Crítica

Rainha da Sucata: Fracasso de audiência na reprise não tira os méritos da novela

Rejeitada pelo público de hoje, trama não perde o status de um dos maiores clássicos da TV


Glória Menezes e Regina Duarte em Rainha da Sucata; novela chega ao fim no Vale a Pena Ver de Novo, na Globo
Atuações de Glória Menezes (Laurinha Figueroa) e Regina Duarte (Maria do Carmo) sustentam Rainha da Sucata do início ao fim - Foto: Divulgação/Globo
Por Walter Felix

Publicado em 02/04/2026 às 04:05,
atualizado em 02/04/2026 às 17:25

A baixa audiência da reprise de Rainha da Sucata, que chega ao fim nesta semana no Vale a Pena Ver de Novo, não tira os méritos da novela. Exibida pela primeira vez em 1990, a trama não conquistou o público de hoje, o que não a faz perder o status de um dos maiores clássicos da história da TV.

Alguns fatores podem explicar o fato de Rainha da Sucata não ter agradado a audiência de 2025/2026. O principal parece ser o humor próximo ao da comédia “pastelão”, farsesca e com referências às pornochanchadas, populares nos anos 1970 e que moldaram toda a obra do autor Silvio de Abreu.

Grotesca, imoral, sem nexo: Rainha da Sucata foi detonada na imprensa em 1990

Para alguns, a novela “envelheceu” mal, ao contrário de Tieta (1989), por exemplo. Reprisada com sucesso entre 2024 e 2025, a trama baseada na obra de Jorge Amado (1912-2001) também é bastante calcada no humor, mas com um tom diferente, de sátira de costumes e realismo fantástico.

A crítica social é o que aproxima as duas novelas, aparentemente tão distintas. Se Tieta provocava falsos moralistas, Rainha da Sucata cutuca preconceitos de classe por meio do paralelo entre uma nova rica, Maria do Carmo (Regina Duarte), e uma grã-fina falida, Laurinha Figueroa (Glória Menezes).

O estranhamento que causa hoje sinaliza que a novela talvez tenha sido um produto muito próprio de seu tempo. Afinal, retratou com êxito o Brasil do início dos anos 1990 e a dinâmica social daquele tempo, conturbado com o Plano Collor – que inclusive impactou o desenvolvimento da história.

A dualidade é o ponto de partida de um história cujo início, essencialmente cômico, dá lugar a um desenrolar que flerta com o dramalhão – que agradou e impulsionou índices em 1990, mas não foi capaz de atrair o mesmo interesse na reprise, apesar do ligeiro crescimento na audiência nas últimas semanas.

Não só a comédia, mas também o dramalhão de Rainha da Sucata pode soar antiquado – mesmo para a audiência que curtiu a reapresentação de A Viagem (1994). Não se trata de um demérito, mas de um estilo próprio da parceria entre Abreu e o diretor Jorge Fernando (1955-2019).

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Há um eficiente apelo melodramático em entrechos como o da madrasta apaixonada pelo enteado ou da mulher que compra o homem que ama culminam no ousado epílogo da vilã se matando para incriminar a heroína – auge da trama e uma cena antológica em novelas da Globo.

As atuações de Glória Menezes e Regina Duarte sustentam a novela. Uma, perfeita do início ao fim, de perua esnobe a vilã enlouquecida; outra, com seu bem-vindo exagero. Há ainda a irrepreensível Aracy Balabanian (1940-2023) como Dona Armênia.

Rainha da Sucata foi bem-sucedida em sua época, o que não pode ser desconsiderado. Na reapresentação não alcançou o mesmo resultado de Tieta e A Viagem, é fato, mas isso não anula suas qualidades. Trata-se de uma produção distinta que, à sua maneira, também preserva um valor artístico atemporal.

Veja o ranking de audiência do Vale a Pena Ver de Novo desde 2020:

Êta Mundo Bom! - 21,4
Laços de Família - 18,7
O Rei do Gado - 17,1
A Viagem - 16,8
Alma Gêmea - 16,8
Tieta - 15,8
A Favorita - 15,6
O Clone - 15,4
Mulheres Apaixonadas - 14,9
Ti Ti Ti - 14,5
Paraíso Tropical - 13,1
Rainha da Sucata - 13,0 (até o momento)

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