Caras e Bocas é a quarta novela da parceria entre Walcyr Carrasco e Jorge Fernando, autor e diretor geral da mais recente trama das 19 horas da Rede Globo. No entanto, para o autor não é muito importante criar uma identidade, de novela para novela, “mas sim um estilo”. Para o novelista, a nova trama da Globo fala de “amor com humor” e tem uma “linguagem moderna e descontraída”.
Em conversa com o NaTelinha, Walcyr Carrasco esclarece que Malvino Salvador é um ator “que está em pleno crescimento”, pelo que a sua “sensibilidade” é essencial na composição do protagonista da trama, Gabriel. O outro lado da principal relação amorosa será vivido por Flávia Alessandra que, contrariamente, ao divulgado em toda a imprensa em geral, caminha para a sua quarta protagonista, depois de ‘Meu Bem Querer’, ‘Porto dos Milagres’ e ‘O Beijo do Vampiro’. Apesar das várias personagens no currículo, Walcyr Carrasco considera que a atriz não necessita de se “desvencilhar das suas personagens anteriores”, pois fez todas “muito bem”.
Para o novelista, que revela que Caras e Bocas surgiu “de vários encontros” consigo mesmo, faz sentido voltar a trabalhar com os mesmos atores nas suas novelas, já que “eles expressam muito bem aquilo que se escreve”, tal como a Elizabeth Savalla. Walcyr Carrasco considera ainda que, com a inclusão de uma atriz cega no casting da sua trama, vai ser “dado um passo fundamental na inclusão do deficiente visual na vida profissional”, pelo que reservou para a atriz “a mais bela história romântica da trama”.
Além desses temas, Walcyr Carrasco aproveitou ainda para falar do nome da novela, da paixão pela arte, da decisão de gravar na África do Sul, da sua paixão por Deborah Evelyn e, finalmente, do estímulo que a concorrência provoca com a abertura de mais um mercado de teledramaturgia. Confira:
Por quê o nome 'Caras e Bocas' para falar de uma novela, cujo casal protagonista está, de algum modo, relacionado à arte? Isso se deve ao macaco que vai integrar o elenco da trama?
Walcyr Carrasco: O nome Caras & Bocas se refere a sofisticação da personagem Dafne (Flavia Alessandra) e a um segredo que acontecerá mais para o final.
Eu adoro artes plásticas, tenho uma bela coleção. Acho um universo fascinante. Como conheço bem, me permiti brincar com ele. E o macaco Xico está na trama justamente para desmistificar o universo das artes, sempre de maneira muito engraçada.
Como surgiu a ideia de 'Caras e Bocas'? Você retirou para a trama inspiração de onde?
Walcyr Carrasco: Eu faço meditação. A trama surgiu nos meus encontros comigo mesmo, pensando em que história gostaria de contar. E eu queria uma história que fosse divertida de escrever!
Tráficos de animais, arte, judeus e pessoas com deficiência visual são alguns dos temas que serão explorados na sua novela. Já estavam fervilhando na sua mente mesmo com a exibição de 'Sete Pecados'? Como você pretende dosear os temas na sua novela e de que modo estarão relacionados?
Walcyr Carrasco: A medida de cada tema será dada pela minha intuição. Assisto a cada capitulo e tento sentir à novela como um espectador. As sensações que as tramas me provocarem me darão essa medida. A maneira como estarão relacionadas? Bem, isso é toda a novela!
Por que a insistência no nome da Flávia Alessandra para protagonizar a sua Dafne? Você acha que a atriz conseguirá se desvencilhar de suas anteriores protagonistas, a de 'Porto dos Milagres' e a de 'O Beijo do Vampiro'?
Walcyr Carrasco: Eu adoro o trabalho de Flávia Alessandra. Tivemos uma grande parceria em Alma Gêmea onde ela fez a vilã.
Quanto à segunda parte de sua pergunta, não concordo. Flávia não tem que se desvencilhar de nenhum papel, pois fez todos muito bem, e todos contam em sua carreira brilhante. Depois desses que você citou, ela já fez vários outros com grande sucesso, como recentemente em Duas Caras.
E Malvino Salvador? Ele está preparado para suportar um papel desta envergadura?
Walcyr Carrasco: O Malvino é um ator que surpreende, que está em pleno crescimento. É um bom ator, sensível e forte quando necessário. Gabriel tem justamente isso, a sensibilidade, a força e também o humor do Malvino.
Que contrariedades o amor entre Dafne e Gabriel encontrará? E como eles vão se reencontrar?
Walcyr Carrasco: Caras & Bocas fala do amor entre contrários, ela rica, sofisticada, ele simples, pobre. Mas os dois são unidos por seus sonhos. O reencontro será armado por Bianca, filha dos dois. Ela procurará o pai e tentará uni-lo à mãe para que Dafne possa assumir a direção das empresas de Jacques. Será um cupido interesseiro, mas com o tempo começará a se sensibilizar pelas qualidades do pai, a gostar dele e a abrir seu coração.
Por que a decisão de regravarem as primeiras cenas dos personagens do Malvino Salvador e da Flávia Alessandra com 15 anos? O que falhou nas gravações anteriores?
