Executivo da Simba fala sobre disputa com a TV paga e analisa queda de audiência: "isso é ótimo"

Joint-venture representa RecordTV, SBT e RedeTV! na cobrança por seus sinais digitais

Marco Gonçalves foi contratado para ficar à frente da Simba Content

Publicado em 02/04/2017 às 08:30:41

Por: Sandro Nascimento

Uma guerra de gigantes. Com o fim do sinal analógico na última quarta-feira (29) na Grande São Paulo, RecordTV, SBT e RedeTV! retiraram suas programações do line-up das principais operadoras de TV a cabo no país.

A partir de agora, para ofertar a seus assinantes os três canais em alta definição, as teles terão que negociar com a programadora Simba Content, joint-venture criada pelas redes de Edir Macedo, Silvio Santos e Amílcare Dallevo e Marcelo de Carvalho. "A Simba vai ser uma Globosat dessas três emissoras e que pretende até no futuro, virar uma Netflix. É uma tendência", explica Marco Gonçalves, representante da Simba Content.

Em entrevista exclusiva ao NaTelinha, o executivo revela que a única operadora que não está aceitando negociar é a Sky. "Ela vive só da distribuição de conteúdo e vai brigar com quem quer prover conteúdo? É no mínimo um tanto esquisito isso, né?", diz.

Marco Gonçalves nega que esteja cobrando um preço muito alto para as operadoras carregarem a programação de RecordTV, SBT e RedeTV! e justifica: "Quanto custa para produzir uma Globo News e um canal Off? É caro ou barato? As operadoras de TV por assinatura não produzem nada. Elas não podem classificar como caro ou barato. Isso porque não tem a mínima ideia de quanto custa. É difícil você colocar preço no trabalho dos outros. As operadoras podem dizer se elas conseguem ou não vender para o cliente final. Posso te falar de outra forma. Será que o preço que a gente encontra para assinatura tá caro ou barato? Um pacote básico por R$ 150 ou R$ 200, é barato ou caro? Quanto que de fato o consumidor assiste TV por assinatura e quanto tempo ele gasta em canais que sejam efetivamente pagos, é caro ou barato para o consumidor? O que a gente vai tentar fazer é aquilo que caiba dentro do orçamento das operadoras".

Segundo o executivo, a queda de audiência sofrida pela emissoras nos primeiros dias fora do cabo, ajuda nas suas negociações. "O perfil dos meus telespectadores é extremamente importante para essas operadoras de TV paga, se não minha audiência não teria caído. O mercado de televisão foca só na audiência, mas é uma leitura de business. Acho isso maravilhoso, queria que caísse mais. Nós temos 20% da audiência da TV paga no país. Operadoras de TV por assinatura, prestem a atenção: o seu cliente assiste o SBT, a RedeTV! e a RecordTV e você vai sofrer uma pressão deles", brada.

Rodrigo Faro, Luciana Gimenez e Ratinho fizeram chamada conjunta anunciando o desligamento do sinal analógico em São Paulo

Confira a entrevista na íntegra:

Qual a expectativa da Simba em relação à solução do problema com as operadoras?

Marco Gonçalves - Nós estamos falando com as operadoras, já abrimos as negociações. Estamos discutindo valores com a VivoTV e a expectativa é que num curtíssimo prazo a gente chegue em algum tipo de acordo. Mesmo as outras operadoras a gente acredita que na semana que vem retome o contato. Elas já procuraram a gente, a ideia é buscar uma solução, um acordo.

Existe alguma operadora que não queira sentar para negociar?

Marco Gonçalves - A única que está mais reticente é a Sky, ela não nos procurou de novo ainda. Todas as outras procuraram.

Então existe uma conversa com a Net e a Claro?

Marco Gonçalves - Exatamente. Elas já nos procuraram. Eu ainda não sentei para negociar, mas nos falamos por telefone e vamos conversar sim.

Num cenário de acordo com as operadoras, o que o assinante pode aguardar sobre o conteúdo da Simba no cabo?

Marco Gonçalves - A Simba, até pelo jeito que ela foi criada, está estipulado na regulamentação do CADE, ela vai ter que destinar pelo menos, mas pode ser mais, 20% da receita para desenvolvimento de novos conteúdos. Então, a Simba vai prover novos conteúdos para a TV paga, esse é o objetivo dela, se tornar uma grande provedora de conteúdo.

Isso significa compra de direitos de transmissão de eventos? Como o futebol e o Carnaval?

Marco Gonçalves - Exatamente. A gente pode adquirir conteúdo de fora, comprar direitos de transmissão aqui no Brasil, pode ser várias coisas.

Segundo informações de mercado, a Simba estaria cobrando um valor muito alto para as operadoras, em torno de 15 reais por assinante. Isso é verdade?

