Coluna do Sandro

Por que o novo jornal de Rodrigo Bocardi é um alerta às praças do SBT

Com o BocaTV, o SBT corre o risco de enfraquecer o faturamento de suas afiliadas


Rodrigo Bocardi usando terno e Erica Reis usando um vestido vermelho no SBT Cidades
Rodrigo Bocardi e Erica Reis no SBT Cidades

O SBT Cidades estreou na última segunda-feira (3), sob o comando de Rodrigo Bocardi e Érica Reis. O novo telejornal nasce de uma parceria entre a emissora e o BocaTV , projeto jornalístico criado pelo ex-apresentador da Globo para as redes sociais e o YouTube, cujo foco é se consolidar como referência no jornalismo regional em diversas capitais. É justamente nesse ponto que o acordo gera estranhamento do ponto de vista de negócios para o SBT.

Ao conceder uma vitrine em rede nacional e no horário nobre para o BocaTV em sua última meia hora, das 19h15 às 19h45, o SBT oferece ao projeto uma visibilidade que nenhuma de suas afiliadas possui e nem o SBT News, canal de notícias que recebeu investimentos do grupo no último ano.

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A situação se torna ainda mais crítica quando Rodrigo Bocardi pede ao vivo para o público acionar o BocaTV ao buscar ajuda para sua região. Na prática, as afiliadas transmitem e promovem o seu próprio concorrente, enfraquecendo a identidade e a preferência de marca dos seus próprios telejornais locais.

O principal ativo de uma emissora afiliada é ser a voz e a referência do jornalismo local na sua região. Quando a rede transmite um programa nacional que pede para o telespectador enviar denúncias e pautas para um veículo parceiro externo (BocaTV), ela está ensinando o público local a recorrer a outra marca em vez de procurar o telejornal da própria afiliada. Ou seja, canibaliza a audiência.

Ainda tem o lado comercial. Se o público passa a enxergar o BocaTV como o canal principal para resolver os problemas da sua cidade ou estado, o jornalístico local da afiliada perde força, engajamento e, consequentemente, atratividade comercial para anunciantes regionais. Além das verba das prefeituras.

SBT acerta na intenção, mas erra na prática

O SBT acertou ao perceber a necessidade de uma linguagem mais ágil e focada na interação comunitária, apostando em uma alternativa ao formato policialesco. A escolha do âncora também foi estratégica: Rodrigo Bocardi traz o alto recall da Globo e a bagagem de quem já foi cotado para a bancada do Jornal Nacional.

A falha da emissora, contudo, está em terceirizar essa solução para uma marca externa em vez de desenvolver esse  projeto da porta para dentro, de forma totalmente integrada às suas afiliadas locais.

Por que o novo jornal de Rodrigo Bocardi é um alerta às praças do SBT

Da forma como foi desenhado, o SBT funciona como um mero "alavancador" de uma marca privada. Se daqui a um ou dois anos a parceria terminar, o BocaTV sairá da TV aberta gigante, com milhões de inscritos e uma audiência consolidada às custas do sinal do SBT, enquanto a rede e suas afiliadas não herdarão nada desse patrimônio digital.

No fim, a iniciativa escancara como o SBT ainda enfrenta dificuldades para criar modelos digitais nativos e integrados ao seu regionalismo, preferindo importar fórmulas prontas em vez de construir o seu próprio futuro digital junto com suas afiliadas.

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