PMMA: O sonho do bumbum grande e bonito que pode custar a sua vida
Os perigos do preenchimento estético definitivo que preocupa médicos e Anvisa
Publicado em 27/05/2026 às 19:01,
atualizado em 28/05/2026 às 10:03
Durante anos, o PMMA foi vendido como milagre estético. Um produto “definitivo”, capaz de aumentar glúteos, corrigir imperfeições e transformar corpos sem cirurgia. Nas redes sociais, promessas de resultados rápidos ajudaram a banalizar um procedimento que, na prática, pode causar deformidades irreversíveis, necrose, infecções graves e até morte. O problema é que muita gente ainda não sabe exatamente o que está sendo injetado no próprio corpo.
PMMA é a sigla para polimetilmetacrilato, uma substância plástica, não absorvível pelo organismo. Diferente do ácido hialurônico, que o corpo metaboliza com o tempo, o PMMA permanece no organismo permanentemente. E é justamente aí que mora o perigo.
A substância foi criada para usos médicos específicos e reconstrutivos.
No Brasil, a Anvisa reforça que o produto não foi aprovado para uso estético indiscriminado, principalmente em grandes volumes. Ainda assim, o mercado paralelo da estética transformou o PMMA em uma febre silenciosa.
O caso mais recente que mostra o perigo dessa substância aconteceu ontem, terça-feira (26). A maquiadora Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, morreu depois que a médica afirmou ter aplicado cerca de 100 seringas de PMMA no procedimento estético nos glúteos e na parte posterior das coxas de Roseli. A maquiadora viajou do MS até São Paulo para realizar o procedimento.
Alerta
O alerta ficou tão grave que o Conselho Federal de Medicina solicitou à Anvisa a proibição do uso do PMMA no Brasil como preenchimento estético. Segundo o órgão, as complicações relacionadas à substância se tornaram frequentes e preocupantes.
Entre os riscos documentados estão:
necrose de tecidos
infecções severas
deformidades permanentes
embolia
insuficiência renal
reações inflamatórias crônicas
migração do produto pelo corpo
formação de granulomas
e casos extremos envolvendo perda de visão e mortes associadas a complicações.
O mais assustador é que muitas complicações aparecem anos depois da aplicação. Há pacientes que passaram quase uma década sem sintomas e, de repente, começaram a apresentar dores, endurecimento da região, inflamações e deformações graves.
Especialistas explicam que remover PMMA do corpo é extremamente difícil. Em muitos casos, impossível. Isso porque o produto se mistura aos tecidos, músculos e estruturas internas. Algumas cirurgias acabam retirando partes do tecido comprometido, deixando sequelas físicas e emocionais profundas.
A própria Anvisa afirma que o uso do PMMA fora das indicações aprovadas aumenta significativamente os riscos. O órgão também admite preocupação com a subnotificação de eventos adversos, ou seja: os casos reais podem ser ainda maiores do que os oficialmente registrados.
O PMMA tem indicações médicas e em casos específicos
É bom lembrar que o PMMA pode ser utilizado em pequenas quantidades e em indicações médicas específicas autorizadas, principalmente, em procedimentos reparadores e reconstrutivos. Entre os usos médicos já relatados estão correções de pequenas assimetrias, reconstruções faciais e tratamentos reparadores. Como em pacientes do AIDS para tratar da lipoatrofia facial (perda de gordura) causada pelos antirretrovirais. Aliás, esse tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS.
Todo cuidado é pouco
Mesmo diante de tantos alertas, clínicas clandestinas continuam oferecendo aplicações em glúteos, pernas e rosto como se fossem procedimentos simples. Muitas vezes sem estrutura médica adequada, sem acompanhamento e sem qualquer preparo para lidar com emergências. E em muitos casos, até médicos de clínicas famosas também oferecem e utilizam o PMMA de forma meio enrustida. É só percorrer as redes sociais que as ofertas aparecem.
Outro ponto importante: preço baixo nunca pode ser critério quando o assunto é procedimento invasivo. Muitas vítimas relatam que escolheram o PMMA por ser mais barato que alternativas consideradas mais seguras. O barato, em alguns casos, virou internação, múltiplas cirurgias e tratamento para o resto da vida.
A estética moderna criou uma pressão silenciosa por corpos “perfeitos”. Só que perfeição vendida em seringa pode esconder riscos irreversíveis e nenhum procedimento vale pôr em risco a saúde.
E sabe o que é pior? Mesmo diante dos inúmeros alertas médicos e das graves consequências envolvendo o uso inadequado do PMMA, muitas pessoas ainda minimizam os riscos da substância e continuam buscando procedimentos para aumentar o bumbum e outras regiões do corpo. A alta procura por clínicas e aplicações clandestinas torna a fiscalização ainda mais difícil e acende um alerta preocupante para a saúde pública pois, para muitos a única coisa que realmente importa é ter o bumbum grande, bonito e na nuca.
A pergunta é: vale a pena correr o risco? Uma página no Instagram que se chama Vítimas da Bioplastia diz que não e mostra inúmeros resultados negativos do uso indevido do PMMA. Vale a pena consultar a página.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica emitiu uma nota. Veja na íntegra:
SBCP reforça posição contrária ao PMMA
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica afirma que não recomenda o uso da substância em nenhuma circunstância e ressalta preocupações relacionadas à segurança e às complicações graves associadas ao produto
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) reforçou seu posicionamento contrário ao uso do polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos estéticos e reconstrutores. “A SBCP não recomenda o uso do PMMA por cirurgiões plásticos em nenhuma circunstância”, destaca a entidade. Segundo a sociedade médica, o posicionamento é sustentado por preocupações relacionadas à segurança dos pacientes, à gravidade das possíveis complicações e à falta de evidências científicas robustas que sustentem o uso estético da substância.
A SBCP afirma ainda que já se manifestou formalmente junto à ANVISA defendendo o banimento do PMMA e reforça que a manutenção das indicações atualmente aprovadas no Brasil contraria o entendimento técnico da especialidade.
O tema também está em debate na Câmara dos Deputados. A SBCP informa que foi consultada pela relatora do Projeto de Lei nº 403/2021, que estringe a venda e o uso do polimetilmetacrilato para a realização de procedimentos estéticos, e contribuiu com uma Nota Técnica destacando preocupações relacionadas à segurança, às complicações graves associadas ao PMMA e à necessidade de maior rigor regulatório.
A SBCP orienta seus membros a não utilizarem a substância, independentemente da quantidade ou da indicação, reafirmando seu compromisso com a segurança dos pacientes e com uma medicina baseada em evidências. A entidade destaca que o aumento dos relatos de complicações graves envolvendo procedimentos estéticos torna urgente ampliar o debate sobre segurança, fiscalização e informação à população.
Sobre a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) é uma das maiores associações mundiais da especialidade. Fundada em 1948, é o órgão oficial da Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina a conferir o título de especialista em cirurgia plástica.
SBCP é uma associação civil sem fins lucrativos, de caráter científico e âmbito nacional, que tem como missão zelar pelo renome e conceito da cirurgia plástica no Brasil, bem como contribuir para o seu progresso, promovendo o aperfeiçoamento dos conhecimentos especializados e incentivando a formação de especialistas.