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Sexo, mentiras e violência são os pontos fortes e fracos de "Justiça"

Estação NT

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Divulgação/TV Globo
Redação NT

Publicado em 22/08/2016 às 23:58:48

Durante a cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio, o tom nas redes sociais (a segunda telinha dos telespectadores/internautas) era de melancolia. Terminada a euforia dos Jogos no país tropical, em breve começaria o lado avesso e igualmente televisionado deste mesmo país: propaganda eleitoral, impeachment, a realidade. Pelas chamadas de “Justiça”, a minissérie que a Globo estreou nesta segunda-feira (22), é uma teledramaturgia crua, plena de realismo, o seu principal tema.
 
A parceria entre Manuel Dias e José Villamarim, respectivamente no roteiro e na direção, não surpreende quem acompanha as últimas produções de ambos na emissora, como a adaptação de “As Ligações Perigosas” (2015) feita por Dias e a condução de trabalhos como “o Rebu” e “Amores Roubados” (ambos de 2014) por Villamarim.
 
Os dois não escondem a preferência pelas histórias tão calcadas nos conflitos urbanos que as suas tramas chegam a flertar com o obsceno (na sexualidade, na violência e etc.). 
 
Em seu primeiro capítulo, “Justiça” mostra que terá pouca piedade de seu público.
 
O enredo, tal qual sugere o título, se propõe a andar pelos bastidores de crimes chocantes cometidos por alguns de seus personagens por diferentes motivos, e que após livres, buscam vingança/redenção. Elisa (Débora Bloch) assiste a filha Isabela (Marina Ruy Barbosa) ser assassinada pelo noivo ciumento Vicente (Jesuíta Barbosa). 
 
 
Entrecruzando-se, há os dramas de Fátima (Adriana Esteves), presa após a emboscada do vizinho, a universitária Rose (Jéssica Ellen) pega com porte de drogas, mas sendo negra, não tem o mesmo destino da amiga branca, também flagrada na mesma situação. A eutanásia praticada por Maurício (Cauã Reymond) a pedido da esposa Beatriz (Marjorie Estiano), atropelada por um político inescrupuloso (interpretado por Antonio Calloni), promete, por sua vez, render fartas lágrimas.
 
Diga-se promete porque todas estas histórias são exibidas seguindo a quebra de linearidade, com as ações ocorrendo ao mesmo tempo, em diferentes pontos de Recife. A ligação entre as tramas é sugerida pelo recurso esperto de surgirem fora da moldura narrativa, ou seja, na manchete de jornal lida por uma Elisa dilacerada, enquanto o atropelamento de Beatriz está na chamada ao lado.
 
Os personagens reunidos e ao também isolados, estranhos uns aos outros na mesma sala da delegacia, tornou o capítulo ainda mais interessante, convidando o telespectador a agarrar o fio condutor das tramas, sem receber nada pronto.
 
Por trás da crueza, a minissérie também discute a violência invisível das relações sociais, como a vida vazia dos ricos Vicente e Isabela, embalados a sexo e bebida, enquanto Fátima assiste a tudo da porta da cozinha, pois é empregada de Elisa. Neste ponto, a produção lembra os filmes nordestinos recentes, como “O Som ao Redor”.
 
 
A intenção de se unir à realidade mundo cão brasileira, exibida diariamente na imprensa, é tão forte em “Justiça” que traz inovações na linguagem, é claro. As ações e diálogos são mais importantes do que os cenários (nada de cenas turísticas de Recife), e tais movimentos dos atores em cena é extremamente naturalista, através de luz e sombras, atrizes sem maquiagem, falas ditas aos borbotões, enquadramentos no banheiro, na cama, na rua.
 
O incômodo em “Justiça” fica, por outro viés, justamente nas cenas escancaradas, sem metáforas. Isabela deitada no sangue e as cenas de sexo animalescas entre os casais atrapalham a trama, dando a entender que, para cometer atos extremos, precisamos chegar a total irracionalidade. É daí que a minissérie patina, pois não se diferencia do sensacionalismo que pretende denunciar. Mais complexidade humana e menos carne exposta faria “Justiça” mais imperdível.
 

Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há sete anos.
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