Marco Gonçalves - O que é um preço alto? Quanto custa para produzir um canal? Quanto custa para produzir um conteúdo que a gente faz? Quanto custa para produzir uma Globo News e um canal Off? É caro ou barato? As operadoras de TV por assinatura não produzem nada. Elas não podem classificar como caro ou barato. Isso porque não tem a mínima ideia de quanto custa. É difícil você colocar preço no trabalho dos outros. As operadoras podem dizer se elas conseguem ou não vender para o cliente final.

Posso te falar de outra forma. Será que o preço que a gente encontra para assinatura tá caro ou barato? Um pacote básico por R$ 150 ou R$ 200 é barato ou caro? Quanto que de fato o consumidor assiste TV por assinatura e quanto tempo ele gasta em canais que sejam efetivamente pagos, é caro ou barato para o consumidor?

O que a gente vai tentar fazer é aquilo que caiba dentro do orçamento das operadoras. Também não adianta eu vender para eles um produto que eles não conseguem comprar. O que nós estamos tentando é chegar num bom termo, chegar em algo que seja aceitável para eles e que não precisem repassar para o consumidor final. Existe várias maneiras disso ocorrer. Eles não podem se apegar exatamente no quanto eu estou cobrando de fato pelo canal, pode ter vários mecanismos de cobrança. Por exemplo, o assinante novo vai custar "X" porque deu tempo dele readequar a programação dele. Do mesmo jeito que ele pode questionar que meu conteúdo é caro, eu posso questionar do que ele está cobrando do assinante é justo.

Vice-presidente da RedeTV!, Marcelo de Carvalho explicou a guerra em comercial veiculado em sua emissora

Reclamam que pagam por um sinal que é de graça...

Marco Gonçalves - Já que eles dizem que é de graça, tenta fazer o seguinte com as operadoras: "Olha, eu quero só a TV aberta, mas eu quero receber através do seu decoder e com internet. Vamos fazer esses dois juntos?". Se é cortesia, não custa nada. Lógico que eles não vão topar. É uma argumentação meio lógica. Não tô querendo dizer com isso, que a gente tá fincado num valor já pré-estabelecido. Eu acho que a discussão que nós estamos tendo aqui é de uma mudança de paradigma. Cada vez mais, o cliente vai ditar e escolher o que ele quer assistir.

Mas o valor oferecido para as operadoras é de R$ 15 por assinante. Isso procede?

Marco Gonçalves - Não procede com a verdade. Existem parâmetros, não tem como eu te dar um preço, porque várias coisas influenciam na maneira que serei remunerado pelo meu conteúdo. O volume influência e a quantidade de assinantes. Então falar que o preço que está sendo pedido é "X" é mentira. O que a gente tá falando é: "Olha, os novos assinantes é 'X', você pode cobrar e deixar o cara decidir se o quer levar o canal ou não".

Seria à la carte?

Marco Gonçalves - Não. O que eu estou dizendo é o seguinte, para os novos assinantes ele pode dizer: "Olha, o pacote básico agora custa isso, mas inclui estes aqui". Ele pode montar a grade. Tem coisas que infelizmente ele não precisa vender. Quantas vezes alguém da periferia assistiu o The History Channel em inglês? Então não é um preço específico, não dá pra dizer: "Eu tô cobrado 10 reais, 15 reais ou 20 reais". Agora, quanto vale meu conteúdo? Eu acho que meu conteúdo possa valer R$ 15 ou R$ 20, mas eu posso dar desconto. Se eu tiver 10 milhões de assinantes, o preço pode ser um pouco menos, se eu tiver que fazer todo o esforço para vender só pra 100 mil, de repente eu vou cobrar um pouco mais. Não tem um preço fixo que eu vou pagar por assinante, é variável.

Por exemplo, eu posso dizer: "Eu quero que você compre aqui e eu me comprometo em lançar novos produtos que me comprometi com o CADE e se eu não trazer novos conteúdos o preço vai ser menor". Não existe uma especificação que estamos oferecendo por 15 reais, isso é mentira. Quem diz isso é porque tá com preguiça de sentar na mesa para negociar e só leu a proposta nua e crua e quis pegar isso pra criticar.

As operadoras reclamam que não chegou nenhuma proposta a tempo para negociar antes da retirada dos sinais da RecordTV, SBT e RedeTV!.

Marco Gonçalves - Isso é mentira. A Sky inclusive disse que não queria sentar e pediu que a proposta fosse enviada por e-mail e é o que foi feito. Ela não pode falar que não recebeu. Só se tenha bloqueado meu e-mail, pode ter acontecido, ficou tão chateado da reunião que foi e me bloqueou. Se ele não recebeu, foi porque não quis, é diferente. Eu tenho o e-mail que posso imprimir e te mostrar, eu tenho a prova de São Tomé.

