"Conversa com Bial" poderia aprender a arte do desbunde com o "Lady Night"

Divulgação/TV Globo

Publicado em 05/05/2017 às 11:58:03 , atualizada em 05/05/2017 às 12:06:46

Por: Ariane Fabreti

Durante décadas o espectador encontrou este cenário familiar: caneca com seu conteúdo misterioso, a banda ao vivo, a plateia participativa, o sofá que recebia convidados para uma conversa informal. O chamado talk-show, gênero televisivo que nasceu e cresceu nos Estados Unidos desde o auge do rádio.

Do lado de cá, Jô Soares dominou o formato primeiro no SBT e depois na Globo, importado dos americanos nos mínimos detalhes. Com o fim melancólico do “Programa do Jô” em 2016, o gênero, em vez de minguar, explodiu em praticamente todas as emissoras. Desde o “The Noite” no SBT comandado por Danilo Gentili, passando pelo "Programa do Porchat" na RecordTV, até o “Adnight” de Marcelo Adnet na emissora dos Marinho. O terreno fértil dos talk-shows ganhou neste mês mais duas contribuições. “Lady Night” no Multishow e “Conversa com Bial” na Globo, apresentados respectivamente por Tatá Werneck e Pedro Bial.

O sofá, a plateia, a banda, todas as características essenciais do formato estão nessas empreitadas mais recentes, mas em especial o escracho e o diálogo com a atualidade. Elementos que Tatá Werneck domina em seu programa, à vontade enquanto conversa com atores e ex-BBBs ou faz indagações impertinentes no hilário “Pergunte ao Especialista”. Até mesmo o cenário brinca com os clichês do gênero, colocando peças de decorações cafonas em diversos pontos do estúdio que se pretende cosmopolita.

Herdeiros do humor anárquico que produziam na finada MTV, Adnet e Tatá se diferenciam agora pelo grau de intimidade mostrado com o formato nos quais se aventuraram. Mesmo que o Multishow pertença à Globo, a proposta do canal pago junto a um público mais jovem e menos propenso ao marketing da emissora carioca estimula o desbunde de sua apresentadora no “Lady Night”, ousadia que faltou ao “Adnight”: engessado, constrangido pela autopropaganda imposta nas entrevistas com os convidados do próprio Projac. No hiato de Adnet, que retornará no segundo semestre, o “Conversa com Bial” é a atual opção para o fim de noite desde terça-feira (02).

Menos comediante e mais investigador, condizente ao seu ofício de repórter, Pedro Bial padece de mal semelhante ao de Adnet. As suas entrevistas com convidados de prestígio (a ministra do Supremo, Carmen Lúcia, e Rita Lee) têm certa densidade e o verniz intelectual carimbado do apresentador, e ainda assim parecem reprimidas, cronometradas, sem novidades antes mesmo de irem ao ar.

A trilha sonora certinha e a reação pontual da plateia pioram tal impressão, confirmando que o gênero talk-show depende menos da vontade de trocar conversas e mais da habilidade em se deixar levar por estas conversas, aspecto que a Globo parece ainda não ter entendido.


Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há oito anos.



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