Como a televisão cobriu o trágico acidente que ficará marcado na história

Território da TV

Fotos: Divulgação/Reprodução

Publicado em 30/11/2016 às 11:43:04

Por: Lucas Félix

29 de novembro de 2016 é uma terça-feira que ficará marcada na história, pelo trágico acidente aéreo que culminou na morte de 71 pessoas entre jogadores, comissão técnica e dirigentes da Chapecoense, além de jornalistas de televisão, rádio e internet.

Descrever os acontecimentos desse dia em que o mundo observou consternado a comoção no Brasil é o registro de um dos momentos em que esse país mais se uniu pelo luto.

Os precedentes para tamanha comoção são raros, datam há mais de 20 anos, com duas outras fatalidades que interromperam no auge sucessos que eram referência para nação naquele instante. Em 1994, a morte de Ayrton Senna, um ídolo nacional, o único até hoje que ganhou honras de chefe de Estado sem jamais ter passado por um cargo público.

Dois anos adiante, o choro seria pelo grupo Mamonas Assassinas, aí sim um paralelo mais fácil de ser traçado, pela igual coletividade das vítimas e a circunstância de um desastre aéreo, além da ascensão rápida em comum.

Também se iguala a condição de que se com Senna o país assistiu ao vivo ao acidente, com os Mamonas e agora, com o time da Associação Chapecoense de Futebol, a descoberta foi lenta. A dor surgiu em doses graduais.

Boa parte dos brasileiros ainda dormia quando vieram as primeiras e desencontradas informações sobre o desaparecimento, talvez um pouso forçado. As piores previsões falavam somente em feridos. Mas as horas se passaram. Quando os trabalhadores se colocavam de pé, o prefeito de Medellín já falava em ao menos 25 mortes. Pouco depois, esse número praticamente triplicaria.

Só que dessa vez a frieza dos dados é o que menos importa. Sim, da morte dos Mamonas para cá choramos muitas vezes. Como se esquecer de outras tragédias no ares, como os voos 1907, 3054 e 447? E o incêndio na boate Kiss então?

Foram momentos impactantes. Mas em que nos vimos compadecidos com quem estava envolvido diretamente na tragédia. Ontem, é como se o “olho do furacão” estivesse perto de nós, mesmo para quem talvez nunca tivesse visto um jogo da Chapecoense na íntegra.

No país que mais ama o futebol, o abalo do pior desastre de todos os tempos envolvendo atletas profissionais. Nem mesmo os lendários casos com as equipes do Torino ou do Manchester United tiveram tantas vidas ceifadas entre jogadores que honravam as camisas das equipes.

Quando as primeiras equipes da televisão brasileira começaram a mencionar o caso, os eventos narrados nesse prólogo eram inimagináveis. Globo News e SBT foram os primeiros canais e informar sobre o sumiço da aeronave.

No caso do “SBT Notícias”, pode se dizer que tal como em outro recente furo, na morte de Fidel Castro, a cobertura foi bem conduzida diante da estrutura do canal.

Às 4h10, foi a vez da Globo interromper sua programação com uma informação “preocupante e importante demais”. Naquela altura, se baseando na imprensa colombiana, o canal já bancava a queda do avião. A apresentadora Monalisa Perrone retornaria em todos os intervalos da programação até o “Hora 1”.

O SporTV, que transmitia ao vivo a semifinal da Copa do Mundo de futebol feminino sub-20 entre Coreia do Norte e Estados Unidos, também passou a se dedicar aos acontecimentos, com Fernando Saraiva, apresentador do “SporTV News”, sendo convocado. E foi justamente uma repórter do canal a primeira a entrar da porta do hospital para que eram levados os sobreviventes: Lívia Laranjeira, que foi um dos destaques da cobertura, fazendo literalmente do “Hora 1” ao “Jornal Nacional”.

A jornalista, que não era muito acionada mesmo no canal fechado, passou por uma prova de fogo para qualquer profissional de forma física e emocional. E passou com louvor. Conduziu seus links de forma segura e sempre trazendo informações precisas. Um achado no meio da trágica circunstância, podendo ser comparada com a atuação de Carolina Cimenti pela Globo News durante os atentados em Paris.

Além dela, repórteres da RBS em Florianópolis e Chapecó completaram as entradas durante o “H1”, que por muitas vezes foi repetitivo, até de modo proposital, para informar o público que ia se somando na transmissão. O jornalístico foi esticado em 45 minutos, sendo sucedido por um rápido boletim das notícias locais, de apenas 15 minutos. Logo depois, começou uma longa edição do “Bom Dia Brasil”.

