Marquei um X: o verdadeiro motivo por trás do fenômeno Xuxa e seus estádios lotados
Quarenta anos depois de transformar as manhãs brasileiras, Xuxa esgota o Maracanã e demonstra que sua permanência não se explica apenas pela nostalgia, mas por um vínculo raro entre artista, memória e identidade nacional
Publicado em 22/08/2026 às 11:29
Xuxa cantou 'Marquei um X' e o tempo se encarregou de transformar o título da música em uma espécie de profecia. Ela marcou. Marcou uma geração, uma linguagem, uma estética e um modo de compreender a televisão. Marcou as manhãs brasileiras, o mercado fonográfico, o cinema infantil e a memória de milhões de pessoas. Marcou até o imaginário doméstico do País: durante anos, crianças se sentaram diante da televisão esperando que uma nave pousasse no meio da sala.
Agora, quatro décadas depois da estreia do Xou da Xuxa, a artista acaba de acrescentar ao próprio legado um acontecimento que ultrapassa a bilheteria. Depois de esgotar duas apresentações no Nubank Parque, em São Paulo, Xuxa também esgotou os ingressos para o espetáculo marcado para 20 de dezembro no Maracanã, no Rio de Janeiro.
+ Fábio Porchat surge nu com a noiva em praia; fotos
+ Xuxa demonstra preocupação com Junno Andrade na Dança dos Famosos: "Vai ser difícil"
A indústria do entretenimento chama isso de sold out. No caso de Xuxa, a expressão parece pequena.
O Maracanã não é somente um estádio. É um dos lugares onde o Brasil costuma representar a si mesmo. Ali, o País celebra vitórias, lamenta derrotas e transforma acontecimentos populares em cerimônias coletivas. Esgotá-lo tantos anos depois do auge diário na televisão equivale a uma espécie de consulta pública sobre a permanência de um ícone.
A resposta foi inequívoca
É tentador explicar o fenômeno pela nostalgia. É também insuficiente. A nostalgia pode vender uma sessão, despertar curiosidade ou recolocar uma música nas plataformas digitais. Mas, sozinha, dificilmente explica duas apresentações lotadas em São Paulo e um Maracanã sem ingressos meses antes do espetáculo.
A saudade pode levar alguém a comprar o primeiro ingresso. Para vender o último, é preciso algo mais profundo: pertencimento.
O público que volta a ver Xuxa não procura apenas as músicas, os figurinos ou as coreografias. Procura uma parte de sua própria história. Cada canção abre uma gaveta da memória. Cada gesto devolve uma sensação que talvez estivesse adormecida. A nave, mais do que um elemento cenográfico, reaparece como uma máquina do tempo construída coletivamente.

Tenho hoje 48 anos e conservo uma lembrança que me ajuda a compreender a dimensão desse fenômeno.
Desde que nasci, tive o imenso privilégio de ter Silvio Santos presente em minha vida. Talvez por isso a proximidade com artistas e com a própria televisão nunca tenha me causado grande deslumbramento. A fama, por si só, não era um universo completamente distante de mim.
Quando eu tinha por volta de 14 anos, porém, fui a um show de Xuxa. Marlene Mattos me chamou e me levou ao camarim. Quando fiquei diante dela, não consegui pronunciar uma única palavra.
Décadas depois, não interpreto aquele silêncio apenas como timidez adolescente. Havia em Xuxa uma presença singular, algo que ultrapassava a celebridade e não dependia das câmeras.
Algumas personalidades impressionam pelo tamanho de sua fama. Outras possuem uma força que se percebe antes mesmo que falem. Xuxa pertence a esse segundo grupo. Ela tem uma espécie de magia que não se explica inteiramente - e que é somente dela.
Talvez seja essa mesma força, impossível de fabricar e difícil de reproduzir, que continue levando multidões a procurá-la tantos anos depois. O público conhece as músicas, os cenários e os personagens. Mas o que realmente deseja reencontrar é aquela sensação: a de estar diante de alguém que parecia maior do que o próprio espetáculo.
Em 1986, quando o Xou da Xuxa estreou na Rede Globo, o Brasil ainda vivia sob a força unificadora da televisão aberta. Crianças de regiões e realidades sociais muito diferentes assistiam aos mesmos programas, conheciam os mesmos personagens e repetiam as mesmas expressões.
Xuxa chegava em uma nave espacial, comandava brincadeiras, apresentava atrações musicais e falava diretamente com as crianças. O programa tornou-se rapidamente campeão de audiência e, ainda em 1986, já era a atração que mais recebia cartas na emissora. Ao seu redor, surgiram discos, bonecas, roupas, acessórios e uma infinidade de produtos.

