Os sambas que marcaram as novelas da Globo
O samba marcou aberturas de novelas da Globo, traduzindo brasilidade e emoção em trilhas inesquecíveis que ficaram na memória do público
Publicado em 15/02/2026 às 12:00
Poucos elementos são tão capazes de definir o clima de uma novela quanto sua música de abertura. Na história da dramaturgia da Globo, o samba, em suas muitas vertentes, ocupou lugar de destaque, ajudando a apresentar personagens, ambientar épocas e reforçar identidades culturais. Do samba-enredo ao partido-alto, passando pelo samba-pop, essas canções ficaram gravadas na memória afetiva do público.
Desde os anos 70, a Globo recorre ao samba para traduzir brasilidade. Na minha opinião, o gênero dialoga naturalmente com histórias ambientadas no Rio, com tramas sobre o povo, o Carnaval, a malandragem, o romance e a vida cotidiana. Ao escolher um samba para a abertura, a emissora frequentemente sinalizava leveza, humor, sensualidade ou crítica social.
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Muitas aberturas que viraram clássicos, em 1975 e no remake em 1998 a abertura de Pecado Capital é um dos casos mais emblemáticos. O samba composto por Paulinho da Viola se tornou inseparável da novela, com versos que falam de ambição, moral e escolhas.

Em 1984, como o próprio título indica, Partido Alto apostou em um samba direto, vibrante e festivo. A abertura refletia o espírito descontraído da trama, ambientada no Rio, e ajudava a consolidar a associação entre o gênero musical e novelas de tom leve e popular.
Em 1990, Gente Fina teve o samba Sonhando Eu Sou Feliz na inesquecível voz de Beth Carvalho.
Duas Caras (2007/2008) contou com dois sambas marcantes em sua trilha: na abertura, Trabalhador, na voz de Seu Jorge, e na vinheta, o instrumental de Tá Perdoado, canção de Maria Rita.
Duas novelas de Gilberto Braga tiveram o samba nas aberturas, Insensato Coração (2011) foi embalado por Coração Em Desalinho, por Maria Rita, e Pra Que Chorar na voz de Mart’nália abria Babilônia (2015).
Lado a Lado (2012/2013), vencedora do Emmy, trouxe em sua abertura um dos maiores clássicos da apoteose Liberdade, Liberdade, Abra As Asas Sobre Nós de Dominguinhos do Estácio.
Embora misturasse outros elementos sonoros, Avenida Brasil (2012) trouxe forte influência do samba e do pagode em sua abertura e trilha. O ritmo urbano e pulsante ajudava a apresentar uma história sobre contrastes sociais, vingança e identidade suburbana.
O samba e as novelas da Globo
Acredito que o uso do samba nas aberturas não era apenas uma escolha musical, mas narrativa. Muitas dessas canções funcionavam como um resumo emocional da história, antecipando conflitos. Com o passar dos anos, várias ultrapassaram o espaço da TV e ganharam vida própria no rádio, em shows e no imaginário popular.
Mesmo com a diversificação estética das aberturas mais recentes, o samba segue como referência quando a intenção é dialogar com o Brasil profundo e afetivo.
As novelas da Globo que apostaram nesse ritmo ajudaram a eternizar sambas, compositores e intérpretes, reforçando a conexão entre teledramaturgia e música popular brasileira.
Ao revisitar essas aberturas, fica claro que, quando o samba começa, a novela já diz muito antes mesmo do primeiro capítulo ir ao ar.