Opinião

Atuação da Semana: Duda Santos convence e se valoriza em A Nobreza do Amor

O trabalho minucioso de Duda Santos chama a atenção


Duda Santos como Alika/Lúcia em A Nobreza do Amor
Duda Santos impressiona em A Nobreza do Amor - Foto: Reprodução/Globo

Para uma novela funcionar a contento é preciso uma série de elementos, que nem sempre conseguem convergir para um mesmo lugar. Este início de A Nobreza do Amor anima justamente porque tudo se encaixa com naturalidade e parece pronto para entregar um grande resultado. Um dos pontos altos é o elenco, encabeçado por Duda Santos (Alika/Lúcia), que vem mostrando uma surpreendente maturidade para uma personagem deste quilate.

A atriz já havia sido experimentada em seu trabalho anterior, também como protagonista na faixa, em A Garota do Momento (2024). Embora a trama anterior seja muito boa, sua mocinha não se equipara a atual pelo grau de dificuldade. Alika é uma princesa em um distante país e que perde tudo de uma só vez, vindo parar num Brasil que está se reconstruindo após décadas de escravidão, e sustentado pelo racismo, não estrutural apenas, mas verbalizado.

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Muitas atrizes sofreram na pele as dificuldades de um papel em que a mocinha precisa ser altiva para fazer sentido. Em muitos momentos, a composição é atacada e se confunde altivez com arrogância. Foi esse o tom de todas as críticas sofridas por Taís Araújo em Viver a Vida (2009). Para um país extremamente racista, uma personagem negra não pode ser dona das próprias opiniões sem ser arrogante e o público automaticamente se incomoda.

Um problema a mais para atrizes negras lidarem e que quase nunca acontece com as brancas - Malu Mader foi ovacionada justamente por compor assim sua personagem em Celebridade (2002). Mas em A Nobreza do Amor não havia como caminhar para uma composição mais submissa ou sôfrega. A personagem é uma princesa em que mandava e desmandava, inclusive até no próprio pai e não precisava ceder a ninguém.

Os primeiros dias de Alika como Lúcia no Brasil foram intensos. O racismo verbalizado em várias sequências, seja de oferta de emprego não condizentes com ela ou mesmo com a expulsão de uma festa - não poderia ter outra reação senão a altivez. Duda Santos tinha em mãos momentos muito difíceis que poderiam traçar o destino da personagem ao longo da novela. Num país tão racista, a tendência era a rejeição.

Mas novela não é feita para se entregar aos preconceituosos ou para reafirmar a pequenez de seu povo, ao contrário. Como arte popular - e a maior delas no Brasil - a teledramaturgia tem um papel fundamental de nos fazer refletir sobre nossos comportamentos inaceitáveis e mudar através de ver nossos preconceitos na tela.

A Nobreza do Amor vem tentando cumprir sua função social desde o primeiro capítulo quando o assunto é racismo. Para isso funcionar, era necessário uma atriz que não tivesse medo da rejeição de parte da audiência e fizesse a composição com altivez e até arrogância em alguns momentos. Duda Santos provou sua capacidade, convence como a princesa altiva e dona de si, ao mesmo tempo em que conquista como a mocinha injustiçada. Neste início de trama, a atriz se valoriza ainda mais na construção de sua trajetória na Globo.

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