Mas ainda na faixa das 6h, foi quando o “Primeiro Impacto” assumiu a cobertura do SBT, por exemplo. Com seu jeito exagerado, o apresentador Dudu Camargo deu um tom de sensacionalismo que não vinha sendo adotado por João Fernandes e Cassius Zeilmann. A situação só melhorou com a chegada de Bruno Vicari, um especialista em futebol, para ajudar na condução.

Na Globo o “Bom Dia Brasil” também marcou a inserção de Galvão Bueno, direto dos estúdios de São Paulo, onde horas antes tinha comandado o “Bem, Amigos” para o SporTV, reforçar a equipe ao lado de Rodrigo Bocardi.

Do Rio, Ana Paula Araújo, Chico Pinheiro e Luis Ernesto Lacombe também conduziam a edição especial, com mais de três horas de duração. E o fizeram sem excessos, adotando um tom respeitoso diante do tamanho da tragédia, sem abrir espaço para as diversas especulações que pipocavam.

Durante a cobertura, duas revelações relevantes para o meio televisivo. A de que Galvão possivelmente narraria o eventual jogo de volta da final da Copa Sulamericana, no próximo dia 7. E também o desabafo de Lacombe, que já morou em SC, ao comparar o 29/11 com o 11 de setembro, no qual foi o primeiro âncora brasileiro a narrar os atentados no World Trade Center, quando ainda acreditava se tratar de um acidente.

A partir dessa edição do “Bom Dia”, a Globo ficou absolutamente em rede para todos os fusos do país pelo dia inteiro, antecipando a grade de acordo com o respectivo número de horas entre Brasília e a região. Um gesto de grande sensibilidade para priorizar a informação, mas que não foi repetido por suas concorrentes.

Ainda na Globo, “Mais Você” e “Bem Estar” foram cancelados e o “Bom Dia Brasil” entregou diretamente para o “Encontro”, que decepcionou. O programa não abriu mão de seu formato normal, mesmo que alterando a temática.

Ao deixar de ouvir jornalistas e envolvidos no caso para falar com especialistas genéricos, como uma psicóloga que bradava grosserias diante do luto, como sobre a falta de efetividade de solução das lágrimas e o “lado bom” de tragédias, enquanto parentes dos vitimados falavam por telefone, o programa retrocedeu em relação ao bom trabalho que o jornalismo vinha desempenhando.

Os momentos mais impactantes do “Encontro” foram feitos ainda por Galvão Bueno, que chegou a se emocionar. Ele, porém, precisou logo sair para se deslocar de SP ao Rio de Janeiro, onde comandaria mais tarde o “Jornal Nacional”.

Em simultâneo, na TV aberta, a Band prosseguia com sua cobertura, muitas vezes fazendo pool entre seus canais de esportes e notícias, e a Record passava a ter Cláudia Reis, do “Esporte Fantástico”, fazendo intervenções no “Hoje em Dia”.

Na TV fechada, todos os canais por assinatura já se dedicavam integralmente ao ocorrido, incluindo André Rizek no “Redação SporTV”, que propiciou um dos mais simbólicos momentos até então ao mostrar as imagens da milagrosa defesa do goleiro Danilo ao final da semifinal contra o San Lorenzo, que garantiu a classificação para a decisão, com a narração de Deva Pascovicci, no Fox Sports. Tanto o locutor quanto o arqueiro morreram no desastre.

Aliás, a Fox, o canal mais atingido pelas perdas humanas, conseguiu manter um padrão (na medida possível) sereno ao longo de sua grade, sem destoar das concorrentes nesse sentido.

A emoção se espalhou também pelas afiliadas, já que diversos jogadores eram originários ou já haviam trabalhado em muitas das unidades da federação. Por todo o país, foram vários os telejornais locais encerrados em silêncio após dedicarem boa parte do tempo local para a cobertura que realmente interessava não só nacional, como até mundialmente.

Os estados não tiveram, porém, suas edições próprias do “Globo Esporte”. O Brasil inteiro se uniu com a apresentação de Alex Escobar em torno de apenas uma pauta: a repercussão esportiva do acidente, que já havia despertado cenas comoventes, como os minutos de silêncio nas aberturas dos treinos de Real Madrid e Barcelona, além das homenagens de todos os grandes clubes brasileiros nas redes sociais.

