Estreia de "Pega Pega" exagera na leveza e quase cai na banalidade

Reprodução/TV Globo

Publicado em 06/06/2017 às 21:01:11

Por: Ariane Fabreti

Em tempos de manchetes incendiárias provocadas por escândalos políticos, a mudança de título de “Pega Pega”, a novela das 19h que estreou nesta terça-feira (06) na Globo, não soa tão deslocada quanto parece.

O título inicial, “Pega Ladrão”, que chegou a ser divulgado na imprensa, foi substituído justamente por causa do clima pesado nos noticiários. Clima que, como bom entretenimento, as novelas dessa faixa horária da emissora carioca tentam dissipar há décadas.

A abertura embalada por uma versão cover de “A Hard Day’s Night” dos Beatles e com referências aos filmes antigos de mistério (olhares por trás de persianas, ladrões fugindo de holofotes policiais em cenários coloridos) esclarece essa proposta de leveza embutida em uma trama que orbita em torno de um roubo milionário aos cofres do hotel luxuoso Carioca Palace, local cujas indicações são diretas ao Copacabana Palace da vida real e ao seu herdeiro extravagante Chiquinho Scarpa, aqui inspirado no personagem Pedro Guimarães, vivido por um Marcos Caruso livre e solto no papel.

A partir deste argumento simples, os personagens são apresentados sem demora, quase aos tropeços. O concièrge ganancioso Malagueta (Marcelo Serrado), a camareira ambiciosa Sandra Helena (Nanda Costa), os demais funcionários Júlio (Thiago Martins) e Agnaldo (João Baldasserini), todos responsáveis pelo roubo, investigados no estilo gato-e-rato pela policial Antônia (Vanessa Giácomo).

O empresário Eric (Mateus Solano) e a outra herdeira do hotel, Luiza (Camilla Queiroz, talhada para o papel de mocinha), preenchem com carisma a função de par romântico.

Essa apresentação ligeira dos personagens e da trama central não esconde as fontes usadas pela autora estreante Cláudia Souto, colaboradora de Walcyr Carrasco e de programas humorísticos como “Casseta & Planeta”: desde as chamadas comédias amalucadas de Hollywood nos anos 30 e 40, com seus diálogos rápidos e casais atrapalhados, até as chanchadas brasileiras que faziam rir com a malandragem.

A experiência do diretor Luiz Henrique Rios em tramas românticas como “Totalmente Demais” complementa a descontração de “Pega Pega”. Infelizmente, uma descontração que, neste primeiro capítulo, se mostrou quase descartável.

Muitos momentos da estreia pareceram inverossímeis de tão apressadas, como Luiza acompanhando Eric ao IML no primeiro encontro amoroso entre os dois, e a fuga abobada de Bebeth (Valentina Herzsage), filha adolescente de Eric, que enxerga um canguru de pelúcia (?) falando com ela. Muitas interpretações, inclusive de atores veteranos, pareceram inconsistentes, prestes a se desfazer sob a iluminação festiva (até demais) dos cenários suntuosos.

Diante de uma trama adulta tal qual a antecessora “Rock Story”, a estreia de “Pega Pega” deve tomar cuidado para não levar a irreverência ao limite da banalidade. A brincadeira infantil, na teledramaturgia atual cada vez mais exigente, precisa ficar apenas no título.


Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há oito anos.



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