Melhores do Ano
Falta pouco para o Melhores do Ano
00dias
00horas
00min
00seg
 
Coluna Silvio Cerceau

Quinze Dias: o filme que entrega aos jovens LGBTQIA+ o direito a um romance no cinema

Adaptação do livro de Vitor Martins traz leveza e acolhimento ao retratar o primeiro amor, desconstruindo padrões de beleza sem recorrer a tragédias


Cena do filme Quinze Dias com os atores Miguel Lallo e Diego Lira
Em Quinze Dias, Miguel Lallo é Felipe e Diego Lira interpreta Caio - Foto: Reprodução

Há filmes que apostam em grandes reviravoltas para emocionar. Outros encontram sua força justamente na simplicidade. Quinze Dias, adaptação do livro homônimo de Vitor Martins, pertence à segunda categoria. 

Dirigido por Daniel Lieff, o longa acompanha quinze dias decisivos na vida de Felipe, um adolescente tímido e inseguro que vê suas férias mudarem completamente quando Caio, seu vizinho e antigo crush, passa a morar temporariamente em sua casa. 

+ Ana Hikari destaca protagonismo feminino em série médica: "Estamos cansadas de ver"

+ Valentina Herszage aprendeu até a usar desfibrilador para papel em Emergência 53

A premissa pode parecer simples, mas o filme encontra nela espaço para discutir temas importantes como bullying, autoestima, descoberta da sexualidade, amizade, família e, principalmente, o desejo de ser aceito exatamente como se é. 

Interpretado por Miguel Lallo, Felipe é o coração da história. O personagem é um adolescente gordo que sofre com o bullying na escola e encontra nas férias uma espécie de refúgio para fugir dos colegas que o atormentam. 

A grande qualidade da construção de Felipe está justamente em não transformá-lo apenas em uma vítima. Ele tem seus medos, suas fantasias, seus momentos de mau humor e suas contradições.

 É alguém que gostaria de viver um grande romance, mas que, ao mesmo tempo, não consegue acreditar completamente que possa ser desejado.

Quinze Dias: o filme que entrega aos jovens LGBTQIA+ o direito a um romance no cinema

Miguel Lallo, em seu primeiro papel no cinema, consegue transmitir boa parte dessa fragilidade. A atuação funciona especialmente nos momentos mais íntimos, quando Felipe precisa lidar com aquilo que pensa sobre si mesmo e com aquilo que começa a descobrir sobre seus sentimentos. 

Se Felipe representa a insegurança, Caio, vivido por Diego Lira, funciona como uma espécie de contraponto. Ele chega à casa de Felipe carregando sua própria personalidade, seus conflitos e uma espontaneidade que inicialmente desestabiliza completamente o protagonista. 

A relação entre os dois é um dos grandes trunfos do longa. Em vez de transformar o romance em uma paixão instantânea e artificial, o filme trabalha a aproximação gradualmente, permitindo que amizade, intimidade e desejo se misturem.

Diego Lira imprime ao personagem um carisma que ajuda a tornar Caio uma presença naturalmente envolvente. A química entre os protagonistas é fundamental para que a história funcione, principalmente porque o filme depende menos de grandes acontecimentos e mais da evolução emocional dos dois adolescentes. 

Débora Falabella é destaque em Quinze Dias

Entre os personagens adultos, Rita, mãe de Felipe, ganha destaque na interpretação de Débora Falabella. 

A atriz consegue equilibrar humor, afeto e preocupação, evitando transformar a personagem apenas na tradicional mãe de protagonista. Rita participa diretamente da jornada de Felipe e representa um dos espaços de acolhimento mais importantes da narrativa. 

Quinze Dias: o filme que entrega aos jovens LGBTQIA+ o direito a um romance no cinema

A presença de Débora Falabella também ajuda a dar mais peso emocional ao filme. Ao lado de Mariana Santos, que interpreta Sandra, mãe de Caio, a atriz forma uma das principais forças do elenco de apoio. 

A crítica do Jornalismo Júnior destacou justamente o trabalho das duas, ressaltando a capacidade de suas personagens transitarem entre o alívio cômico e momentos mais dramáticos.

O longa ainda conta com nomes como Mariana Santos, Mika Soeiro, Bel Moreira, Olivia Araújo, Sílvio Guindane, Márcio Vito, Augusto Madeira e Fernando Caruso, entre outros.

Mesmo quando aparecem em situações menores, esses personagens ajudam a construir o universo ao redor de Felipe e Caio. 

Humor é ponto alto em Quinze Dias

É um dos pontos positivos da produção: o filme não depende exclusivamente do casal principal para criar momentos de humor e emoção. 

Mariana Santos, especialmente, chama atenção como Sandra. Sua participação acrescenta uma camada emocional importante à narrativa e mostra como os adultos também carregam conflitos que ultrapassam a simples função de apoiar os protagonistas. 

Talvez uma das maiores qualidades de Quinze Diasseja a maneira como aborda um romance entre dois garotos sem transformar a sexualidade dos personagens em uma tragédia permanente. 

O filme fala sobre bullying e preconceito, mas também fala sobre beijo, desejo, amizade, diversão, família e primeiro amor. Essa escolha é importante porque apresenta personagens LGBTQIA+ tendo direito àquilo que muitas vezes lhes é negado na ficção: uma história romântica leve, divertida e feliz. 

Outro aspecto relevante é a relação do filme com a representação de corpos fora dos padrões tradicionais de beleza. Felipe não precisa emagrecer, mudar sua aparência ou se transformar em outra pessoa para ser digno de amor. A história coloca seu corpo e suas inseguranças no centro da narrativa, mas não permite que eles definam completamente quem ele é.

Essa abordagem ganhou repercussão justamente por desafiar a ideia, ainda muito presente na cultura popular, de que determinados corpos seriam menos desejáveis romanticamente. 

Uma história simples e essa é sua força. O filme funciona melhor quando abraça sua proposta de ser uma história de amadurecimento acessível, divertida e emocional. O resultado é uma produção que pode conversar especialmente com quem já enfrentou inseguranças durante a adolescência ou conhece a sensação de gostar de alguém e acreditar que não tem nenhuma chance de ser correspondido. 

No fim, Quinze Dias é menos sobre os quinze dias em que Caio fica na casa de Felipe e muito mais sobre o período em que Felipe começa a descobrir que talvez não precise ser outra pessoa para ser amado.

E essa é uma mensagem poderosa, às vezes, o verdadeiro romance não começa quando alguém se apaixona por nós, começa quando aprendemos a acreditar que também podemos ser desejados, respeitados e felizes. Desde agosto, o filme faz parte do catálogo da Netflix e vale a pena assistir.

Mais Notícias

Enviar notícia por e-mail


Compartilhe com um amigo


Reportar erro


Descreva o problema encontrado