Na sequência, o “Jornal Hoje” se aprofundou em detalhes sobre os fatores que motivaram o acidente e o drama das famílias. Já o “Vídeo Show”, mantido, também foi dedicado somente ao desastre, servindo para uma cobertura dos bastidores, trazendo o clima de luto na redação do esporte de São Paulo, com Ivan Moré e Casagrande dando depoimentos tocantes ao vivo para a repórter Marcela Monteiro.

Bem melhor do que faziam o “Fofocando” (SBT) e o “A Tarde é Sua” (RedeTV!), que davam corda para supostas teses de videntes que teriam previsto a tragédia.

Nos canais de esportes o tom era, claro, outro. Comentaristas fizeram depoimentos emocionados, refletindo sobre a dimensão de um fato desses na vida dos indivíduos. Nesse meio, chamou a atenção a decisão editorial do Esporte Interativo de não ouvir familiares das vítimas, que não teve grande interferência na cobertura do canal, mostrando a falta de necessidade de se indagar aos enlutados nesse momento, já que o ganho informacional é nulo.

Da ESPN veio outro momento digno de nota. Rogerio Vaughan não narrou os gols do Liverpool na Copa da Liga Inglesa em sinal de respeito ao momento. O silêncio também foi a opção da torcida do time, num momento de abalar mesmo o mais indiferente ao acontecido.

Na Globo, após o “Vídeo Show”, a rede seguiu acompanhando inserções de Giuliana Morrone nos intervalos comerciais, enquanto Santa Catarina ficava com um programa especial intitulado “Tragédia no Futebol”. No estado que mais sofre com o luto, as novelas também foram reduzidas, para permitir mais espaço ao “RBS Notícias”.

Quem teve todo o espaço também foi o “Jornal Nacional”, que conduziu uma das mais emocionantes edições de sua história de décadas. Aberto anunciando sobre “o Brasil perplexo e comovido” em sua escalada monotemática, o principal telejornal do país foi até quase às 22h, em praticamente 90 minutos de duração.
 
Giuliana Morrone e Heraldo Pereira, esse substituindo William Bonner por causa da morte do pai, deram conta do recado ao intercalarem as matérias que colocaram o Brasil novamente aos prantos. Não havia como não ficar tocado acompanhando as homenagens do mundo, numa onda que lembrou a feita em solidariedade aos franceses após os atentados em Paris, nem mesmo ao ver a multiplicação da grande tragédia em dezenas de dramas individuais.

Seja entre os jogadores, seja entre os jornalistas, histórias promissoras foram interrompidas. Aos montes. Mais precisamente 71 vezes. Para contá-las, três enviados especiais para a Colômbia (Lilia Teles, Ari Peixoto e Marcos Uchôa). SporTV e Globo News também mandaram equipes até Medellín, aliás.

No “JN”, a cobertura de Chapecó foi reforçada pelos profissionais de Florianópolis. O time de São Paulo e do Rio conduziu as biografias, enquanto o correspondente Pedro Vedova trouxe o retrato da consternação global. Em resumo, uma grande estrutura.

Mas o simbolismo é que ajudou a colocar essa edição no hall das que serão lembradas por muitos anos como marcantes. A redação lotada como jamais antes se colocou inteira de pé para aplaudir os agora eternos ocupantes do avião.

Antes, nas idas para os breaks, as vítimas já haviam recebido homenagem nominal.

E se o som das palmas no “JN” ainda ecoa, não menos singular foi o silêncio em diversos momentos do “Jornal da Globo”. Finalizar esse texto no tópico anterior até o deixaria mais poético, mas é impossível desconsiderar a grandeza de William Waack, que trouxe a visão mais clara sobre o acidente em si até o momento, despertando novas sensações no público quase 24 horas depois das primeiras informações.

Não serão as únicas. Os próximos dias devem manter o clima de arraso em todo o Brasil. Oficialmente serão mais dois de luto em todo o território nacional, mais seis no futebol.

Mas o sentimento deve ir bem além, seja em nossos corações, seja nas TVs. O NaTelinha, claro, seguirá acompanhando os desdobramentos que constroem um momento pelo qual 2016 será gravado de uma forma que ninguém gostaria.

O colunista Lucas Félix mostra um panorama desse surpreendente território que é a TV brasileira. Ele também edita o http://territoriodeideias.blogspot.com.br e está no Twitter (@lucasfelix)



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