Claudia Alencar relata agressões do pai, do namorado e da Ditadura: "a vida é mais cruel que a arte"

"Quando meu pai viajava era um alívio", relembra

Cláudia afirma que nunca fez sexo forçado, ao não ser na época da Ditadura - Divulgação

Publicado em 18/05/2017 às 11:19:44

Por: Sandro Nascimento com Thiago Forato

A atriz Claudia Alencar, 66, sobreviveu. Sobreviveu às violências físicas do pai, ao abuso sexual na época da Ditadura Militar e às agressões de um namorado já na fase adulta.

"Muito bem, bonita e gostosa", comemora ela em entrevista exclusiva concedida ao NaTelinha por telefone, depois de ter passado por períodos traumáticos em sua vida.

Mas engana-se que o pai de Claudia batia nela e em sua mãe porque nutria vícios. "Ele não batia por beber, não", relembra ela, que conta um episódio em que seu pai a fez desmaiar depois de ter quebrado o portão de casa.

"A vida é mais cruel que a arte", sintetiza ela.

Em meio ao caos políticos que o país atravessa, Alencar se mostra ferozmente contra o que alguns pedem: a volta da Ditadura Militar. A atriz, que sofreu com o período, compara: "Eles não roubavam, mas matavam! O que você prefere?".

Confira a entrevista e os relatos de Claudia Alencar na íntegra:

NaTelinha - Nesse relato que você fez, durante sua carreira, como administrou?

Claudia Alencar - Na verdade era assim: meu pai era muito autoritário, minha mãe é uma bióloga, e ele sociólogo. Fui casada apaixonadamente, mas meu pai teve um problema de infância com a família muito grande.

Por causa disso, acho que se tornou uma pessoa autoritária, com surtos de agressividade tremendo. Mamãe trabalhava, era uma mulher independente. O que vem à cabeça como a mulher independente não se separa de um homem agressivo. Ela não se separou. Papai bateu muito nela, e na frente das pessoas, xingava. Passei minha infância, minha juventude, adolescência nesse clima de horror. Quando meu pai viajava era um alívio.

NaTelinha - Ele tinha algum vício?

Claudia Alencar - Ele não bebia em casa. Às vezes ele saía à noite. Mas ele não batia por beber não. Uma vez, por exemplo, ele tava vendo TV, tinha 20 anos, vim pra casa, moravámos no Morumbi, o portão era de ferro. Batemos ele pra sair e quebrou de um lado. Tava enferrujado. Aí falei: "papai, o portão quebrou. Era meu namorado".

Aí ele falou: "Quebrou o portão, que não sei o quê...", começou a me perseguir pela casa toda. Do nada. Ele deveria ter um transtorno mesmo. E como eu respondia, como nem minha mãe e meu irmão peitavam ele.... Eu não ficava quieta.

Mas mesmo minha mãe ficando quieta, ela apanhava. Ele me jogou no chão, no corredor, até eu desmaiar. Aí eu acordei na minha cama. Aí escrevi tudo como aconteceu. Exatamente.

E quando eu tinha 41 anos, grávida da minha filha, escrevi uma peça baseada nisso, dirigi, foi encenada no Lauro Alvim, e se chamava "O Homem Não Deu Certo, Mamãe". As críticas elogiaram muito, maravilha a peça, muito bom... Mas o pai queria matar a filha por que o o portão quebrou? A vida é mais cruel que a arte. Você pode imaginar qualquer alien, mas a vida é mais do que alien.

NaTelinha - Você passou por tudo isso e, olhando pra trás, o que você sente quando você pensa no seu pai?

Claudia Alencar - Eu vou te falar, na época eu queria muito matar meu pai. Não que eu fosse matar, mas eu sei que eu tinha... Até me culpava por ter esse pensamento. Mais tarde, com 20 e poucos, 26, mais velha, eu perdoei meu pai. Saí de casa com 24 anos, nunca mais voltei. Mesmo com problema financeiros, nunca pedi dinheiro pra ele. Não esqueci.

Não foi completamente digerido, mas foi cicatrizado. E minha missão era ter uma família feliz. E eu tive uma família feliz. Fiz de tudo pros meus filhos serem felizes. A ponto de por exemplo, eu brincar com minha filha com 20 anos em casa, com tudo escuro, gritava, dava risada. E ela: "mãe, mãe, mãe, felicidade mata?". Ela achava que felicidade matava.

NaTelinha - Além de passar por tudo isso, você ainda enfrentou situações semelhantes com seu namorado...

Claudia Alencar - Esse namorado que quebrou o portão, eu casei com ele, mas eu já tinha sete anos de namoro. E no casamento, perdi a admiração por ele e me separei. Engatei com esse meu namorado e ele... Era figura do meu pai. Os pais dele se batiam. O pai batia na mãe. Era o mesmo modelo.

Escrevo diário desde os 12 anos, e quero deixar claro que a arte salva, a música salva. A arte faz você purgar seus pensamentos. Sempre fui uma pessoa delicada, alegre, curiosa, nunca fui agressiva nem rancorosa, porque eu tenho a arte e a espiritualidade. Fui encontrando aos poucos por mim mesma.

O que aconteceu é que eu vi que eu tava repetindo padrão. Vi que casei com meu pai. Batia e pedia desculpa. O meu pai não pedia. Mas ele pedia, dizia que entrava em surto. E a gente se entendia muito intelectualmente, tínhamos muitas afinidades. Mas, chegou num momento... Era um surto.

