmente, a idade da artista.

No dia seguinte á  apresentação, as redes sociais foram tomadas por uma onda de julgamentos promovida por pessoas que sequer estavam no estádio. O foco virou a "virilha cavada", o maiô fio-dental e o figurino tecnológico, elementos que, aliás, ela sempre usou ao longo de toda a carreira.

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A magia do show esperadíssimo pelos "baixinhos" que cresceram acabou ficando em segundo plano, sufocada por uma fiscalização descabida e exagerada  e  que me fez pensar: agora existe  fiscal de virilha também? Era só o que faltava.

E o que torna tudo isso ainda mais triste e doloroso é perceber que a maior parte dessas críticas vem de outras mulheres. Em vez de empatia e celebração da liberdade feminina, o que se vê é uma enxurrada de julgamentos cruéis, machistas e que parecem vir direto dos anos 1930.

Por trás dessa indignação toda com o figurino, existe uma camada pesada de etarismo: o preconceito velado (e por vezes escancarado) contra a mulher madura. A sociedade tolera o envelhecimento masculino com louvor, mas pune a mulher que recusa o papel de "senhora discreta".

Convenhamos: Xuxa não estava em uma cerimônia religiosa ou num ambiente com código de vestimenta estrito. Ela estava no palco de um estádio, em um show pensado e produzido exclusivamente para o seu público adulto.

Aos 63 anos, ela continua sendo dona do próprio corpo, da própria carreira e de suas escolhas. Exibiu uma forma física e uma disposição impressionantes, fruto de disciplina e cuidados, que deixam muita gente de 30 anos no chinelo. Essa é a verdade.

 Dois Pesos e Duas Medidas

O contraste é gritante. Quando um homem aparece sem camisa no palco, com figurinos ousados ou exibindo o corpo, é aclamado como "autêntico", "sexy" e "moderno".

Quantos artistas homens, inclusive mais velhos, já vimos fazendo apresentações arrumando confusão, bêbados ou proferindo absurdos machistas, para depois serem tratados como "irreverentes" e "sem papas na língua"? Para eles, tudo é relativo e justificável. 

Quando é uma mulher madura, o corpo passa a ser tratado como propriedade pública. A "patrulha dos bons modos e dos bons costumes" é extremamente seletiva: passa pano para assédio, traição e preconceito, mas desde que esses estejam alinhados aos seus pensamentos e escolhas políticas, mas encontra tempo de sobra para militar contra a virilha alheia.

Muitos tentaram justificar os ataques alegando que partes íntimas da cantora teriam aparecido em alguns momentos da apresentação, e que isso seria um absurdo. Mas precisamos entender que incidentes com figurino acontecem em desfiles de escola de samba, bailes de gala e até em vestidos de noiva. Acontece.

Mas garanto: para quem estava lá vivendo a emoção do show, isso passou completamente batido. O público queria apenas mergulhar na nostalgia que só a Rainha dos Baixinhos é capaz de entregar.

E isso, para algumas pessoas, parece ser muito mais difícil de engolir do que qualquer virilha aparecendo. Querem engajamento, querem impor limites e regras, e querem polemizar algo que não faz sentido algum para quem ama a Rainha dos “baixinhos crescidos" que sempre estarão ao lado da musa.

A questão nunca foi o fio-dental ou a virilha cavada. O que realmente acontece é o etarismo e a estrutura machista em ver uma mulher de 63 anos dona de si, desejada, admirada, lotando estádios e, acima de tudo, não pedindo licença a ninguém para existir.

Vida longa, Xuxa, e muitos shows lotados!

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