Premiação
 
Coluna do Sandro

Troca no alto escalão expõe dilema da Globo: por que a marca precisa de uma virada?

Troca na gestão da marca Globo mostra busca pela reconexão com o público brasileiro


Executivo Manuel Falcão e a logo da Globo
O executivo Manuel Falcão deixou a Globo e cuidava das marcas do grupo - Foto: Montagem/NaTelinha

A Globo confirmou na última sexta-feira (4) a saída de três nomes de peso do seu alto escalão: Manuel Belmar, Pedro Garcia e Manuel Falcão. A despedida de Falcão, em especial, chama atenção por ele estar à frente da gestão de marca, uma sinalização que o maior grupo de mídia do país quer repensar a forma que se conecta com o brasileiro.

E realmente precisa. Pela sua relevância no mercado, o grupo deveria despertar um sentimento espontâneo de orgulho nacional.

+ Memória afetiva? Celso Freitas se confunde e chama Jornal do SBT News de 'da Record'

+ Ricardo Teodoro revela intensa preparação para Quem Ama Cuida: "Depilei"

A Globo abriga o maior complexo de produção audiovisual da América Latina (os Estúdios Globo), opera o maior estúdio permanente de produção virtual da região, emprega milhares de profissionais direta e indiretamente, além de exportar telenovelas para mais de 130 países e colecionar dezenas de prêmios Emmy Internacional.

O padrão de qualidade da TV brasileira foi moldado pela própria Globo, a ponto de que, por muitos anos, bastava mudar de canal para o telespectador sentir imediatamente a diferença na tela.

Ainda assim, toda essa potência já não se traduz em afeto popular.

Globo e as campanhas para ganhar prêmio

Acredito que a marca Globo elitizou muito sua comunicação. As campanhas institucionais parecem desenhadas para impressionar júris de festivais publicitários como Cannes, mas falham em tocar o coração do cidadão comum.

Exemplos mostram esse problema: a campanha institucional dos seus 60 anos passou quase despercebida pelo público, enquanto a vinheta da Globeleza deste ano, transformada em uma roda de samba para abrir o Carnaval, perdeu força, não tinha emoção e se tornou esquecível, apesar do primor técnico para ganhar prêmio.

No passado, a Globo sabia se vender e tocar diretamente o coração do brasileiro. Em 1987, a emissora lançou a histórica campanha "Essa Onda Pega".

A vinheta trazia o marcante verso "pegue a nossa mão, pegue o nosso astral, pois a Globo é a gente quem faz", enquanto exibia seus artistas em closes, reunindo nomes do peso de Xuxa e Tarcísio Meira. Uma vinheta cheia de alma que traduzia o verdadeiro peso da sua marca.

Outro exemplo inesquecível é a campanha "Globo 90 é nota 100". A emissora usava a força do seu elenco estelar justamente como ponte para se humanizar.

São cases emblemáticos que deixavam no ar, na época, a certeza imediata de que só a Globo era capaz de produzir algo com tanta grandiosidade.

Hoje, a emissora aposta produzir peças que qualquer usuário no TikTok consegue fazer, não tem identificação na tela. Falta grandiosidade e, principalmente, autenticidade.

Imagem da thumbnail do vídeo!

As chamadas da TV Globo perderam a assinatura própria e poderiam muito bem ter sido produzidas e veiculadas por qualquer concorrente. Até o "plim-plim" você escuta cada vez menos.

Essa perda de identidade sonora e visual se agravou ainda mais com o abandono gradual da marcante voz padrão de Dirceu Rabelo, hoje substituída por uma rotatividade de vozes para anunciar a programação.

Esse distanciamento do seu principal público cobra um preço alto. Algumas vezes, o público passou a torcer abertamente contra a emissora, seja na disputa direta de Ibope entre Eliana e Celso Portiolli aos domingos, seja na última Copa do Mundo, quando a audiência abraçou a transmissão da CazéTV. Isso é crise de marca.

O problema bateu no jornalismo. Até pouco tempo, os comentaristas da GloboNews tinham a mesma visão política. O jornalismo precisa dar espaço para pluralidade. Sem ela, a conta chega na credibilidade: quem assiste passa a olhar a emissora como se tivesse um lado na polarização. Isso também trouxe uma crise na marca.

Globo precisa se reconectar com o público

Troca no alto escalão expõe dilema da Globo: por que a marca precisa de uma virada?

A Globo precisa recuperar o diálogo com a rua e voltar ser vanguardista. Há 61 anos, a emissora faz parte da história do país.

Quando a Globo perde a capacidade de emocionar a dona de casa, o trabalhador no ponto de ônibus e as famílias reunidas na sala, ela vira apenas mais uma plataforma de conteúdo. Ela nunca foi só isso.

Para voltar a ser indispensável, a Globo não precisa buscar um público novo. Precisa apenas voltar a dialogar com quem a colocou no topo e acabou deixado de lado nos últimos anos. A emissora precisa recuperar sua magia e mostrar, de novo, o que só ela é capaz de fazer.

TAGS:
Mais Notícias

Enviar notícia por e-mail


Compartilhe com um amigo


Reportar erro


Descreva o problema encontrado