Walcyr Carrasco: Optamos por regravar com outros atores as cenas que se passavam há 15 anos para ter mais veracidade.
Você se sente mais à vontade trabalhando com alguns atores que transitam, sistematicamente, de uma novela criada por você para uma outra, também de sua autoria? Não acha que isso acaba por conotar, de forma positiva ou não, um determinado ator?
Walcyr Carrasco: O autor acaba estabelecendo uma relação profissional forte com alguns atores, que expressam melhor aquilo que ele diz. Isso acontece em todo o mundo. Eu sinto uma extrema confiança ao dar um papel, por exemplo, para Elizabeth Savala.
A inclusão, pela primeira vez, de uma atriz cega na sua novela acrescenta o quê à teledramaturgia brasileira? Sendo uma atriz real a desempenhar esse papel, transmite, forçosamente, mais realismo ao mesmo?
Walcyr Carrasco: A participação da Danieli em Caras & Bocas é um passo adiante para a inclusão do deficiente visual na vida profissional. Ela fará e bem um papel, demonstrando que quando há talento, não existem deficiências físicas. Obviamente a simples presença dela remeterá a uma discussão sobre a questão do deficiente visual em toda a sociedade brasileira. Mas a Anita viverá uma história romântica, uma paixão, terá sua história. Vai se apaixonar por um garçom, o Anselmo, e essa é talvez a trama mais romântica da novela.
Os atores pertencentes ao núcleo judaico da sua trama tiveram algum tipo de preparação em específico? Se sim, de que tipo? Acha que o público pode torcer o nariz para a reprodução do Judaísmo que você incluirá em 'Caras e Bocas'?
Walcyr Carrasco: Temos sim a assessoria de um rabino porque é preciso respeitar a forma de viver e pensar dos judeus ortodoxos. Acredito que o publico ficará fascinado pela sabedoria e modo de ver a vida desse povo.
Trabalhar com a Deborah Evelyn era um desejo antigo seu? Por que você deu à atriz logo um papel de grande vilã? Você acha que ela se sai bastante melhor nesse tipo de papéis?
Walcyr Carrasco: Sim, desde que a vi numa peça de teatro. Ela estava incrível, fantástica, e resolvi trabalhar com ela na primeira oportunidade. Ela faria bem qualquer papel, mas eu tinha uma vilã.
Que outros atores e personagens você destacaria em 'Caras e Bocas'?
Walcyr Carrasco: Adoro o personagem do Pasquim e o da Ingrid, que farão uma dupla muito interessante.
Por que a decisão de ambientar parte da sua trama na África do Sul? Em tempos de crise mundial, não poderia a trama deixar de viajar até esse país africano?
Walcyr Carrasco: Se eu gosto de um lugar, quero que o público também conheça. Para mim, o público é um amigo com quem quero compartilhar tudo aquilo que gosto.
Qual a contribuição que as gravações no exterior acrescentam às novelas brasileiras?
Walcyr Carrasco: É uma forma de conhecer lugares especiais, diferentes. Eu adoro ver programas de viagens por televisão. Por que o público não gostaria?
Por que a decisão de voltar a trabalhar com Jorge Fernando? Não acha que esse conhecimento mútuo que vocês já têm do trabalho um do outro pode, também, contribuir para que a novela não tenha uma identidade diferente das outras já fabricadas por vocês?
Walcyr Carrasco: Eu e o Jorginho nos entendemos muito bem e isso é fundamental para o trabalho. Não estou de fato preocupado em criar uma identidade diferente e sim em criar um estilo.
O que você acha da queda sistemática das novelas brasileiras em geral? Te incomodaria que 'Caras e Bocas' desse o atual ibope de 'Três Irmãs' ou um ibope ainda menor? Por quê?
Walcyr Carrasco: Não escrevo pensando em números, o que não pode faltar é o coração do autor. A entrega tem que ser total ao que se está escrevendo. Sempre digo que o autor só consegue escrever bem quando escreve de dentro para fora e não de fora para dentro. Se eu ficar preso a números, não vou deixar minha criatividade sair para fora.
Como você vislumbra uma eventual concorrência no horário das 19h com a adaptação que a Rede Record já está fazendo do sucesso mundial 'Betty, a feia'? É páreo para você?
Walcyr Carrasco: Eu acho muito positivo o fato de outras emissoras investirem em teledramaturgia. A teledramaturgia é também um importante produto de exportação brasileiro, com repercussão internacional. Deve ser estimulada, incentivada. E a concorrência estimula a criatividade!
Como você descreveria 'Caras e Bocas' para os internautas do site?
Walcyr Carrasco: É uma novela de amor com humor. Tem uma linguagem moderna e descontraída. E fala de coisas que estão acontecendo no nosso tempo sem perder o romantismo. Conta a história de amor entre uma mulher sofisticada e feminista, a Dafne, vivida por Flávia Alessandra, e um dono de bar de classe baixa, machão, que um dia foi pintor mas desistiu de seus sonhos, o Gabriel, vivido por Malvino Salvador.