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Coluna Especial

Todo mundo virou uma foto dos anos 80; mas quem ganha com isso?

Trend que tomou conta do Instagram revela mais do que nostalgia: mostra como a IA transforma comportamento em aprendizado


Virginia Fonseca, Ana Maria Braga e Sabrina Sato
Virginia Fonseca, Ana Maria Braga e Sabrina Sato foram algumas das artistas a entrarem na onda da trend dos anos 80

Se você abriu o Instagram nos últimos dias, provavelmente encontrou alguém com cabelo armado, ombreiras, maquiagem colorida, luz de estúdio e aquele inconfundível ar de fotografia dos anos 80.

 A nova trend de inteligência artificial viralizou nas redes sociais e ganhou a adesão de dezenas de famosos, entre eles Sabrina Sato, Virginia Fonseca, Ana Maria Braga, Tatá Werneck, Gil do Vigor, Deborah Secco, Adriane Galisteu e Fernanda Paes Leme. A tendência chegou a milhões de compartilhamentos nos Stories e fez as buscas por “trend anos 80” dispararem no Google.

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Até Xuxa, um dos maiores símbolos da própria década, entrou na conversa — mas sem precisar da inteligência artificial. A apresentadora publicou fotos reais dos anos 80 e resumiu a brincadeira: “Eu não preciso de IA. Eu sou anos 80.”

Mas por que tanta gente quis se enxergar em uma década que nem sequer viveu?

Para Paulo Crepaldi, especialista em comportamento do consumidor, estrategista comportamental e consultor em marketing e negócios, a resposta passa por algo maior do que nostalgia. “A IA não está simplesmente te deixando mais bonito. Ela está te colocando dentro de um álbum que você não tem”.

Crepaldi chama atenção para uma contradição da trend: a maior parte dos brasileiros sequer tem memória autobiográfica dos anos 80. Para boa parte de quem hoje compartilha essas imagens, os anos 80 são menos uma lembrança pessoal e mais uma imagem cultural construída por televisão, música, publicidade e referências visuais.

“Não estamos necessariamente copiando uma memória. Estamos copiando uma representação coletiva de uma época. A IA pegou uma estética que todos reconhecem e transformou qualquer pessoa em personagem dela”, explica Crepaldi.

Por que todo mundo postou a mesma foto?

A força da tendência também está no comportamento coletivo. A lógica é simples: uma pessoa publica, outra vê, uma terceira vê várias, e, quando a referência já aparece repetidamente no feed, a barreira para participar praticamente desaparece.

É o mecanismo clássico da prova social, potencializado pela velocidade das redes.

“Você não necessariamente entra na trend quando vê a primeira pessoa. Você entra quando percebe que aquilo já virou um comportamento do grupo. O quarto, quinto ou décimo exemplo funciona como autorização social”, afirma o especialista.

E existe ainda uma particularidade: a participação é barata. Não exige aprender um aplicativo novo, comprar alguma coisa ou produzir um vídeo elaborado. Basta uma fotografia e um comando para a IA. O resultado é altamente compartilhável e, principalmente, altamente reconhecível.

“É quase uma fórmula perfeita para viralização: baixo esforço, resultado visualmente impressionante e uma forte identificação emocional”.

A IA não precisa do seu rosto para aprender a fazer um rosto

É justamente aqui que, segundo Crepaldi, começa a parte menos visível da brincadeira. A interpretação mais comum sobre essas trends é: “as empresas querem coletar nossos rostos”. Para o especialista, a questão é mais sofisticada. “O rosto não é necessariamente o ativo mais interessante. O que vale muito é observar como as pessoas interagem com a ferramenta.”

Ao enviar uma fotografia, escrever um comando, receber um resultado e pedir alterações, o usuário produz uma sequência extremamente rica de informações sobre comportamento.

O que ele pede? O que rejeita? O que considera bonito? O que corrige? Que estética prefere? Quanto insiste até chegar ao resultado desejado?

É justamente esse tipo de interação que aparece no debate contemporâneo sobre como os sistemas de IA aprendem com seus usuários. 

A própria Microsoft, em texto publicado pelo CEO Satya Nadella, chama atenção para esse fenômeno ao discutir o que ele define como “Reverse Information Paradox”: ao consumir inteligência artificial, o usuário também produz informação que pode ajudar a aprimorar sistemas.

“A grande moeda não é necessariamente a fotografia original. É o comportamento que acontece em torno dela”, resume Crepaldi.

A empresa ganha mesmo quando você não paga

Existe ainda um ganho imediato para as plataformas: distribuição. A pessoa cria a imagem dentro da ferramenta, mas quem faz a propaganda é o próprio usuário ao publicar o resultado no Instagram, no WhatsApp ou em outras redes. O efeito é particularmente poderoso porque a publicidade não aparece como publicidade.

“A pessoa não está dizendo ‘use este produto’. Ela está mostrando uma foto dela. Mas, por trás daquela foto, existe uma demonstração espontânea da capacidade da ferramenta”, explica Crepaldi.

Foi exatamente esse tipo de efeito que outras ferramentas de IA experimentaram em ondas virais anteriores. O resultado é uma espécie de aquisição de usuários financiada pelo próprio comportamento social: milhares de pessoas experimentam a ferramenta, produzem conteúdo e levam novos usuários até ela.

O que a trend revela sobre o consumidor

Para Crepaldi, o fenômeno é mais interessante justamente porque não se trata apenas de uma brincadeira com nostalgia. “A pessoa não está apenas perguntando ‘como eu seria nos anos 80?’. Ela está testando uma identidade possível.”

A IA permite experimentar versões de si mesmo que nunca existiram. E isso muda a relação do consumidor com a própria imagem. Ontem, uma fotografia registrava um momento. Hoje, a IA pode criar o momento que nunca aconteceu.

“Estamos saindo de uma cultura em que a imagem servia para registrar a memória para uma cultura em que a imagem também pode fabricar memória”, afirma.

É aí que, para o especialista, está a verdadeira força dessa trend.

“A fotografia dos anos 80 é só a superfície. Por baixo dela existe uma transformação muito maior: a IA está deixando de ser apenas uma ferramenta que responde ao consumidor e começando a participar da construção da identidade que ele quer apresentar ao mundo”.


Sobre Paulo Crepaldi

Behavior Designer, consultor de negócios e especialista multidisciplinar com mais de 16 anos de experiência na intersecção entre comportamento humano, tecnologia e estratégia de negócios, com atuação em setores como saúde, bem-estar, indústria alimentar, tecnologia e indústria farmacêutica. CEO da ING Marketing & Training, é reconhecido pela UNESCO como Trusted Voice Online e eleito Top 100 Thought Leader Latin America pela Thinkers360. Possui formação executiva em Disrupção Digital (University of Cambridge), Estratégias de Comunicação na Era Virtual (University of Toronto) e Omnichannel Marketing (Kellogg School of Management, Northwestern University).

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