Caneta emagrecedora? Só com orientação médica
Anvisa barra “canetas emagrecedoras”: o que essa decisão significa, e o quais os riscos reais do uso de medicamentos falsificados
Publicado em 22/01/2026 às 13:49,
atualizado em 22/01/2026 às 14:52
A recente decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a circulação, comercialização, importação e divulgação de canetas injetáveis contendo tirzepatida de procedência irregular, reacende um alerta importante: o crescimento do mercado paralelo de medicamentos e os riscos silenciosos da falsificação na área da saúde.
Popularizadas nas redes sociais como “canetas emagrecedoras”, essas substâncias passaram a ser vendidas de forma informal, muitas vezes associadas a promessas rápidas de perda de peso, sem prescrição médica, sem controle sanitário e fora dos padrões legais exigidos no Brasil e, infelizmente há muita falsificação sendo vendida livremente na internet.
Conversei com a nutróloga do HC-U|SP, Dra. Ana Luísa Vilela, que explicou os perigos da automedicação e porque a Anvisa tomou essa decisão.
Por que a Anvisa tomou essa decisão?
A Anvisa atua para garantir que qualquer medicamento comercializado no país tenha qualidade, segurança, eficácia comprovada e rastreabilidade. No caso das chamadas “canetas do Paraguai”, o problema não é apenas o princípio ativo em si, mas todo o processo que envolve fabricação, armazenamento, transporte e aplicação.
Esses produtos:
- Não possuem registro sanitário válido;
- Não têm garantia de concentração correta da substância;
- Não seguem boas práticas de fabricação;
- Não oferecem controle de esterilidade;
- Não permitem ser rastreados em caso de eventos adversos. Em outras palavras: o paciente não sabe o que está aplicando no próprio corpo.
Falsificação de medicamentos: um risco que vai além do emagrecimento
O uso de medicamentos falsificados ou de procedência desconhecida pode causar consequências graves, incluindo:
- Reações adversas imprevisíveis;
- Infecções no local da aplicação;
- Alterações metabólicas importantes;
- Sobrecarga hepática e renal;
- Falhas terapêuticas ou efeitos tóxicos;
- Risco aumentado de complicações cardiovasculares.
“No caso específico de hormônios e medicamentos que atuam no eixo metabólico, como agonistas de GLP-1 e GIP, o perigo é ainda maior, pois estamos falando de substâncias que interferem diretamente na saciedade, na glicemia, no esvaziamento gástrico e no metabolismo energético”, explica Dra. Ana Luísa Vilela.
O problema não é o tratamento, é a falta de controle
É importante deixar claro: a medicina moderna dispõe, sim, de tratamentos eficazes e seguros para obesidade, quando utilizados com indicação correta, prescrição médica e acompanhamento adequado. E é o caso das canetas emagrecedoras também.
O que preocupa é a banalização desses recursos, impulsionada por redes sociais, marketing agressivo e pela falsa ideia de que “se está funcionando para alguém, é seguro para todos”.
A médica ainda enfatiza e faz um alerta: “Não existe medicamento milagroso. Existe tratamento individualizado, baseado em avaliação clínica, exames laboratoriais, histórico do paciente e acompanhamento contínuo.”
Saúde não é produto de internet
A decisão da Anvisa deve ser vista como uma medida de proteção à saúde pública, e não como um entrave ao avanço da medicina. Medicamentos não são cosméticos, não são suplementos e não podem ser tratados como mercadoria comum.
Quando um paciente opta por produtos ilegais, ele não está apenas assumindo um risco individual, mas também alimentando um mercado que fragiliza todo o sistema de saúde, dificulta a fiscalização e expõe milhares de pessoas a danos evitáveis.
O papel da informação de qualidade
Mais do que proibir, é fundamental informar e educar. O paciente precisa entender que:
- Nem tudo que viraliza é seguro;
- A procedência importa;
- A prescrição médica é proteção, não burocracia;
- Emagrecimento sustentável envolve saúde metabólica, não atalhos.
"Em tempos de excesso de informação, o verdadeiro luxo é a segurança", finaliza Dra. Ana Luísa Vilela.

Médica Nutróloga | HC-USP
Especialista em Sarcopenia, disbiose, fadiga, alterações metabólicas e emagrecimento complexo.