"Dois Irmãos" peca ao colocar o estilo grandioso na frente do enredo

Estação NT

Fotos: Divulgação/TV Globo

Publicado em 10/01/2017 às 11:00:48

Por: Ariane Fabreti

Traições, vingança, desejos reprimidos, ciúmes, inveja, fúria, duelos familiares, pitadas de incesto. São temas caros a Luiz Fernando Carvalho, diretor que desde os anos 90 vem deixando na teledramaturgia brasileira a sua marca autoral.

Novamente o diretor trouxe o seu estilo barroco a “Dois Irmãos”, minissérie em 10 capítulos que a Globo estreou nesta segunda-feira (9), adaptado do livro homônimo de Milton Hatoum, um dos escritores nacionais mais bem-sucedidos em público e crítica dos últimos anos, sendo leitura obrigatória em alguns vestibulares a história dos gêmeos Yaqub e Omar (Cauã Raymond), rivais e descendentes de libaneses em Manaus. O texto da minissérie é adaptado por Maria Camargo, mais conhecida pelo roteiro do filme “Nise - O Coração da Loucura”.

A atmosfera criada por Hatoum em “Dois Irmãos” se encaixa bem no olhar de Carvalho. A obra do escritor amazonense é repleta dos temas citados no início, e na minissérie, o enredo ocorre em casarões decadentes, nas ruas e nos rios de Manaus, aspecto fiel ao estilo do diretor em tornar os ambientes personagens da história.

História esta que não é nova, mas traz apelo universal: os gêmeos de personalidades opostas, cujos ciúmes e ressentimentos afetam todos à sua volta.

O pai, o libanês boa-praça Halim (Antônio Calloni, simpático e convincente) tenta controlar a tensão enquanto lida com a superproteção da esposa, Zana (Juliana Paes amadurecida na sua atuação). Os dramas pessoais se desenrolam no pano de fundo histórico, no qual em “Dois Irmãos” se passa no fim da Segunda Guerra e na ditadura militar. A trama é narrada pelas memórias de Nael (Irandhir Santos), agregado e empregado da família.

O telespectador que tem ainda fresco na memória “Velho Chico”, trama de Benedito Ruy Barbosa dirigida por Carvalho ano passado, reconhece os pontos fortes do diretor: os cenários e figurinos obsessivamente detalhados, a direção de arte que joga a trama em um passado indefinido, a trilha sonora assumidamente dramática, os diálogos ditos com naturalidade (às vezes a dicção dos atores é até difícil de sere compreendido), e a aposta no elenco desconhecido (Raphaela Miguel, Bruno Anacleto, Monique Bourscheid, Bárbara Evans, filha de Monique Evans, em sua estreia como atriz), aposta esta que convive com atores veteranos em papeis fora de suas zonas de conforto (Juliana Paes como a mãe dos protagonistas, Maria Fernanda Cândido encarna Estelita, uma ricaça excêntrica).

O jogo de cena teatral e espontâneo, rico nos detalhes, se torna, em seu limite, uma desvantagem na minissérie. No primeiro capítulo, fica a sensação de que a história é deixada de lado em nome das impressões causadas pelas imagens (o flerte entre Halim e Zana jovens, a decoração fantasmagórica do casarão de Estelita, o sexo coreografado dos casais, a longa festa de casamento dos pais dos gêmeos). Tantas cenas que parecem pinturas são belas no livro de Milton Hatoum e ajudam a conduzir o enredo, mas na telinha, elas saturam, cansam o telespectador. Problema também enfrentado por “Velho Chico”.

Ousar no visual e na narrativa se tornou especialidade da Globo há muito tempo, entretanto, “Dois Irmãos” prova que é sempre melhor colocar a história antes da marca autoral, e não o contrário.


Ariane Fabreti é colunista do NaTelinha. Formada em Publicidade e em Letras, adora TV desde que se conhece por gente. Escreve sobre o assunto há oito anos.



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