Opinião

Atuação da Semana: Isabel Teixeira embarca na loucura e cria vilã canastrona e icônica

Isabel Teixeira vem dando aula de como construir uma vilã canastrona com qualidade


Isabel Teixeira como Pilar em Quem Ama Cuida
Pilar faz Isabel Teixeira brilhar em Quem Ama Cuida - Foto: Reprodução/Globo

Quando uma novela carrega tanto nas tintas a personagem que mais tem risco de cair no exagero desnecessário é sempre a vilã. Em Quem Ama Cuida, tanto os autores quanto a direção artística optaram por um universo em que o dramalhão não é construído com sutileza, mas com forte carga. Diante disso, Isabel Teixeira tinha um risco grande de errar a mão ao compor sua Pilar, mas não é o que está acontecendo, na verdade o que se vê é uma aula de composição.

São inúmeras as vilãs escrachadas e exageradas na história das novelas brasileiras, mas em boa parte, as atrizes acabam errando a voltagem e compõem personagens que, mesmo divertidas, não carregam verossimilhança e acabam com pouca ou nenhuma qualidade dramatúrgica. Este era o exato risco de Pilar, até porque, Amora Mautner, diretora artística de Quem Ama Cuida, não mostrou qualquer pudor em pesar a mão na composição de todo o elenco, entrando no universo de Walcyr Carrasco com cores tão fortes que quase não sobra espaço para a narrativa.

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A opção é arriscada, mas planejada para entregar uma estética em que o telespectador não tem tempo de se preocupar com o avanço da história, uma vez que em toda sequência algum personagem está em estado de emoções à flor da pele. Não existe naturalismo ou qualquer espaço para olhares e sutilezas. Tudo é cru, ampliado por uma lupa e transformado em hipérboles constantes. Não à toa, parte do elenco ainda não sabe como contar essa história.

Não é o caso de Isabel Teixeira. A atriz entendeu muito rapidamente a opção da direção e, diante da estética, conseguiu ler o texto de Walcyr e Claudia Souto com mais liberdade. Com experiência de duas vilãs consecutivas na TV, no remake de Elas por Elas (2023) e Volta por Cima (2024), ela apostou numa criação que mais parecia uma vilã de novela mexicana, cheia de arroubos, caras, bocas, gritos e movimentos corporais constantes.

Pilar nunca está parada em cena. Sempre se movimentando, seja por passos largos e firmes, seja pelos braços em rotações para distrair quem assiste ou mesmo com explosões vocais que não são comum em novelas. Tudo milimetricamente pensado pela atriz para entregar uma vilã como ela foi planejada pelos autores: canastrona.

A palavra, embora sofra com relativo preconceito, não é necessariamente uma crítica. A vilã só funciona neste universo se for canastrona, visto que é extremamente passional, inconsequente e, por vezes, incompetente. Uma típica personagem malvada de histórias em quadrinhos.

Nos capítulos mais recentes, houve duas sequências que mostraram como a atriz é a dona da novela até aqui. A primeira é a dança macabra na mansão, agora ocupada por ela, enquanto um atentado era produzido. Por outro lado, ao ser agredida por Silvana (Belize Pombal), numa troca de ofensas das mais rasteiras. O texto era difícil de ser declamado de modo que transmitisse verdade, mas ambas conseguiram.

Isabel Teixeira sabe que tem uma vilã com potencial para se transformar em icônica, mas para isso precisa seguir uma máxima neste tipo de trabalho: quanto mais se despir da vaidade artística de personagens complexos e embarcar na canastrice, maiores as chances de dar certo.

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