TVs travam guerra de audiência com números mirabolantes do Ibope
Emissoras buscam disfarçar baixa audiência com releases cheios de pegadinhas
Publicado em 17/05/2026 às 08:36,
atualizado em 17/05/2026 às 08:36
A Globo lidera a audiência em todas as faixas. O público que sobra é disputado por outras TVs, que criam narrativas em seus releases, alguns grotescos, outros claramente mentirosos, sobre o desempenho de sua programação no Ibope. Uma prática corriqueira tem sido misturar dados oficiais do instituto com fórmulas internas pouco confiáveis de deduplicação do público nas multiplataformas.
Já recebi comunicados em que emissoras afirmavam ter atingido, em determinado período, cerca de 200 milhões e até 300 milhões de pessoas, neste caso, mais gente do que a própria população brasileira. Curioso.
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Como também em outro release onde uma TV informava um impacto de milhões em suas redes sociais que, somado ao número de views no YouTube, colocaria o canal como líder de audiência no segmento de esporte. Uma mentira descarada.
Recentemente, um canal de notícias anunciou que teria liderado a audiência na TV paga, segundo suas próprias métricas de alcance. Mas, quando se vai analisar o ranking oficial do Ibope, a emissora nem sequer aparece entre os 15 canais mais assistidos da plataforma de pay TV. Mágica total.
Outro exemplo de recorte mirabolante é quando a emissora soma minutos de liderança de um mesmo programa em diferentes praças. Ou seja: se o programa lidera 5 minutos em São Paulo, 5 em Minas Gerais e 5 no Rio, tudo no mesmo instante, eles contam como 15 minutos de liderança. Isso é errado porque não reflete o tempo real de liderança, mas sim uma duplicação artificial que distorce os números e passa uma impressão inflada para o mercado.
Infelizmente, a falta de profissionais especialistas sobre métricas de audiência na mídia faz com que recortes baseados em resultados furados encontrem espaço para divulgação.
Percebendo essas jogadas e em respeito ao leitor, desde setembro de 2025 o NaTelinha só publica dados de audiência quando a fonte é a medição do instituto Ibope. Mesmo assim, para evitar 'pegadinhas', os recortes passam por uma rigorosa análise.
“Nos últimos meses, algumas emissoras passaram a divulgar seus próprios números de alcance, principalmente nas redes sociais e métricas digitais. Esses números são confusos e de origem duvidosa, apresentando risco de duplicação de audiência. A circulação dessas informações confunde anunciantes, agências e o público, gerando no mercado publicitário uma percepção distorcida sobre o real retorno dos investimentos em mídia. O NaTelinha, por ser um veículo de referência em seu segmento, não pode compactuar com esse cenário”.
Trecho do comunicado publicado pelo NaTelinha em setembro de 2025
Ibope e a falta de medição de audiência em todas as plataformas
Ao mesmo tempo, em partes, essa confusão de recortes também ocorre pela ausência, no Ibope, de uma parametrização capaz de medir de forma eficaz a deduplicação de audiência, especialmente neste momento de pulverização do espectador nas diversas plataformas digitais. Sem isso, cada um divulga o que quer. Até falsas lideranças. É necessário uma padronização.
Hoje, para o mercado publicitário fora da Globo, muitas vezes saber se um programa foi líder nem sempre importa. O que realmente define o investimento é o prestígio e a performance no perfil de público que a atração se propõe a atingir.
Os atuais recortes enviesados de audiência acabam atendendo mais às vaidades internas e inflando as redes sociais do que refletindo um aumento real no faturamento da rede.
Já os canais de TV, antes de buscarem narrativas mirabolantes, precisam olhar primeiro para a melhoria de sua programação. Ninguém deveria tentar vender panela queimada e velha; se for, pelo menos tenta dar uma ariada.