Coluna Silvio Cerceau

Reta final de Três Graças: os erros e acertos da novela da Globo

A novela das nove chega ao fim, entre altos e baixos no horário nobre da TV


A personagem Arminda (Grazi Massafera) de Três Graças usando vestido vermelho sentada na cadeira
Arminda (Grazi Massafera) é destaque em Três Graças - Foto: Reprodução/Globo

A reta final de Três Graças chega como um teste decisivo para uma obra que, ao longo dos seus capítulos, alternou entre momentos de grande intensidade dramática e escolhas narrativas discutíveis. Como é comum no formato de novela, especialmente aquelas centradas em conflitos familiares e em personagens femininas fortes, o desfecho carrega a responsabilidade de dar sentido a uma jornada que, nem sempre, manteve consistência. 

Desde sua estreia, a proposta de acompanhar três mulheres de gerações distintas foi, sem dúvida, o maior acerto da novela. A ideia de explorar diferentes visões de mundo, valores e cicatrizes emocionais dentro de um mesmo núcleo familiar ofereceu material rico para o desenvolvimento dramático. 

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Quando o texto se concentrou nesse eixo, a novela atingiu seus melhores momentos: cenas densas, embates bem escritos e situações capazes de gerar identificação no público. Há um cuidado perceptível na construção das protagonistas, que fogem de estereótipos simplistas e transitam por zonas morais mais complexas.

No entanto, esse potencial nem sempre foi plenamente aproveitado. Um dos principais problemas de Três Graças foi a irregularidade do roteiro. Em diversos momentos, a narrativa pareceu perder o foco, abrindo espaço para tramas paralelas pouco relevantes ou mal desenvolvidas.

Personagens secundários surgiam com promessas de importância que não se concretizavam, sendo abandonados ou reduzidos a funções periféricas. Esse excesso de núcleos acabou diluindo a força do conflito central, prejudicando o envolvimento emocional do público. 

Outro ponto crítico foi o ritmo. A novela oscilou entre longos períodos de estagnação e reviravoltas abruptas. Em algumas fases, a sensação era de repetição de conflitos, com situações que giravam em falso sem avanço significativo. 

Já em outros momentos, especialmente quando a audiência exigia maior dinamismo, o roteiro recorreu a soluções apressadas, com viradas pouco orgânicas ou convenientes demais. Esse desequilíbrio comprometeu a coerência narrativa e enfraqueceu o impacto de determinados acontecimentos que deveriam ser marcantes. 

A questão do tom também merece destaque. A novela, que se propunha essencialmente como um drama familiar, por vezes flertou com o exagero melodramático ou com situações quase caricatas. 

Reta final de Três Graças: os erros e acertos da novela da Globo

Esse vai e vem entre o realismo e o exagero prejudicou a unidade da obra. Há cenas de grande sensibilidade que convivem com momentos que beiram o artificial, criando uma experiência irregular para o espectador. 

Apesar desses problemas, os méritos são relevantes e ajudam a explicar por que a novela conseguiu se manter em evidência. A direção demonstrou competência ao valorizar momentos mais intimistas, apostando em enquadramentos fechados e em uma condução que privilegia o trabalho dos atores. A fotografia e a trilha sonora também contribuíram para criar atmosfera, reforçando o peso emocional das cenas mais importantes.

O elenco de Três Graças

E é justamente no elenco que Três Graças encontra sua maior força. As três protagonistas sustentam a narrativa com interpretações consistentes e, em muitos momentos, comoventes. Cada uma consegue imprimir identidade própria à sua personagem, evitando que o conceito das três gerações se torne apenas um recurso simbólico vazio.

 As cenas de confronto entre elas estão entre os pontos altos da novela, revelando nuances emocionais e conflitos internos bem trabalhados. 

Entre os coadjuvantes, alguns nomes se destacaram ao conseguir transcender limitações do roteiro. Personagens que poderiam ser apenas funcionais ganharam vida graças ao carisma e à entrega de seus intérpretes. Em especial, figuras ligadas ao núcleo familiar central conseguiram criar conexões reais com o público, tornando-se peças importantes na engrenagem dramática. 

Reta final de Três Graças: os erros e acertos da novela da Globo

Os antagonistas também merecem menção. Ainda que, em certos momentos, tenham sido vítimas de exageros ou de motivações pouco aprofundadas, cumpriram o papel de manter a tensão narrativa. Quando bem conduzidos, ofereceram contrapontos interessantes às protagonistas, elevando o nível dos conflitos. 

Na reta final, o grande desafio da novela será equilibrar suas contas com o público. Há uma série de questões em aberto que exigem resolução cuidadosa: arcos de redenção precisam ser construídos de forma convincente, conflitos familiares devem encontrar desfechos que respeitem a trajetória dos personagens, e eventuais punições ou recompensas precisam soar justas dentro do universo da trama.

O risco, como em muitas novelas, é optar por soluções rápidas que sacrifiquem a coerência em nome do impacto imediato. 

Se conseguir retomar o foco no que teve de melhor, a complexidade das relações humanas, o peso das escolhas ao longo das gerações e a força de seu trio central, Três Graças tem condições de encerrar sua trajetória de maneira satisfatória. Caso contrário, corre o risco de ser lembrada mais pelos tropeços do que pelos acertos. 

Enfim, se trata de uma novela ambiciosa, com proposta interessante e elenco forte, mas que esbarrou em problemas estruturais de roteiro e condução. A reta final, portanto, não é apenas o encerramento da história, mas a última oportunidade de consolidar, ou redefinir, o legado que deixará junto ao público.

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