Por que Netflix e Disney agora miram o modelo de Globo e SBT para sobreviver
Desgaste do modelo pago força gigantes a adotar canais programados e planos de graça para segurar o público e competir com a TV tradicional.
Publicado em 16/07/2026 às 04:05
Após uma década de crescimento sustentado pela promessa de que a TV tradicional estava morta, a indústria do streaming de vídeo alcançou o seu momento de verdade. As movimentações de suas duas maiores gigantes, Netflix e Disney, mostram que o modelo de negócios baseado apenas em assinaturas pagas e catálogos sob demanda esgotou sua capacidade de expansão.
O mercado saturou, o bolso do consumidor encolheu e o custo de produção de Hollywood tornou-se insustentável. Agora, o streaming está buscando recriar a velha TV que a Globo e o SBT já fazem.
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O sintoma mais evidente vem da Netflix. A líder do setor, que antes priorizava seu ecossistema fechado e produções originais caras, agora discute criar canais lineares com grades programadas e abrir sua tela inicial para vender serviços concorrentes.
É o que já fazem Amazon e Apple. Trata-se de uma resposta à queda nas métricas de engajamento e à perda de audiência.
O consumidor desenvolveu fadiga de decisão diante da navegação infinita. Ao oferecer canais temáticos contínuos de séries policiais ou comédias clássicas, a Netflix tenta resgatar a passividade confortável de ligar a televisão e apenas receber o conteúdo.
Paralelamente, o Disney+ estuda implementar uma versão gratuita da sua plataforma. A mudança reage ao aumento no preço das assinaturas mensais, que acabou por fragmentar o orçamento das famílias e empurrar o público para alternativas sem custo.
Serviços mantidos por anúncios, como o YouTube, Tubi e Roku Channel, ganharam espaço ao oferecerem conveniência barata. A Disney percebeu que manter barreiras de cobrança isola suas marcas e encolhe sua base de usuários.
As estratégias da Disney e Netflix indicam a mesma resposta
A conexão entre as duas estratégias revela a busca de um novo formato para a mídia digital. O streaming focado apenas em assinaturas caras bateu no teto. Tempo e dinheiro do espectador são recursos finitos.
Para estancar a perda de receita e manter as telas ligadas, as plataformas querem mudanças.
A sobrevivência depende de quem se torna o agregador central da rotina do usuário, seja oferecendo canais gratuitos com comerciais, seja vendendo o aplicativo do concorrente dentro da própria casa. Essa reconfiguração do streaming para o modelo de televisão programada e gratuita financiada por publicidade é uma boa notícia para a TV aberta, mas com ressalvas importantes.
A TV aberta estava certa

Por um lado, o movimento valida o modelo de negócios da TV aberta. Durante anos, as plataformas de tecnologia venderam a ideia de que a programação linear e os comerciais eram formatos obsoletos.
A volta desses mesmos elementos ao streaming prova que a TV aberta sempre esteve certa sobre o comportamento do consumidor: as pessoas gostam de gratuidade e de ligar a tela sem precisar tomar decisões de catálogo. No curto prazo, isso alivia a pressão existencial sobre as emissoras tradicionais, pois valida sua relevância cultural e comercial.
Por outro lado, a concorrência pela verba publicitária vai se acirrar, ainda mais. Se gigantes como Disney e Netflix entrarem de cabeça no mercado de conteúdo gratuito mantido por anúncios, elas disputarão diretamente o mesmo dinheiro das marcas que hoje sustenta a Globo, SBT, Record, RedeTV! e Band. Onde tudo isso vai parar? Ninguém sabe.