Saiba se você é vítima de abuso narcisista
Especialista explica o que é abuso narcisista e como você pode se libertar dele
Publicado em 16/07/2025 às 19:00
Vivemos em uma era de crescente fragilidade emocional, onde termos como "relacionamento tóxico" ou "abuso psicológico" são usados sem critério. Mas o abuso narcisista é real, meticuloso e destrutivo.
De acordo com o médico e terapeuta João Borzino não se trata de brigas comuns ou personalidades difíceis, estamos falando de um padrão de manipulação emocional crônico, que visa desestabilizar, controlar e dominar a vítima, muitas vezes de forma invisível.
"Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o Transtorno de Personalidade Narcisista envolve um padrão persistente de grandiosidade, necessidade de admiração excessiva e ausência de empatia. Em termos simples: o narcisista usa os outros como instrumentos emocionais para manter sua autoestima inflada, e descarta-os quando já não são mais úteis", esclarece o médico.
Segundo Borzino, estudos da Elsevier e da Lancet Psychiatry mostram que, embora o diagnóstico clínico ocorra em cerca de 1% da população, traços narcísicos subclínicos como frieza, controle emocional e manipulação são muito mais comuns e frequentemente mascarados por carisma ou afeto inicial.
Como o abuso narcisista acontece?
João Borzino afirma que abuso segue um padrão quase matemático, descrito com consistência em pesquisas da American Journal of Psychiatry e da SciELO:
- Idealização – No início, o abusador parece perfeito. É carinhoso, atencioso, envolvente. Você sente que encontrou sua "alma gêmea".
- Desvalorização – Gradualmente, surgem as críticas veladas, os jogos mentais, a inversão de culpa. Você começa a duvidar de si mesmo.
- Gaslighting – Esse é o ponto central do abuso narcisista. O termo vem de uma peça de teatro dos anos 30, onde um marido manipulava a esposa ao ponto de fazê-la acreditar que estava ficando louca. Hoje, gaslighting descreve exatamente isso: quando o abusador distorce fatos, nega acontecimentos ou reescreve narrativas para desestabilizar a percepção da vítima.
- Descarte e retorno cíclico – Quando a vítima já está emocionalmente vulnerável, o narcisista se afasta, troca de parceiro ou desaparece. E, muitas vezes, retorna com gestos grandiosos, o chamado “hoovering”, sugando a vítima de volta com promessas falsas e manipulações emocionais. O ciclo recomeça.
Frases típicas de gaslighting: "Você está exagerando de novo"; "Eu nunca disse isso"; "Você está ficando paranoico(a)"; "Vocé é louca" e etc... A vítima começa a duvidar da própria memória, das próprias emoções e até da própria sanidade. A autoestima vai sendo corroída até restar apenas confusão e dependência emocional.
O caso explosivo de Johnny Depp e Amber Heard revelou ao mundo o perfil clássico de uma relação marcada por abuso emocional mútuo, com forte presença de comportamentos narcísicos e gaslighting. As gravações mostraram manipulação verbal, inversões de culpa e tentativas explícitas de desestabilização emocional.
No Brasil, Ana Hickmann e Simony revelaram relações marcadas por controle, silenciamento e distorção emocional. Essas histórias mostram que ninguém está imune ao abuso narcisista, nem quem tem fama, nem quem tem força.
O médico listou como se proteger:
- Aprenda a identificar o gaslighting - Sempre que alguém te faz duvidar da sua percepção repetidamente, ligue o alerta. Não ignore o desconforto interno.
- Estabeleça limites firmes – Narcisistas se alimentam de pessoas que têm dificuldade de dizer “não”. Se você tem um histórico de agradar demais, trabalhar isso é fundamental.
- Recorra ao registro objetivo – Mantenha anotações, prints, registros. Gaslighting só funciona se a realidade da vítima estiver vulnerável à negação.
- Reconstrua sua rede de apoio – Narcisistas isolam suas vítimas. Reconectar-se com amigos, familiares e terapeutas confiáveis é um passo de libertação.
As vítimas de abuso narcisista compartilham um traço: têm histórico de negligência emocional, necessidade de validação, baixa auto percepção e baixa autoestima. Isso não é culpa da vítima, mas é um convite à consciência, segundo o terapeuta. "Se você reconhece esses padrões em sua história, isso não te enfraquece mas sim te dá poder para transformar".
"Você não vence um narcisista tentando mudá-lo. Ele se alimenta da sua esperança e da sua dúvida. A vitória começa quando você se recusa a ser manipulado(a), quando diz “chega” e aprende a validar sua própria percepção.
Porque, no fim das contas, a maior armadilha do gaslighting não é fazer você acreditar no abusador. É fazer você deixar de acreditar em si mesmo.
"Recupere sua visão. Reescreva sua história. E nunca mais aceite viver num roteiro que não foi você quem escreveu", finaliza o médico e terapeuta.

Dr. João Borzino