Muito antes de expressões como "conteúdo multiplataforma", "universo de marca" e "experiência imersiva" entrarem no vocabulário dos executivos, Xuxa já ocupava simultaneamente a televisão, a música, o cinema, os palcos, as revistas e as prateleiras.
Ela não era apenas uma apresentadora. Era personagem, narrativa, linguagem, produto e fantasia.
Pouquíssimos artistas brasileiros conseguiram construir um universo comparável.
Sua força estava na combinação de elementos que, à primeira vista, poderiam parecer incompatíveis. Havia a simplicidade das canções infantis e a grandiosidade quase futurista dos cenários. Havia espontaneidade e disciplina, afeto e rigor industrial, linguagem infantil e ambição internacional.
Acima de tudo, havia uma mulher que falava diretamente com as crianças em uma época na qual elas eram frequentemente tratadas pela televisão como acompanhantes do público adulto.
Xuxa deu centralidade à infância
Chamou as crianças de "baixinhos", olhou para elas diante das câmeras e criou a impressão de que cada uma estava sendo pessoalmente recebida por aquela mulher que descia de uma nave. A televisão era de massa, mas a relação parecia individual.
Esse talvez tenha sido um dos aspectos mais sofisticados de sua comunicação: fazer milhões de pessoas sentirem que o gesto era dirigido a cada uma delas.
Para compreender o tamanho de Xuxa, porém, não é preciso transformar sua história em uma narrativa sem contradições. Os verdadeiros fenômenos culturais nunca são feitos apenas de virtudes. Eles também carregam os excessos, os valores e as limitações de seu tempo.
O universo criado ao redor dela reproduziu padrões estreitos de beleza, associou afeto ao consumo e apresentou como ideal uma aparência quase impossível de ser alcançada. Anos depois, os relatos das Paquitas trouxeram a público episódios de pressão estética, falta de diversidade, assédio e sofrimento nos bastidores.
Reconhecer essas questões não diminui a importância histórica de Xuxa. Ao contrário, permite compreendê-la como uma figura cultural completa, e não apenas como objeto de devoção.

A memória adulta não precisa destruir o encantamento infantil. Pode apenas torná-lo mais consciente.
Talvez uma das razões de sua permanência seja justamente o fato de sua trajetória ter sobrevivido a essa revisão. Hoje, o público pode olhar para aquele universo com ternura e, ao mesmo tempo, enxergar aquilo que, quando criança, não tinha condições de perceber. É possível guardar afeto sem abrir mão da crítica. É possível reconhecer os problemas de uma época sem negar a alegria que ela produziu.
Há ainda outra dimensão no Maracanã esgotado.
A indústria do entretenimento costuma exigir das mulheres uma juventude permanente. Quando elas já não conseguem ou não desejam corresponder a essa exigência, muitas vezes lhes reserva o desaparecimento silencioso. Xuxa desafia esse mecanismo.
Ela não reaparece como uma reprodução congelada da mulher que descia da nave no fim dos anos 1980. Apresenta-se como alguém que envelheceu diante do País, atravessou mudanças, enfrentou críticas e continuou sendo reconhecida por seu público.
E seu público também envelheceu.
Os antigos baixinhos tornaram-se adultos. Construíram carreiras, pagaram contas, formaram famílias, mudaram de cidade, criaram filhos, perderam pessoas e descobriram que a vida adulta raramente se parece com o futuro que imaginavam diante da televisão.
Ao comprarem um ingresso, não estão necessariamente tentando voltar a ser crianças. Estão recuperando o contato com uma parte de si mesmos que o tempo não conseguiu apagar.
Voltam, por algumas horas, a uma época em que o futuro ainda podia chegar dentro de uma nave. Num presente fragmentado por algoritmos, nichos e telas individuais, Xuxa representa algo cada vez mais raro: uma memória verdadeiramente compartilhada.

Hoje, duas pessoas da mesma idade podem consumir conteúdos completamente diferentes, seguir referências distintas e jamais assistir aos mesmos programas. Durante o período de maior força da televisão aberta, o País inteiro reconhecia uma música, uma coreografia, um bordão ou uma despedida dita diante das câmeras.
Essa linguagem comum criava pertencimento.
O Brasil era profundamente desigual - como continua sendo -, mas crianças de histórias familiares, classes sociais e regiões muito diferentes sabiam cantar as mesmas palavras. Xuxa não eliminava as distâncias do País, evidentemente. Criava, porém, um território imaginário no qual milhões de pessoas conseguiam se reconhecer.
É por isso que o Maracanã esgotado não deve ser interpretado como simples retorno de uma celebridade do passado.
Xuxa nunca pertenceu inteiramente ao passado.
Sua imagem continuou circulando. Suas músicas atravessaram gerações. Seus programas, filmes e personagens permaneceram na lembrança dos que cresceram com ela e chegaram também a públicos mais jovens. A turnê O Último Voo da Nave foi concebida justamente como uma travessia por diferentes fases de sua carreira, levando ao palco o universo que durante décadas habitou a televisão e o imaginário brasileiro.

Há artistas que vendem milhões e desaparecem. Há programas que dominam a audiência e não deixam linguagem. Há marcas poderosas que jamais se transformam em afeto.
Xuxa reuniu as quatro coisas: popularidade, linguagem, memória e vínculo emocional. O Maracanã esgotado é a comprovação pública desse vínculo.
O nome O Último Voo da Nave sugere despedida. No entanto, o que está acontecendo parece menos um encerramento do que uma consagração. A nave talvez esteja realizando seu último voo como objeto de espetáculo, mas já encontrou um lugar definitivo na memória coletiva do País.
Os símbolos verdadeiramente importantes não desaparecem quando saem de cena. Apenas deixam de precisar dela.
No dia 20 de dezembro, quando as luzes se apagarem e milhares de pessoas aguardarem novamente pela nave, o Maracanã será menos um estádio do que uma enorme sala de estar brasileira.
O público não estará ali somente para rever Xuxa. Estará ali para reconhecer quem era quando a viu pela primeira vez. Aos 14 anos, diante dela, não consegui dizer uma palavra. Aos 48, consigo ao menos dizer isto: Xuxa tem uma magia que é só dela. Ela cantou 'Marquei um X'. E marcou.