A Sky tem esse histórico de ser mais dura nas negociações, nê?

Marco Gonçalves - Eu não diria que são mais duros, eu diria que de fato não é ser inteligente. O que a Sky ganha em brigar com aquele que quer prover conteúdo pra ela? O que a Sky consegue vender se não tiver conteúdo? Nada. Até porque a Sky é um dinossauro que vai deixar de existir, uma espécie em extinção. Porque no final das contas, é a única que não tem celular, é a única que... tenta contratar um serviço de internet da Sky. Não existe. Ela vive só da TV por assinatura, ela vive só da distribuição de conteúdo e vai brigar com quem quer prover conteúdo? É no mínimo um tanto esquisito isso, né?

O produto que ela entrega para o cliente é programação. Se não tiver programação, o que adianta eu ter uma antena Sky? Artigo de decoração da minha casa? Ela pode fornecer internet para seus clientes? Não pode. Agora, na Claro e na Vivo, o cara pode simplesmente fazer só um pacote de internet sem assinar conteúdo. Então o assinante escolhe pela internet o que ele quer assistir. Então essas empresas proveem serviço para seus clientes e a Sky é um mero meio de distribuição de conteúdo.

Mas se esse é o jeito que ela consegue mostrar que tá preparada pra lidar com o público, quem briga deste jeito não tá preparada para lidar com o público, não é? Talvez tem que pensar o que eles querem fazer da vida.

Até que ponto a perda de audiência das emissoras que compõem a joint-venture era esperada?

Marco Gonçalves - De fato essa queda ocorreu. Agora você tem duas maneiras de fazer essa leitura. Uma queda de audiência horrorosa ou você pode ver de outro jeito, que é do jeito que eu leio: "A gente estava certo". Caiu a audiência porque nossos telespectadores assistem através do cabo e eles são importantes dentro do cabo. O cabo tem muito mais a perder do que a gente. Porque o que vai acontecer, meu telespectador vai ter que correr atrás da antena, do conversor pra poder assistir meu programa, mas ele assistia através do cabo.

Isso significa que minha audiência é extremante relevante. Porque a maioria das pessoas está focada na queda da audiência e dizer que isso é ruim, não, isso é ótimo para minha negociação. Isso significa que todos os clientes destas operadoras, de fato, assistem o SBT, a RedeTV! e a RecordTV através do cabo. Então o perfil dos meus telespectadores é extremamente importante para essas operadoras de TV paga, senão minha audiência não teria caído.

O mercado de televisão foca só na audiência, mas é uma leitura de business. Acho isso maravilhoso, queria que caísse mais. Nós temos 20% da audiência da TV paga no país. Operadoras de TV por assinatura, prestem a atenção: o seu cliente assiste o SBT, a RedeTV! e a RecordTV e você vai sofrer uma pressão deles.

Só esperando como vai se comportar o call center neste final de semana. O que eles estão fazendo, se a pessoa liga e pede para cancelamento, eles derrubam a ligação.

Sobre a VivoTV, um acordo pode ser anunciado na próxima semana?

Marco Gonçalves - Olha, eu acho que esse acordo tem que ocorrer. Porque não dá pra ficar ficar com isso aberto durante muito tempo. Não é bom pra eles e nem para mim, quanto mais rápido fechar o acordo melhor pra mim é. Não temos o objetivo de ficar postergando ou procrastinando de propósito a assinatura de um acordo. A gente quer fazer um acordo o mais rápido possível. Não tem porque a gente ficar prolongando não.

Deve sair na próximo semana então?

Marco Gonçalves - Eu espero. A gente pode chegar a um acordo preliminar, já tem uma base de preço, mas contrato tem questão de parte legal que pode demorar mais um pouco. Isso eu não posso de dizer agora, da minha parte, mas espero conseguir um acordo num espaço de tempo curto e não longo.

A Simba vai ser a Globosat da RecordTV, SBT e RedeTV!?

Marco Gonçalves - A Simba vai ser uma Globosat dessas três emissoras e que pretende até no futuro virar uma Netflix. É uma tendência. Se você olhar dentro da Globosat, ela com o Globoplay, daqui a pouco não depende mais da distribuição da TV por assinatura. Hoje se assinar o site da Globo e entrar no Globoplay, você assiste tudo o que quer.

Você paga direto para Globo sem intermediário da operadoras de cabo. Se todo mundo fizer isso, as operadoras vão perder receita. Hoje a Globo, mais uma vez, com o Globoplay, saiu na frente, como fez no passado quando montou a Globosat.




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