Globo erra em A Nobreza do Amor ao dramatizar apenas o racismo velado
A Nobreza do Amor traz representatividade negra e ancestralidade na TV, mas a Globo retrata o racismo de forma velada
Publicado em 28/04/2026 às 04:44,
atualizado em 28/04/2026 às 10:21
A Nobreza do Amor é hoje a melhor novela inédita na grade da Globo. A saga da princesa Alika (Duda Santos), herdeira do reino africano de Batanga, é utilizada de forma muito inteligente para que os telespectadores possam conhecer melhor a riqueza da cultura negra, como a moda e religião. Mas quando a produção busca retratar o racismo da década de 20, é quando erra pela falta de coragem. Tudo é muito velado.
Os personagens nunca expressam o racismo de forma clara. Na última semana, por exemplo, Graça Bonafé (Fabiana Karla), ao ver Alika/Lúcia sentada em um restaurante sofisticado ao lado de pessoas bem-sucedidas, afirmou que aquela amizade “não combina com ela”. Questionada sobre o motivo, desconversou: “deixa pra lá, vamos mudar de assunto”. Claro que ela disse a frase por Alika ser negra, mas o preconceito inserido na história foi sutil.
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Essa sutileza se repete em várias cenas em Nobreza do Amor, como se fosse uma espécie de “racismo politicamente correto”, palavras que dificilmente poderiam coexistir numa mesma frase.
Em outros momentos, Alika/Lúcia até enfrenta algumas situações em que reconhece que as dificuldades existem por ser negra. Mas tudo ainda é muito romantizado. Os autores precisam ter mais coragem.
Se ainda hoje nos indignamos com casos de preconceito racial que acontecem diariamente, imagine o que ocorria em uma sociedade da década de 1920, apenas 32 anos após a Lei Áurea. A realidade é mais cruel que a ficção.
Aliás, me chama atenção que A Nobreza do Amor parou de colocar no ar a música Homem Nagô, do grupo Os Tincoãs, feita em homenagem ao Candomblé, ou que tenha diminuído, até aqui, a presença da parteira e benzedeira Dona Menina (Zezé Motta).
A Nobreza do Amor vale ser assistida
É uma novela das seis gostosa de assistir e ao embate entre Alika/Lúcia com Virgínia (Theresa Fonseca), a mais formosa de Barro Preto, é divertidíssimo. Gosto também da ideia de mostrar personagens negros fortes e inspiradores, como o filme Pantera Negra mostrou nos cinemas.
Inclusive, a cena exibida na última semana, em que Alika e Niara (Érika Januza) salvam o desfile de Eugênia (Anajú Dorigon) com um novo vestido, usando a técnica de amarração e todo o seu desenrolar, foi linda, emocionante e histórica.

A Nobreza do Amor é uma novela que não apenas entretém, mas também abre espaço para reflexões sobre ancestralidade e representatividade na TV.
Por isso, ao mostrar apenas o racismo velado, a Globo pode estar perdendo a oportunidade de educar milhões de telespectadores que acompanham uma novela das seis. Tudo depende da abordagem. Retratar o racismo não significa difundir algo doentio e criminoso, mas sim transformar a narrativa em instrumento de educação.