Tipo assim, com 27 anos fiz minha primeira protagonista no teatro com Marco Nanini, e saindo de casa pra estreia, não imaginava... O nervosismo que eu tava... Aí ele inventa uma briga e me joga um banquinho de madeira maciça e pegou na minha coxa. OK, vou embora, quando chego no teatro, minha coxa tá preta! Preta! Porque eu tenho fragilidade capilar, e qualquer batida acontece. E tinha uma cena que o Nanini tirava meu casaco, e ele me virava, e não queria que me virasse, porque aparecia. A gente abaixava e fazia amor, com a luz fechada, enfim...

Fui no trabalho com o rosto inchado e com a parte esquerda inchada e roxa

Claudia Alencar

Não sei como eu superei. Não sei como eu consegui fazer a peça. Não sei como consegui fazer várias coisas na minha vida depois de ser abusada tanto, tanto. O ser humano é muito forte.

Li no UOL que uma moça da Paraíba foi espancada pelo marido e foi denunciar. O delegado falou: "não! o armário caiu em cima de você". Tá na primeira página.

NaTelinha - Isso em 2017...

Claudia Alencar - Estamos no século XII! A Madonna ganhou um prêmio ano passado, e o discurso dela era: "Agora vou falar a verdade. Quando era casada com o Sean Pean, porque era uma mulher casada. Depois que casei, fiz o livro Sexy". Eu tenho esse livro. O livro que ela faz com homens, mulheres, nua, com suruba, tudo que ela quer fazer. E com arte. É lindo o livro. Não é pornografia. É arte.

NaTelinha - Você tá me relatando isso e fico imaginando você chegando na Globo... Aconteceu de você chegar com olho roxo lá e inventar uma desculpa?

Claudia Alencar - Aconteceu quando eu era mais nova, tinha 27 anos, até os 30 anos. E eu trabalhava em São Paulo num Instituto de Pesquisas e Teatro. Tenho quatro livros de pesquisas teatrais que sou autora. Eu era acadêmica. Aí eu tava com esse namorado, e realmente fui nesse trabalho com o rosto inchado e com a parte esquerda inchada e roxa. Com a parte esquerda da mão roxa.

Ele era um ator na época e todo mundo sabia do gênio dele. Perguntavam o que acontecia e eu: "Caí da escada! Tava pegando um livro na instante e caí!".

Lembro da cara delas... Claro que não acreditaram, mas eu não tinha coragem de falar, de denunciar. Eu tinha medo. Por quê? Porque tinha medo que ele voltasse com o revólver e ia me matar. Ele subiu no teto da minha casa e cortou a linha telefônica.

NaTelinha - Você passando por isso, ele dando surtos, batendo, em algum momento ele te obrigou a fazer sexo com ele?

Claudia Alencar - Não, não, não, não. Eu nunca fiz sexo forçado, a não ser na Ditadura. Nem com namorado, nem com marido. Só fiz sexo quando eu queria fazer sexo porque é uma das minhas regras da vida. A gente tinha uma relação sexual muito boa. Mas ele nunca me estuprou. Não, não, não. Isso não.

NaTelinha - Isso aconteceu na Ditadura, né?

Claudia Alencar - Pois é... Então, deve ser por isso que eu gosto de fazer quando eu tenho vontade mesmo. Tenho várias amigas que depois descobri que faziam sexo sem vontade. A mulher não pode fazer sexo sem vontade. Eu falo isso na minha palestra, "Dominatrix", nós nunca devemos fazer sexo sem vontade. Nunca devemos fingir orgasmo. Temos que ser verdadeiras com nosso companheiro.

Nota da redação: No período da Ditadura, Cláudia ficou presa por 20 dias. O motivo: ela foi "dedurada" quando estava num grupo de teatro porque queria mudar o país. Presa, os militares a colocaram no pau de arara e também a estupraram.

NaTelinha - Esse relato é importante com um cenário político adverso e muita gente pedindo a volta da Ditadura, não tendo ideia do que é...

Claudia Alencar - Pois é... Ahhhh o Castelo Branco não roubou, o outro tinha só... E eu falei: "Fuck yourself!". Eles não roubavam, mas matavam! Quem você prefere? O Brasil, eu lutei pra que fosse o melhor país do mundo. A esquerda me traiu. Toda ela. A Rússia, todo mundo me traiu. Aqui me traíram. O José Dirceu, que com 14 anos eu vi um discurso dele, o filho da p*** roubou, roubou, roubou. E dá uma Bolsa Família? Ah, fuck!

NaTelinha - O seu depoimento tem um peso maior pelo que aconteceu com você e por ter vivido uma época que muitos só leem no livro...

Claudia Alencar - Exatamente. E eu ter sobrevivido pra contar. Vivi, sobrevivi pra contar. Muito bem, bonita e gostosa. E vou dizer uma coisa, falo assim: "A musa dos anos 80".

E vem meus amigos e falam: "Você é a musa do século XXI!". Tô aqui pra viver. Não me matem. Sou exemplo, é a palestra que dou. Sou uma sobrevivente.

NaTelinha - Além de tudo isso, você tá fazendo teatro? Como está hoje?

Claudia Alencar - Faço muito coach para atores. Eles vêm a mim. E eu tenho um grande número de atores que faço coaching individual. Vou fazer em São Paulo da DMC, workshop. Vou fazer um curta-metragem sobre a doença ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), e o pessoal que vai fazer, os melhores farão um filme. É uma doença até horripilante. Tô até no lucro. Os neurônios dos músculos vão atrofiando. Os do pulmão não vão mais acontecer, você não consegue respirar, mas você fica lúcido o tempo todo. Você vai morrendo e você fica lúcido.

Vou fazer esse curta pra mostrar a superação. É isso que quero mostrar. A superação apesar da doença.



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